OTA: uma mixtape
Criada por Pedro Cassiano e Miguel Fonseca, a OTA (Os Três Amigos) é um projecto editorial que conta com colaboradores de diferentes pontos do planeta: Helsínquia, Porto, EUA, Lisboa e Espanha. Todo o material é lançado em cassete, estando simultaneamente disponível gratuitamente, “à distância de um clique”.
O ponto de partida foi a edição da cassete de borra-botas, no dia 1 de abril de 2016. Segundo o que nos foi dito via email:
Tínhamos, na altura, uma quantidade inicial de trabalhos assegurada que poderíamos divulgar após esta primeira cassete e, contra a dispersão de várias edições órfãs, surgiu a ideia da editora. Pareceu-nos terrivelmente aliciante a criação de uma família à volta da expressão por este meio. Havia alguns investimentos de dinheiros e esforços, mas todos eles perfeitamente ajustados à simples recompensa do prazer que iria dar em fazer.
E porquê o formato em cassete?
A cassete existe para dar aos trabalhos uma tridimensionalidade visível, um absurdo segredo manuseável, um casamento entre a maravilhosa natureza visualmente silenciosa do som e a cacofonia de objectos humanos do mundo, uma existência mais alargada. Os outros formatos físicos estão fora de questão: o vinil é demasiado caro, seria um luxo desnecessário e o cd é um suporte digital alternativo com menos pujança poética que a cassete; tem um potencial de erosão menos interessante que esta (se compararmos a degradação da fita da cassete à de um cd, percebemos que a alteração do som inicial é feita de forma muito mais subtil e continuada no caso da fita, ao passo que o cd quando se risca dá saltos na leitura, ou simplesmente não passa). Mas, no limite, é uma forma tão válida como a cassete, se alicerçado numa cultura liberta de cifrões. O formato das cassetes é relativamente barato e permite-nos uma liberdade muito grande na edição de diferentes trabalhos, sem que nos tenhamos de preocupar com a viabilidade de venda do que vamos editando. E, é claro, podemos, com menos dinheiro, editar mais trabalhos - e a quantidade é importante no trabalho que queremos fazer, até porque a qualidade é um critério que nos parece pouco recompensador de discutir nesta esfera.
A propósito de estilos ou géneros musicais que caracterizam o catálogo da editora, dizem-nos o seguinte:
A OTA existe para criar histórias, neste caso através da edição de cassetes (que são as bonitas migalhas de iceberg à tona - na base há histórias maravilhosas de comunhão e destrambelho humano). Entendemos que toda a gente tem o direito de se exprimir e acrescentar uma camada sonora a tudo o que já cá anda, sobretudo se com isso tiver vontade de escancarar a liberdade e não se deixar encandear totalmente pelas grandes correntes industriais de formas e fórmulas que se vão impondo. Não fazemos guerra, mas desertamos alegremente para uma praia ventosa mas sossegada com cães a correr à parva e boomboxes em sistema quadrifónico.
Oferecemos liberdade a quem a valoriza, e com isso é provável que construamos uma coerência qualquer, e de programático só temos isto e se calhar já é demais. Ficamos curiosos com o género que nos possas encontrar, e garantimos que não ficamos ofendidos com nada.
Até hoje, a OTA lançou um total de sete cassetes; na mixtape que aqui apresentamos, editada por Pal+, é possível ficar com uma ideia do catálogo que têm vindo a criar de há menos de um ano para cá.
Playlist:
01 - Tape000 - Pizzicato
02 - Bagatela - Dez
03 - Joe & Man - Lamela M·
04 - Borra Botas - Zé
05 - Bagatela - Tentativa 16043
06 - Heroin Holiday - Dr
07 - Joe & Man - Cotchomonia
08 - Heroin Holiday - Dusty Dreams
CAPA: a partir de artwork de Mathilde Ferreira Neves
OTA na rede:
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