Como Eu Era Antes de Você
summary: Patrick Yoon pensando no antes e depois de sua vida depois que se tornou pai na adolescência dentro do seu contexto de filho mais velho em uma família predominantemente coreana.
category: parenting
tags: Magical Alternate Universe, Problemas com pai, Problemas com a família, Gravidez na adolescência, Depressão, Pensamentos suicidas, Uso de drogas lícitas, Relações tóxicas, Sistema cíclico de patriarcado.
ANTES.
São 10 da manhã e Patrick está saindo do bar de fininho. O case com sua guitarra ainda está em suas costas, a jaqueta de couro tem o cheiro forte de bebida e cigarro entranhado em seu tecido e ele tem olheiras profundas, mas o sorriso felino está presente em seu rosto. Ele nunca se sentiu tão invencível quanto naquele momento.
A noite anterior foi a melhor de sua vida, ele tocou para um bar lotado sob um pseudônimo e até mesmo ganhou gorjeta por isso. Ninguém estava se importando com qual o seu grau de parentesco com o atual secretário do Presidente da Coréia do Sul, ninguém comentou que para um asiático ele tocava guitarra muito bem e de quebra ainda choveu sutiã na beirada do palco, independente de todo o discurso que ele deveria com a garota da família Bae que seus pais vieram planejando a sua vida inteira.
Ele só era um adolescente que podia tocar um cover de Fall Out Boy com os amigos e então encher a cara no bar ao ponto de só conseguir se levantar e ir embora no dia seguinte.
Patrick ainda está sorrindo consigo mesmo quando o celular dele vibra. Uma mensagem de Fran, sua namorada. Ele tinha lutado muito para convencê-la a usar um celular para falar com ele, uma vez que não gostava da ideia de seu pai saber o que ele conversava com a garota que era só metade coreana da rua deles, então mantinha suas conversas apaixonadas longe dos ouvidos xeretas de sua mãe e assim ele podia falar coisas como “hoje eu dediquei tal música para você” e “sua calcinha ainda está guardada no case da minha guitarra” sem terminar apanhando até sentir seus pulmões protestarem.
“Preciso ver você”. Foi só o que ela escreveu. Dentro do metrô que levava até o seu bairro de rico, Patrick encosta a cabeça no cano frio da cadeira, pensando que sim, ele também precisa ver Fran e sentir seu cheiro de Victoria Secrets e creme facial de baunilha para seu dia ficar completo.
Ela era sua namorada desde quando eles giraram a garrafa e se sortearam em um Sete Minutos no Paraíso na última festa do time de quodpot. Os lábios dela tinham gosto de melancia e ele gostou de como ela deixou ele tocar em seu corpo inteiro enquanto se beijavam. Acabaram saindo de mãos dadas da festa e conversando por todo o caminho até o dormitório dela em Ilvermorny.
Um dia ele ia ser um rockstar e todas as músicas dele ia ser sobre Fran e seus lábios macios. Um dia, ele ia sair daquela casa e se casar com aquela garota e os pais nunca mais iam ouvir falar dele porque ele estava ocupado demais do outro lado do mundo em uma praia deserta pegando sol, tomando uns drinks caros e vendo Francesca Kim avisar a ele que sua música chegou no topo da Billboard.
DEPOIS.
São 6 da manhã e Patrick está de pé desde às 4 e 10, exatamente, quando Alexander acordou gritando e não parou mais de chorar. Ele ainda tem que arrumar sua mala para voltar para Ilvermorny depois do almoço e ele sabe que Francesca o odeia por isso. Tudo bem, ele também se odeia.
A propriedade dos Yoon é tão grande que eles estão no anexo para não incomodar os seus pais e não acordarem Piper e Peter com o choro do bebê e ainda assim tem um bom espaço para que Patrick ande com aquela criança no seu peito, para cima e para baixo, soluçando mesmo depois de ter mamado, trocado a fralda, tomado um banho morno e checado a temperatura para ver se ele não estava doente. Alexander parecia fazer aquilo de propósito, a forma como ele ficava vermelho e esperneava, cada agudo de sua voz de recém nascido atravessando a alma tanto dele quanto de Francesca porque não suportava vê-los ter uma noite de sono decente.
E ia ser pior quando ele voltasse para a escola e Francesca ficasse sozinha com a sua mãe. Sua mãe, que sempre deixava claro que só tinha aceitado aquele casamento porque pior do que ter uma qualquer na família seria eles financiarem um aborto. Sua mãe, que tinha obrigado aquela garota de dezesseis anos a dar à luz sem anestesia porque se ela era mulher para fazer um filho, ela seria mulher para colocar o neto dela no mundo sem nenhuma daquelas coisas nocivas a bebês.
