14 de fevereiro de 1995.
Pedi a minha afilhada que escrevesse, pois embora minhas condições não favoreçam, quero lhes contar uma história, além do mais, ela quem insistiu em vos contar e por fim, creio que de todas as palavras ditas aqui, nenhuma virgula será diferente das que saírem de minhas entranhas, pois meu desabafo é como desengasgar de meu peito os tormentos de todas minhas noites sem dormir.
É verão e como de costume estou engasgando-me com essa água salgada que cai de meus olhos quando minhas pálpebras resolvem relaxar do ardoso ar das lembranças. Gosto de embelezar essa angustia, não é para menos, se vai para o papel que vá ao menos de bonita forma, é só o que resta-me, pois não me recordo um momento sequer que eu tenha sentido-me inteira desde aquele dia — há 20 anos. Partes de mim ficaram, se não em demasia meu todo, naquela imensa escuridão na ultima noite do verão de 1975. Já vieram dezenas de verões, está constatado, mas nenhum trouxe o que me foi tirado, isso é impossível. Aquele verão levou o júbilo que enfeitava o rosto que hoje encontro umas vinte ou vinte e uma rugas, não ostentadas só pela idade, tenho 72, mas aparento ter vivido 100 anos de angustia. Sim, minha face está deformada pelas cicatrizes de um tenebroso adeus que não sai da mente, que penetra meus olhos como uma imagem implantada nos meus lobos occipitais. Adeus não-dito, adeus exposto. Exposto no sangue derramado na rua quase deserta que passava cavalos negros, transparecido na mão jeitosa e desesperada levada ao peito, daquela apavorada moça que passava. Adeus que engasgou minh'alma, que entrou e rompeu-se dentro de mim como um veneno, que atirou-me no chão e fez-me contorcer como uma indesejável humana convulsionada, capaz de sentir terrível dor. Foi o medo tomando conta de mim, o medo da perda, da solidão, o medo do desconhecido, o medo de nunca mais ver José. Minha'lma vagando num abismo purgatório, o folego sumindo a medida que batidas fortes e tenebrosas de meu coração ficavam mais lentas, batidas mefistofélicas que nunca pararam, que fraquejam e assustam, mas que nunca cessam, nem naquela noite de verão e nem hoje. Esquecer aquela cena foi e sempre será meu pedido de misericórdia à Deus. Mas aquele momento, há 20 anos atrás, parece-me tão recente quanto o cigarro que Anastácia — minha afilhava que vos escreve — acabou de fumar e ainda se apaga no cinzeiro. “Ele era um bom homem”, eu ainda ouço os gritos, um pouco distantes, não por já ter passado anos na memória, mas pelo zumbido que tomou conta de meu ouvido, aquela noite, que quase abafava o mundo. Lembro que olhava os lados e não via ninguém, os gritos continuavam e eu sabia que eram sobre José, tinha de ser, pois ele era o único ajoelhado no chão, apoiando seu corpo fraco no meu braço. Na verdade, como poderia eu saber se havia outros? Aquele momento me cegou, só vi a ele. Só enxerguei, naquela noite, o amor de minha vida sendo arrematado pela morte. Ah como me é clara essa lembrança, vi o filme de nossa vida passar enquanto ele apertava fraco meu braço, já quase sem força, na tentativa de se levantar. E naquele fraco aperto, relembrei nossos votos de casamento sobre aquele céu ensolarado e de como Anastácia se atirou para alcançar o buquê que fiz questão de jogar-lhe. Relembrei nosso primeiro beijo, ah, naquele tempo era de tanto receio beijar, mas lembro, como se ainda fosse adolescente, o macio dos lábios dele acariciando os meus. Por último lembrei de nossa lua de mel e de como eu tremi em seus braços, mas não tanto como ele tremeu nos meus aquela noite, meus devaneios cessaram. Quando me abaixei e tomei seu corpo, já caído ao chão, quase pude sentir sua alma saindo junto com o sangue pela sua boca entreaberta, quase senti seu espírito acalentar o meu como um gesto de despedida, ao ver seu rosto molhado por minhas lágrimas eu gritei, gritei culpando-o por me deixar, por sair aquela noite, por querer comprar-me tulipas. Aquele airoso homem caído em meus braços, que jurou-me até que a morte nos separe, não chegou a ouvir meus gritos aflitos de acusa, num risco de sorriso amedrontado ele honrou sua palavra: A morte nos separou. Minha ultima lembrança dele é esta, seu lábio contorcido em um meio sorriso ensanguentado e seus olhos arregalados e brilhantes, como se também lembrasse o dia do nosso casamento. Nós realmente acreditávamos que apenas a morte nos separaria. Mas não ali, não naquela rua com o chão sujo e molhado da típica chuva de verão do começo da noite. Sonhávamos que seria na nossa pequena fazenda, dando comida aos patos e bem mais velhinhos. Achei que fosse os patos e não uma arma sem registro que o tiraria de mim. Tínhamos a teoria de morrer quando o amor, já cansado, decidisse eternizar-nos na morte. Era para ser nós dois, morrendo juntinhos e felizes. Não ali, ele ensanguentado nos meus braços, me deixando sozinha para enfrentar um mundo inteiro de desafeto. Mas é esta cena que eu lembro quando vou dormir, tirando o tom avermelhado não fica tão devastadora, melhor que a imagem mórbida dele em um caixão. Hum, dando procedência, depois dessa cena meu desespero está sendo eterno, até hoje sinto a mesma dor, nada menos amena. Meu luto, de início, foi respeitado por familiares e amigos, mostraram-me compaixão e afeto ao respeito que dava por meu falecido marido. 7 anos depois não pôde-se pensar o mesmo, imagine hoje, 20 anos depois. Esperavam ver-me alegre e radiante como se o tempo fosse capaz de apagar a lembrança dele sem vida em meus braços. Suponho que se perguntas se tenho meus momentos de felicidade, tenho, não negarei, mas, para o amor e a morte não há remédio, meus caros. Engana-se quem cogita o tempo como amigo. Cada ano que passa após esse dia apenas significa um ano perdido da minha vida. Minha vida que era ele e que não ouso viver em sua ausência, pouco me importa aos pensamentos alheios, porém nunca acatarei desonras a meu sentimento, nem do primeiro ao ultimo ano de luto, se não conheces algo tão puro, o que me resta sentir é compaixão por vossas almas, pois o que os contei foi como perdi meu único amor, mas tudo que vivi, com ele, ficou apenas para mim. E assumo, não vivi, em 72 anos, dor maior que a vos escrevi, mas confesso também, sem hesitação, que se pudesse eu escolher outro homem para amar e que comigo ficasse a vida toda, não ousaria em trocar José. Pois o amor que ele dedicou-me nos nossos 35 anos juntos, há de compensar o resto de meus dias a amá-lo sozinha.