Pa Negre/Pão Negro - Resenha crítica
Por: Reinaldo Barbosa
Poderia ter sido apenas uma história sobre os fragmentos da guerra civil espanhola - da qual saiu vitorioso o fascista Francisco Franco; ou mais um filme que retratasse a dor, aos olhos de um menino camponês; ou até mesmo uma produção gravada em uma língua peculiar (o catalão) para impressionar os grandes fãs de cinema e, quem sabe, até mesmo Hollywood! Mas o fato é que Pa Negre (Pão Negro) aborda muito mais do que questões políticas, psicológicas e sociológicas - e só quem assiste percebe que o panorama é bem maior.
A abertura é brutal. Um homem, chamado Dionís (Andrés Herrera), ajuda seu cavalo a puxar a carroça (dentro desta está seu filho Culet, interpretado por Miquel Borrás), por um caminho repleto de buracos e, consequentemente, de difícil locomoção, até que uma das rodas emperra e a carroça para. Ao escutar um barulho e sem conseguir identificar de onde vem, Dionís calcula que alguém o observava. Por instinto de proteção, ele retira um canivete de um de seus bolsos, mas, antes mesmo de ajeitar a lâmina em suas mãos, é atacado por um homem encapuzado. Os dois começam a lutar, porém Dionís acaba por ser imobilizado. O homem de capuz bate a cabeça de Dionís diversas vezes contra o chão, o deixa desacordado e – para não deixar dúvidas de que estava ali para cometer assassinato - pega uma pedra grande (tendo, inclusive, dificuldades para carrega-la) e a joga com toda força que pode sobre a cabeça de Dionís.
Culet, filho de Dionís, assistira a tudo de dentro da carroça (perplexo e demonstrando todo medo que uma criança poderia sentir ao ver o pai ser morto de maneira tão violenta). Mas mal imaginava ele que o assassino não pararia por ali. Como se não fosse o suficiente, o homem encapuzado arrasta a carroça, junto com a criança – e o pai morto - para o alto do penhasco e simula um acidente. Como? Ele desfere um golpe mortal no cavalo, que acaba despencando montanha abaixo com a carroça, Culet e o corpo de Dionís.
E é em meio a tensão desta sequencia, que definitivamente deixa o telespectador preso à poltrona impressionado, que o nosso pequeno herói camponês surge...
Andreu (Francesc Colomer), que tem por volta de 12 anos, presencia a o incidente no penhasco e corre em direção à carroça, onde está Culet. Antes de beijar a morte, o garoto diz apenas uma palavra que desencadeia toda a trama: Pitorliua. Andreu corre para seu vilarejo, para pedir socorro a seu pai, Farriol (Roger Casamajor) e com certeza o garoto não previa que, todo o que presenciou, abriria seus olhos para enxergar algumas verdades ao redor.
O assassinato de Dionís e Culet foi o estopim que evidenciou as diferenças sociais, politicas e ideiológicas da região da Catalunha, pós guerra, apresentada no filme; podemos reconhecer Farriol (que tornou-se principal suspeito do crime) como um Republicano, idealista e cheio de sonhos, que enfrenta diariamente desafios para sustentar sua família e é perseguido pelo prefeito da cidade (interpretado por Sergi López) - um Nacionalista/facista que quer a todo custo incriminar Farriol - por maldade e ego ferido, já que perdeu para ele o amor de Florència (Nora Navas).
"Pão negro: sem alma ou virtude; morto como todos vocês, por causa dessa guerra maldita que matou a todos nós” - Florència (mãe de Andreu).
Pa Negre foi ganhador de nove prêmios Goya (premiação anual, feita pela Academia das Artes e Ciências Cinematográficas da Espanha), onde cada estatueta representou, dignamente, cada cena, imagem, fotografia e os diversos sentimentos causados no telespectador que assistiu ao filme. Abaixo, a lista de estatuetas:
• Melhor filme
• Melhor realizador para Agustí Villaronga
• Melhor atriz principal para Nora Navas
• Melhor atriz secundária para Laia Marull
• Melhor atriz revelação para Marina Comas
• Melhor ator revelação para Francesc Colomer
• Melhor argumento adaptado para Agustí Villaronga
• Melhor fotografia para Antonio Riestra
• Melhor direção artística para Ana Alvargonzále
No ano de 2011, o filme foi escolhido para representar a Espanha na premiação do Oscar 2012, na categoria melhor filme estrangeiro. Ainda há quem diga que deve-se ao fato de ser um filme totalmente rodado em catalão. Mas aconselho que assistam e tirem suas próprias conclusões – e se também compartilharem da mesma opinião, talvez seja melhor considera-lo como um filme que retrata uma região dividida entre os vencedores fascistas e perdedores idealistas e ir assistir ao Labirinto do Fauno (já que muito se ouviu de comparação, dentro dessas questões “políticas”).
Enfim, aconcheguem-se a poltrona e se deixem levar.
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****** Resenha escrita no ano de 2015 ******








