flashback || aaron & olivia na infância (aos 10 e 9 anos)
Havia poucas coisas que Aaron não faria por Nes ou por Olivia. Ele não saberia dizer exatamente o quê, mas tinha certeza que deveria existir um limite. Por muito tempo, acreditou que fugir de casa sem avisar aos avós era um desses limites, até que Olivia apareceu na porta da sua casa, com uma mochila nas costas e o rosto inchado de chorar. Ele tentou racionalizar, pedir para ao menos conseguirem um quarto na Pensione Bella Vista, mas ela estava irredutível. Queria ir para a floresta, fugir, ir para um canto onde nunca pudessem ser encontrados. Tinha tentado bater na porta da casa de Nes primeiro, mas ela não havia atendido e depois tinha buscado Aaron. Ela não precisava verbalizar para ele entender: não podia deixar Liv na mão. E mesmo estando assustado e achando que não iam conseguir sobreviver muito tempo sem os adultos, e sofrendo com a perspectiva de acordar sem o seu copo de leite morno entregue na cama pela avó, Aaron pegou a barraca de super-herói que tinha ganhado no aniversário de nove anos e roubou seus biscoitos preferidos da despensa. Pegou também uns suquinhos e uma garrafa de água. Deveria ter pensado em lanterna, algo para se esquentar pela noite — para além do lençol e das poucas mudas de roupas — mas nem tudo é tão lógico para uma criança de dez anos. Aaron só pensava no rosto inchado e nas lágrimas de Liv, em como o lábio dela tremia e no sentimento de responsabilidade que ele sentia de resolver o que quer que tivesse acontecido. Ele não queria que ela estivesse triste. Quando finalmente conseguiu escapar de casa, depois de pedir que Liv esperasse na árvore mais escondida de seu quintal, segurou a mão dela com força e foi guiando o caminho. "Vai ficar tudo bem", garantiu, ainda que não soubesse disso. Mas ele é o mais velho e cabia a ele a responsabilidade de lidar com a situação. Liv não precisava saber como ele estava assustado com tudo aquilo, como odiava a ideia de dormir longe da avó, como preferia comer brócolis por um mês inteiro do que passar uma noite naquela floresta com bichos. Ela não precisava saber nem mesmo que a força com que segurava a mão dela era mais para ele se firmar e afastar os próprios medos, do que consolar ela. Aaron virou o rosto para trás, para ver como a amiga estava, enquanto mantinha as mãos entrelaçadas. "Vai dar tudo certo", voltou a dizer. "Tamo chegando na floresta, Liv. Não precisa mais chorar", murmurou, desacelerando os passos. "Por favor, para de chorar..." @oliviafb @khdpontos