Ele entende porquê Francesca quase não fala com ele e passa longas horas com Alexander no colo, contemplando o lago pela janela. Às vezes ele também faz isso. Às vezes ele também pensa que seria mais fácil se os três aproveitassem o frio de dezembro e pulassem diretamente no lago gelado. E fim. Acabou. Sem mais reprovações, sem mais socos no diafragma, sem mais chorinhos de bebê. Quando está muito perto desse pensamento, Patrick deixa o filho deitado em uma almofada, pega a primeira garrafa de uísque que consegue alcançar e sai para caminhar. Ao voltar para casa, horas depois, Francesca tem aquele olhar.
Ela sabe. Ela sabe bem o que ele tem pensado porque ela também pensa nisso às vezes.
“Ele parou”, ela diz encostada no batente da porta, vendo que finalmente Alexander dormiu. Ou desmaiou, eles não sabem ao certo. Mas ele respira e parece que está finalmente tudo bem. Então colocam ele no bercinho e ficam olhando por um longo tempo em silêncio. “Você vai ter que dormir no trem”.
E existe um pesar tão grande na voz daquela garota de dezessete anos que Patrick sente que tudo o que eles um dia tiveram se estilhaçou por completo depois do que ela contou a ele quase um ano antes.
ANTES.
É de tarde quando Patrick acorda e se arruma para sair de novo. Ele vai encontrar Francesca no Central Park, dividindo bem o lado dele, no Upper East Side, e o dela, no Upper Broadway. Seus pais sempre falam que ele está passando o verão inteiro naquele lugar infestado de non-majis, mas enquanto eles não cismam e o proíbem de sair de casa é lá que ele encontra sua garota e seus vestidos curtos e beijos macios com gosto de melancia.
Francesca recentemente pintou os cabelos de loiro e vem falando sobre se tornar modelo. Ele consegue visualizar os dois em capas de revista sendo o casal mais cool de New York assim que se formarem. Não, ele não vai assumir a empresa da família. Que se foda, ele vai fazer o futuro dele e vai ser tão longe daquela casa…
“É positivo. Os dois tracinhos vermelhos significam positivo”.
Era injusto o quanto sua garota está bonita naquele crepúsculo e o quanto ela chora segurando o teste de gravidez entre as mãos dos dois. Era injusto porque eles se amavam tanto e não é possível que ela tenha engravidado logo agora que eles decidiram que iriam passar o verão transando como loucos depois de quase serem surpreendidos no dormitório dele em Ilvermorny. Não é justo que ele tenha que dizer o que eles precisam fazer, não é justo que eles precisam avisar aos pais de ambos.
Não é justo. Não é justo que tudo acabou ali, naquele momento.
DEPOIS.
Ele é um adolescente casado e com um segundo filho a caminho, o único que pode dizer isso naquela sala de aula. Parece que todo mundo sabe e pensa isso enquanto ele faz aquela prova com privação de sono. Patrick tenta não pensar no assunto quando tenta parecer forte. Homens coreanos não choram. Homens Yoon tem uma tradição muito grande para demonstrar qualquer coisa. Droga, ele queria ter bebido alguma coisa antes de entrar naquela sala, porque agora seus pensamentos são uma bagunça e seu emocional também.
Francesca deve odiá-lo por não voltar mais para a escola por causa de um bebê de três meses nos braços e o de quase um mês na barriga. Foi culpa dele. Ele sabe que foi culpa dele porque disse a ela que não tinha perigo eles transarem no puerpério dela. Agora eles tinham mais um filho para se preocupar.
Seus pais estavam furiosos, ele tinha quase certeza que seu pai tinha quebrado sua costela com aquele último pontapé que o deixou inconsciente por alguns segundos. Não era como se Patrick tivesse alguma escolha, agora, a não ser seguir o que eles determinaram para ele. Iria assumir a empresa da família e ia ser responsável por todo mundo para lidar com os erros que ele cometeu. Não tinha para onde fugir. E quando ele fizesse 21 anos, ele tinha que ter um império sob seu cuidado ou… ou sei lá, provavelmente seu pai iria ser a pessoa que o atiraria no lago congelado.
No canto da prova, ele desenha uma guitarra e um vestido rodado. Uma vaga memória da vida que ele nunca teria.
“Yoon? Você precisa de alguma coisa?”
Ele quer responder ao professor que precisa de um abraço e ouvir que vai ficar tudo bem. Mas ele balança a cabeça, não aceitando nem uma desculpa para ir ao banheiro. Apenas nega e volta a focar naquela prova. É a única coisa que ele pode fazer agora, como reparação de seus erros para com Francesca, com Alexander, com o bebê que ainda não nasceu e com seu clã.
















