Quando pequeno, na hora das rezas, ao despertar e ao deitar, eu passava a maior vergonha. Embaralhava o Pai Nosso com o Ave Maria. Não havia jeito de eu rezar inteira uma e depois outra oração, elas se misturavam na emissão da minha voz. Aborrecido, resolvi um dia fazer um trato com o Menino Jesus, cuja imagem ficava acima da cabeceira de minha cama: Eu me comprometia em rezar corretamente o Pai Nosso e o Ave Maria, e Ele, que é milagroso e todo poderoso, me transformaria, durante meu sono, em menina. Em minha imaginação infantil, esse trato me parecia bastante honesto. E assim fiz, dando ao Menino Jesus o prazo de um ano para efetivar minha transformação. Toda manhã, ao acordar, tirava meu pijama, na esperança de descobrir o milagre. Minha espera vingou o tempo acordado. Porém, nada aconteceu. Fiquei arrasado. Perdi a fé. Se o Menino Jesus não atendeu meu pedido, isso significa que, de duas uma, ou não sou digno de ser ouvido, ou Ele não é tão poderoso e soberano quanto dizem. De que haveria de servir-me um Deus ingrato ? Parei de rezar, aguentando calado meu infortúnio. Tão só a companhia das meninas, com quem eu brincava, aliviavam um pouco minha sina. Claro, eu vivia sempre de castigo, na escola, pois naquele tempo, eram meninos de um lado, meninas, de outro. E, tanto na sala de aula como no recreio, eu era sempre apanhado em flagrante no lado das meninas. Não era provocação minha, era algo institivo, parecia-me natural que eu ficasse do lado delas. Não sou especialista no assunto. Não sou psicólogo, nem psiquiatra. Talvez seja isso um transtorno de personalidade. Mas é fato, nunca consegui me identificar como ser masculino, embora sempre tenha procurado a companhia feminina. Sou tão avesso ao universo masculino que sou incapaz de me interessar por um homem. É um mundo estranho, com o qual não tenho nenhuma afinidade. Viver assim é complicado !














