comentário sobre o feitiço das imagens no conto paraíso canibal
É verdade, um homem não precisa de muito além de boas casacas, boa habitação e o seu próprio daguerreótipo.
Acho particularmente difícil não se envolver com algum trabalho prestando atenção aos objetos de sua afeição. Quando li, no final de 2024, o então recém-lançado Nostalgias Canibais, de Odorico Leal, eu escrevia um dos capítulos da minha dissertação referente à produção e circulação de imagens em Minas Gerais, pesquisando sobre a chegada da daguerreotipia naquele estado e tentando entender por quais meandros o fotógrafo que abordo, Chichico Alkmim, teria chegado à fotografia entre o fim do XIX e início do XX. Fiquei comovida ao ler no primeiro conto do livro, Paraíso Canibal, o entusiasmo do narrador com a chegada do daguerreótipo ao Brasil. Logo ele, um indígena e canibal encantado com o feitiço da imortalidade, alguém que vivenciou tantas situações e descobertas, foi se apaixonar logo pela era das imagens técnicas, ou como ele mesmo notou: uma verdadeira obra da natureza, cuja intervenção artística era apenas o disparo da objetiva ou, a magia da luz capturada pelo cobre.
A contaminação do presente pelo vestígio material do passado é também, de alguma forma, um tipo de magia: o feitiço da técnica empregada na fotografia, ou como Benjamin pontuou, uma espécie de profecia retrospectiva.
"Isso aconteceu." — É assim que Rancière abre um parágrafo para falar de um acontecimento histórico, via registro fotográfico. Isso aconteceu. O que me leva à pesquisa envolta ao livro, ou, como um escritor acessa fatos históricos para atribuir alguma verossimilhança àquela paisagem que ainda está em formação: Insley Pacheco de fato fotografou Pedro II num ateliê fotográfico arranjado ao modo que, agora, contaminada por este conto, eu chamo de arranjos de plantas fantasma. E para mim, toda essa parte do conto, essa excitação que lhe enche de vigor mas também de ressentimento envolvidos com o fazer fotográfico, até se dar conta de que a passagem do tempo é inevitável e em algum momento todos dominariam a técnica, é um dos elementos que mais me encantou.
A febre da fotografia se atenua e os séculos de fato o atravessam com outras novidades e promessas, os cenários se alteram, e é diante de um computador que tudo lhe volta: agora, a imagem técnica não é mais produto da daguerreotipia, os registros fotográficos detêm certa autonomia, localizam movimentação por fonte de calor, dentre outras peripécias que ainda me soam como feitiçaria; e é assim que, do ponto de vista da objetiva no alto do céu, ele encara, aos prantos, na tela do computador, a fisionomia do pa'ye, aquele que deu-lhe a imortalidade e saciou a sua fome.
Pode ser que não, mas para mim, a fotografia acaba agindo como elemento central nesse conto, e estes são os momentos que mais me comoveram. Mas talvez eu realmente apenas use como bússola os objetos da minha afeição.














