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O Mapa
Olho o mapa da cidade
Como quem examinasse
A anatomia de um corpo...
(É nem que fosse o meu corpo!)
Sinto uma dor infinita
Das ruas de Porto Alegre
Onde jamais passarei...
Há tanta esquina esquisita,
Tanta nuança de paredes,
Há tanta moça bonita
Nas ruas que não andei
(E há uma rua encantada
Que nem em sonhos sonhei...)
Quando eu for, um dia desses,
Poeira ou folha levada
No vento da madrugada,
Serei um pouco do nada
Invisível, delicioso
Que faz com que o teu ar
Pareça mais um olhar,
Suave mistério amoroso,
Cidade de meu andar
(Deste já tão longo andar!)
E talvez de meu repouso...
O Mapa
Sempre senti a matemática como uma presença Física, em relação a ela vejo-me Como alguém que não consegue Esquecer o pulso porque vestiu uma camisa demasiado Apertada nas mangas. Perdoem-me a imagem: como Num bar de putas onde se vai beber uma cerveja E provocar com a nossa indiferença o desejo Interesseiro das mulheres, a matemática é isto: um Mundo onde entro para me sentir excluído; Para perceber, no fundo, que a linguagem, em relação Aos números e aos seus cálculos, é um sistema, Ao mesmo tempo, milionário e pedinte. Escrever Não é mais inteligente que resolver uma equação; Porque optei por escrever? Não sei. Ou talvez saiba: Entre a possibilidade de acertar muito, existente Na matemática, e a possibilidade de errar muito, Que existe na escrita (errar de errância, de caminhar Mais ou menos sem meta) optei instintivamente Pela segunda. Escrevo porque perdi o mapa.
— Gonçalo M. Tavares
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