O pretexto
Ela parou em frente a porta. Porta branca, velha, resistente.
Pensou no quão estranhamente silenciosa ela era: não havia rangidos – era como se ninguém nunca chegasse em casa. Analisou o batente por uma fração de segundos; o lado de dentro estava corroído pelo tempo, a pintura estava gasta, as farpas pareciam crescer entre uma dobra e outra. Já do lado de fora, a porta mantinha-se intacta, e quem passava por ali tinha certeza de que ela era quase nova, bem conservada, perfeita (para uma porta). A fechadura, ainda que brilhante, guardava um segredo só dela – ninguém saberia dizer onde estava a chave. A moça sorriu ao contemplar a idéia de que, no fundo, ela era aquela porta, tão inanimada, tão morta, tão parada, tão sólida. A mentira mais material que já existiu. O resto do cômodo não tinha muita coisa, mas a medida em que os dias passavam, menor ele ficava. Até aquele dia, em que uma sala comum havia virado uma prisão claustrofóbica, escura, gélida. O barulho do relógio ecoava. Quando ela pensava em ficar ali, os ponteiros congelavam, e imóveis, presenciavam aquele confinamento. Mas todas as vezes em que ela pensava em deixar o local angustiante, o tempo corria, e ela já não podia mais alcançá-lo. Agora, entretanto, ela tinha certeza. As malas estavam prontas: vazias de roupas, de dinheiro, de bens; lotadas de saudade. Ela não lembrava de onde estavam as chaves. Colocou sua música favorita para tocar repetidas vezes, na esperança de afastar qualquer pensamento negativo, azar ou mau-olhado. Nas batidas rítmicas, começou a varredura: depois do balcão, da mesa, da cama, foi a vez do chão, dos vãos – atrás dos móveis, debaixo da pia, em cima dos abajures. Por fim, numa luta inútil, quase desesperada, ela resolveu que era hora de investigar as sacolas, os entulhos, as gavetas. Com a contagem regressiva agora voando, o coração dela deveria sair por sua boca a qualquer minuto. Ela estava tão calma antes. O que mudara? Não ter as chaves. Na bolsa que ela tanto gostava, não encontrou o chaveiro, mas sim o ingresso do primeiro filme que eles viram juntos – e lembrou com saudade do quão chato havia sido a película. Na carteira que ela tanto usava, não encontrou o molho, mas sim o primeiro bilhete que ele escreveu – e admirou a caligrafia que ela agora tanto odiava. No fundo do armário que ela tanto abria, não encontrou as chaves, mas sim as folhas contendo a primeira música que ele fez só para ela – e pensou que já nem se lembrava dos acordes, muito menos das palavras. Então o coração desacelerou, uma lágrima caiu (depois de muitos anos), e ela sentou ali mesmo, no carpete empoeirado, pra ver se conseguia tirar um pouco da poeira que ficou nos cantinhos vazios da sua alma. A água salgada haveria de lavar o corpo maltrapilho, doente, enrijecido pelos golpes duros que o destino tinha guardado pra ela. Ela acharia uma maneira de amá-lo de novo – ou ser, assim como a porta, uma mentira escancarada, da cabeça aos pés.
A porta estava destrancada, e ela sabia. Mas o pretexto de ficar afim de encontrar as chaves era mais libertador que as asas do avião.
Thaisa Leite Meyka









