No princípio era o Verbo.
Um sussurro percorreu, rápido e ecoante, no universo em expansão: “Exista!” A explosão cósmica teve, então, seu início na escuridão ameaçadora: a liberação de energia, tal como havia sido programada, culminou no espaço-tempo. Mas Ele estava ocupado demais para prestar atenção, brincando com as partículas subatômicas, modificando-as, jogando-as, colidindo-as. Da inocente brincadeira, resultou uma química impecável. De uma extensão a outra, ficou frio. “Se casacos já existissem, ainda assim eu não precisaria deles.”, pensou Ele. Do breu, do escuro, do preto, nasceu o lilás – tal uma flor violeta, tudo desabrochou. E então o roxo tornou-se amarelo, e então laranja, e depois vermelho. Tais cores jamais haviam sido percebidas; nem seriam agora, pois Ele não tinha pálpebras. As partículas, algumas apenas pobres elétrons solitários, casaram-se com os núcleos atômicos, e seus corações, alegres, dançaram em perfeita harmonia. Dessa união, o fruto foi a luz. Tudo era límpido. Os elementos químicos encontraram-se e, num plano sem erros, tivemos as galáxias. Ele admirava as grandes nuvens de poeira e gases que, inseparáveis, formavam rochas. Essas, por sua vez, se apaixonaram, não mais conseguindo manter-se longe umas das outras. E essas nuvens de pedras espaciais incendiaram o universo com sua paixão descabida, criando a nossa estrela central. Agora entediado, Ele decidiu nomear as coisas já existentes. E Ele nomeou o tempo. E as trevas. E a união. E até a solidão. Porém, ainda sentindo-se só, esqueceu-se de todo o resto. Num gesto de revolta, voltou a tomar o controle da situação: estava farto das obras do acaso – ou da ciência. E eis que Ele criou a mulher mais bela que já existiu. E ela possuía cabelos esverdeados, olhos cristalinos, e um ventre fértil: tão fértil que seria capaz de gerar todo o resto do mundo.
No princípio, o Caos reinava.
{Sobre o Gênesis, o Big Bang, e a Teogonia}
Thaisa Leite Meyka







