Em busca de uma cova pra cair:
“Eu tenho que pagar pra ficar aqui?”
Aluguel trienal de jazigo
morrer de graça é impossível.
seen from China
seen from China

seen from Lithuania

seen from Italy
seen from Canada
seen from China

seen from China
seen from Argentina

seen from United States

seen from France
seen from Malaysia
seen from Yemen

seen from United Kingdom
seen from Norway

seen from United States
seen from Singapore

seen from Singapore
seen from Iraq

seen from Singapore
seen from United States
Em busca de uma cova pra cair:
“Eu tenho que pagar pra ficar aqui?”
Aluguel trienal de jazigo
morrer de graça é impossível.
Eu olho pra você, menino descalço, pisando tudo que é prego e caco de vidro e te amo mais pelos cortes que vai ganhando. E sinto ódio do ontem que te engendrou assim tão ríspido e sem freios, com esse pés que não se importam mais com asfalto quente. Eu sinto ódio e amor e quero a licença de te chamar, menino. Miúdo, cínico, mau. Mau. Me pega pelos ombros e me chacoalha pra realidade. Menino. Mau. Morando do lado de dentro da minha cabeça. Um dia chega a ser gente.
Ana Favorin
Vãos, ventos e assovios
De repente tem um vão no peito. Uma fresta dessas entre uma tábua e outra, compreende? Na casa de minha vó, logo cedo o sol entrava por uma dessas frestas, levantando uma poeira bailarina, aquecendo o lado de dentro da gente. E tinha noites, que por esses mesmos espaços de claridão, passava um vento dolorido e assoviante. Diga que compreende. É isso a tua ausência. Uma pequena fissura, quase não se nota, mas passa tanto, passa tudo. E às vezes prego o olho, bem ali, pra ver se enxergo do outro lado. E assim, olhando bem, apertando os olhos, forçando a vista, vejo as constelações das tuas costas. Repara. Bem ali está Antares, o coração do escorpião. Repara também nesse jeito tão nosso de enroscar dedos, bocas, pernas e corpos. Tão colados. A calma de quem aprende o outro, tão simples. Gosto das descomplicações que aparecem em mim quando você me toca, tudo se desembaraça, já viu como é? Sabe, eu dobrei aquele seu bilhete bem dobradinho e enfiei nesse vão, que é pra ver se passa menos vento doendo e assoviando. Tira o sossego da gente isso de dói e assovia, dói e assovia. Mas vou dizer, que é bonito ver a luz que entra por ali com toda aquela poeirinha de lembranças dançantes... Ah! isso é.
Ana.
Em todas as suas orações, pedia ao seu deus que fossem mesmo moinhos de vento, cada um dos seus dragões.
Sempre recebida a beijos e pancadas. teme que a ouçam, das outras casas. Tira os brincos. Orelhas inflamadas. Se deita e, em silêncio, reza limpando as feridas de suas asas.
Ana.
Você, como todas as outras coisas que não compreendo, chega no meu ouvido. Não sei se é grito ou sussurro. Se é convite ou socorro.
Ana
Aconteceu, como acontece todos os dias, com tanta gente por aí, que você deixou de se importar. É calda de açúcar, compreende? Aquelas que vão bem em cima dos pudins. Se passar do ponto, cristaliza. Vira outra coisa. Ainda doce. Mas outra coisa. Eu passei do ponto com você. Repetidas vezes. Por não ter receita pra olhar, por não saber direito como é que funcionam essas coisas que precisam, invariavelmente, de doçura e calor. Aconteceu, como acontece todos os dias, uma receita que deu errado, o fim de um amor mal parido. Tudo bem. A gente vai se ajeitando de novo, se arranjando, sentindo o cheiro do açúcar queimado. Acostumando com isso, esse passar do ponto que acontece todo dia, com tanta gente por aí.
Ana
A alegria do domingo é ser só com meus livros, chás, filmes e poemas. É não ter pressa de chegar em lugar nenhum, não ter hora marcada. A alegria morna do domingo é esquecer, quase o dia inteiro, que amanhã é segunda, tem leitura obrigatória, texto pra corrigir e aula pra dar. Tem ônibus cheio de gente. Gente que já acorda cansada. É que não descansa quem correu com o domingo, sem conseguir esquecer a segunda. A alegria do domingo é a lentidão.
Ana
Eu sou sempre a que fica até o fim, revirando os escombros em busca de alguma coisa que ainda esteja inteira. Sempre enchendo os pulmões de poeira e fumaça, sempre se ralando nas aspereza do mundo. Menina ainda. Quando é que o peito sossega e deixa de ser um cantor da tropicália performando num palco gigantesco? Sinto, nuns dias como esse, que não suporto mais esses arranhões que, com a licença de Stendhal, apenas roçam na pele dos que passam, mas me ferem de morte.
Ana.