P.O.V - Daniel Muller: A verdade é nua e crua - Capítulo único.
Um fato que te ensina no minuto em que você ou é escolhido pela loba ou mandado para o acampamento, é sobre a sobrevivência a cada instante. Não importa onde você decida viver, terá que resistir até o último segundo contra toda força maligna que ronda as sombras. É claro que nem sempre alguém conseguia escapar das armadilhas que o mundo cria, apesar de haver exceções onde as pessoas cresciam, formavam ou não uma família, e envelheciam depois de tantas lutas. Isso era um sonho antigo de Daniel, que alimentava-o de tempo em tempo, mesmo as pegadinhas aparecendo como se não fossem nada.
Daniel já tinha passado por diversos acontecimentos em sua vida que, algumas vezes, duvida como estava vivo. Abandonado pela sua própria mãe aos filhotes de um animal considerado carnívoro pelo ambiente para fugir, quando mais velho, em busca de respostas de sua matriarca para ser mais uma vez magoado e deixado por sua mãe. Naquele momento, parecia que não havia mais esperanças para formar uma família, a qual Daniel deseja desde que percebeu estar sozinho em um local enorme. Até que uma ajuda desconhecida salva-o de seus próprios pensamentos perigosos sendo o pontapé inicial para que Daniel formasse um novo estilo de vida. Seus medos ainda ficariam, mas colocaria seus comportamentos sociáveis acima de todos para evitar que caísse de novo. Após a ajuda desconhecida, que se tornou depois permanente, recebeu uma oferta que mudou sua vida totalmente…
Embora só estivesse de volta no acampamento há sete meses, para Daniel, aparentava uma vida toda. Era como se nunca tivesse saído daquele local. É claro que ele sentira falta: de sua coorte, do refeitório, dos campos de girassóis, da nova roma e de seus companheiros. No entanto, existia uma pequena semente, que ainda não havia germinado, de incômodo. Não algo desconfortável em relação ao acampamento e as pessoas em si, mas, sim, ao fato de que Daniel estava começando a não se sentir em casa. Havia passado longe demais e isso afetou o seu sentimento de pertencimento em relação a um lugar, que antes era chamado de casa.
É claro que Daniel não contaria a ninguém, pois, nem ele mesmo, sabia daquele fato. Era melhor assim, pelo menos, por um tempo pelo fato de que uma guerra estava batendo na porta de todos, principalmente dos semideuses. A guerra. Havia às vezes que o garoto parava para se perguntar como poderia existir paz naquele mundo místico, e finaliza com uma afirmação de que faria qualquer coisa para que pudesse promover a harmonia e a tranquilidade que ele e seus companheiros necessitavam. No entanto, não seria possível tão cedo e ele precisaria lidar com tudo que já estava acontecendo e, essencialmente, o que vai acontecer. O mesmo conflito que trouxe-o de volta para casa também proporcionou a chegada de novos campistas, o lado grego, o qual Daniel tinha tido conhecimento quando passou um tempo com um velho amigo e depois com o grupo de ceifadores. Essa situação rendeu-lhe muitas vivências boas, mas também ruins, apesar dele tentar não pensar muito no lado negativo.
Então, o primeiro evento ocorreu. Era uma atividade que Daniel não tinha tanto conhecimento por ser do outro acampamento, mas isso não dizia que iria tentar vencer. Era sedento por vitória e faria de tudo para obtê-la, por isso acabou ficando no ataque pelo lado direito com sua besta em suas mãos e inúmeros virotes guardados dentro de sua aljava. A sensação era boa. Ele se sentia mais agitado do que o normal, e isso demonstrava que era filho de alguém totalmente diferente. Somno. Daniel não se via em nada com o pai, embora soubesse que o deus tinha diversas personalidades assim como um sonho tem. Isso poderia ser prejudicial em algumas horas, mas, em momentos de alerta, Daniel era um dos melhores vigias que poderia existir.
Assim, quando escutou o bater de asas, seu corpo virou em poucos segundos em direção à fonte. Era uma fúria. Daniel já tinha enfrentado uma durante seu tempo nos ceifadores, quando precisou cumprir uma tarefa. Agora, era um novo desafio… No entanto, Daniel não percebeu quando foi atingido duramente com um golpe na cabeça por um ciclope que tinha saído das sombras. Então, nada de luta. Ele ficou sabendo que só não foi morto porque outros semideuses tinham aparecido na mesma hora e salvaram-o… Daniel sentiu-se constrangido com sua falta de ação. Seu tempo na enfermaria não foi demorado, pois não estava com ferimentos graves. E isso foi essencial para que o rapaz decidisse que treinaria horas e horas… Mas, o destino tinha outros planos.
Era uma manhã chuvosa quando Daniel acordou sentindo-se tonto vendo pontinhos pretos surgindo ao encarar qualquer coisa. Foi mandado, então, para a enfermaria para que pudesse ter um repouso e pudesse recuperar sua força vital. Passou uns três dias ao lado de outras pessoas, e o seu tempo ali era apenas observar a entrada e a saída de semideuses e outras criaturas. Perguntava-se se alguma coisa estava acontecendo, mas não obteve resposta por algum tempo… Até que acordou no quarto dia com sua força melhorada e ficou sabendo que a deusa Selene, que recebeu ajuda do filho de Mercúrio, tinha ido para o acampamento e estava ajudando-os a recuperar seus poderes. Então, era aquilo: estava fraco porque algo mudou sua força…
Daniel decidiu que aquilo não iria mudar seu humor, pois, então, quando saiu da enfermaria, ele voltou a treinar da mesma maneira de antes e agir alegremente com todos. Bem, a maioria. Existia alguém que causava-lhe sensações estranhas, as quais ele não fazia ideia do que significavam e demoraria para encontrar os significados. Era melhor assim. Estava em uma guerra e o seu foco iria ser na guerra. Inimigos cercavam o acampamento, embora soubesse que poderiam haver alguns dentro do local. Era preciso ter cuidado e atenção, principalmente com a chegada dela.
Hécate, a deusa da magia, a qual estava no outro lado do conflito. Ele se perguntava como poderiam acreditar na deusa, principalmente, depois de todos os sofrimentos que tinham passados. Perdas ocorreram. E ele não deixaria aquela deusa sair sem um julgamento. Não era o certo. Então, encontrava-se no campos de Marte, socando um saco de areia fortemente e imaginando ser todos aqueles que estavam matando e machucando seus amigos e conhecidos. Não era certo ter que lidar com uma luta desigual, pois, ao contrário dos deuses, os semideuses ainda eram fracos. Não tinham super-poderes. Eram fracos e poderiam ser destruídos em minutos… No entanto, também sabia que deveria tentar, pois, a justiça era necessária para que pudesse ter um futuro. Ali.
— Você consegue. Mas, não caia no papo, e sim investigue. Com cuidado. -- Murmurou aquelas palavras fracas encarando uma multidão ao redor de Hécate ao se afastar dos campos de Marte. A verdade nua e crua era que Daniel estava com medo, e não estava conseguindo esconder aquilo.
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