Pela Hora Que A Gente Saiu
A gente acha que o tempo não passa, mas na real, o tempo voa. E com as garras a gente agarra o ponteiro, mas na boa, nem adianta. Ele passa mais rápido que os desenhos de criança, que a gente assistia de manhã ali sentado com esperança. De repente os anos passaram, e a gente nem percebeu que na verdade o tempo é o mesmo e que quem mudou fui eu, foi você, foi ela, foi ele. Mudamos os quadros, os tapetes, trocamos telhados e pintamos paredes. Vimos a vida passar pela porta enquanto a gente fugia pela janela, com o Sol nascendo na nossa cara cegando a nossa própria janela... Da alma. Buscando a calma e já nela, batendo palma pra fauna social, fugindo dos cravos nessa flora bela. Ora, pela hora que a gente saiu ninguém viu, e agora? Ficar fora da fossa é foda, fossilizando na fiel forma falando falácias feito firula. Ahhh filho da porta! Fazemos o que fazemos porque a vida não volta, e por isso cada segundo importa. A finitude dos seres terrenos dá beleza à momentos serenos que nunca saberemos a importância que terão em nossa história. Ao menos por um tempo teremos a memória... Mais ou menos um pensamento, um fragmento de uma vitória. Não exatamente de glória, pois até na derrota a gente vence, e aprende que zerar a vida só é legal no video-game. A gente quer é que continue, sempre torcendo pra passar de fase, uns querendo ser o chefão, outros a estrela do Mario Kart. Uns querem PEC outros 2Pac, no meio eu fujo dos Pacman que querem comer minha parte e fico tipo fantasma. Sou quase um fã com asma na hora que vê o ídolo, pois fico em estado de graça e de graça me arrepio ao ver no mundo o divino, mas não de modo religioso. Não ao modo das escrituras sagradas (e não digo isso de modo jocoso), mas nas pinturas e palavras pintadas no ar em versos de belas músicas. O ser humano quer ser eterno porém em corpo isto é difícil, então talvez o modo mais fácil consista em ser imortal em livros, poesias, poemas, cinema... Cultura de todo o tipo. Nosso corpo vai embora e sabe-se lá o que existe além, mas nossos atos ficam na história, sejam em nome do mal ou do bem. Uma fotografia homenageia a imagem, um instante de realidade. Palavras carregam a essência, uma experiência da personalidade. Então talvez a fonte da juventude seja na verdade a arte. Não do corpo, e sim da alma, do real, do pensamento. O mundo faz nosso corpo ir, mas a arte nos carrega pelo tempo. Tempo que nunca passa e ao mesmo passo voa sem freio, fazendo dias durarem anos e meses durarem um segundo e meio. Pra ser sincero eu nem sei o que é o tempo, e tenho minhas dúvidas que alguém saiba. Não é questão de medida, muito menos de data. É mais questão de vida, de sensação inata, de viver em meio à algo sem saber do que se trata. E ainda assim saber, e entender como ele opera pois tudo mundo já perdeu tempo, seja em movimento ou em espera. Então como é perder algo que no fundo não é nosso, e ainda assim é tudo que temos? Que é a certeza de que tudo vai mudar, passar e ser diferente mesmo que a gente não note quando isso ocorra com a gente. Estamos sempre deixando de ser, sempre nos transformando, desde a hora em que nascemos até quando não mais estamos. Então abrace o tempo e o prenda, seja lá o que ele for, pois por mais que fujamos dele, ele nunca nos abandonou. E deixe-o livre pra passar e voar por todo o ordenamento, pois é difícil dizer se ele está em nós ou nós que estamos no tempo. Em último momento, ouvindo um pensamento que o vento me soprou, pergunto: se o tempo muda o mundo e o mundo muda o tempo, quanto tempo a gente já calou? (P.H. Lobo)













