Memórias póstuma de alguém que nunca conheci. Escrevi esse texto doido e desconexo aqui por que precisava organizar meus pensamentos, por mais que ele esteja bem desorganizado. Nunca conheci ninguém tão próximo que viria a morrer. Não que ele fosse meu melhor amigo, nada disso. Muito pelo contrário, na verdade. Desde que era criança ele era o grande problema da sala. Mas eu não tinha nada contra ele, pq ele nunca tinha feito nada contra mim diretamente. Cheguei até a cogitar tentar ser amiga dele, conversar com ele. De verdade. Quão altruísta eu sou haha Dai um dia ele resolveu expor a opinião dele sobre mim hahah: "Você é feia", ele disse com firmeza, ele tinha certeza do que tava falando. Fiquei sem palavras, pq eu realmente não sabia como responder. Eu concordava com ele. Mas no fim do dia quando eu ficava pensando em respostas melhores que poderia dar pros infortúnios da minha vida, pensei: "ah, mas eu não acho que sou feia e isso é suficiente" - mentira deslavada, your self validating hore - "ah, mas você é pior", "ah, mas pelo menos eu tenho a decência de não ficar xingando os outros por aí". A represália contra esse menino era evidente na sala de aula. As pessoas não diziam, mas ninguém gostava dele. Ele tinha um único amigo. Lembro que levou uma faca ou algo assim um dia pra escola. Average problematic kid's stuff. Era um alívio os anos em que nós caiamos em salas diferentes. Eu dei graças a Deus quando esse cara saiu (ou foi convidado a se retirar) da escola, porque assim ele pararia de nos importunar. Na minha cabeça ele se achava sensacional, o rei do mundo. Mas que nada. Eu não conhecia esse cara e achava que sabia até demais. Achava que era possível eu saber um pouco sobre a complexidade daquele ser. E ele era complexo. Levou flores pra uma menina da escola uma vez, pq gostava dela. Ela era bonita, ela era simpática. Mas claro que dele ela nunca iria gostar. Pq né, é tão óbvio! Ele era estranho, ninguém gostava dele. Não é como se ele não soubesse disso. Capaz de ficar até com medo dele achar que tinham essa intimidade toda. Mesmo assim, estavam lá as flores. Cara corajoso, não ligava pro que as pessoas pensariam? Demonstrando um sentimento que ninguém esperava que ele tivesse. Não parei um segundo pra pensar sobre ele. Não parei um minuto pra analisar suas atitudes e inferir que aquele comportamento não era mero fruto de uma mente psicótica. "Ele é louco, porra" esse era o meu veredito que permanecia na minha mente e nela apenas (Pq a gente nunca fala, é tudo sempre um grande segredo compartilhado). Mas ele era muito além disso. Ele era um cara que foi reprimido e mal compreendido a vida inteira pelos colegas, e ao invés de descontar em si mesmo, ele descontava toda raiva que tinha do mundo no próprio mundo. E a raiva que ele descontava em si mesmo eu desconhecia. Mas sei lá, posso estar analisando erroneamente, afinal, nunca o conheci de verdade. Mal o compreendia. Sabe como quando você olha as coisas por uma perspectiva de fora, que te dá uma certa objetividade. Então, tá aí o problema. Foi isso que fiz em todo o tempo que eu o conheci. Ele me chamou de feia então ele era um merda e nada além disso. Minha visão extremamente limitada me impedia de enxergar seu background, seus sonhos e objetivos, sua visão do mundo. Eu fui dar uma stalkeada póstuma nele, e vi que ele tinha vários amigos agora (mais que eu, ironia da vida hahah). Que parecia ser baita inteligente. O quanto eu conhecia esse cara para pensar nele, deliberadamente, como um merda?Quanto potencial que ele tinha foi perdido, foi ignorado por que ele era o garoto problema? Acho engraçado como tem pessoas que escrevem no facebook na segunda pessoa como se ele fosse ler, como se fosse servir de algo. Talvez pode ser que dê uma sensação de conforto. Afinal, ele não morreu né, olha só, to falando com ele. Mas ele não responde. Eu fiquei mais sentida com a morte do Domingos Montagner do que com a desse menino. Ele morreu e eu, apesar de estar em choque, não sinto nada. Eu não vou chorar. Eu não to triste, eu não to arrasada, se tem uma coisa que eu to é abismada. Ele era novo pra caralho, como ele morreu? Como assim um cara que estudou minha infância toda comigo simplesmente deixou de existir? E curiosa também. Como ele morreu? Foi tristeza? Foi rancor? Cabô o jogo da vida pra ele e, mesmo assim, tem gente feliz nesse dia de hoje. Parece que ele se suicidou. Não conseguiu guardar a tristeza que tinha dentro de si em um ser humano tão pequeno e desistiu de viver. Pq tava difícil pra caramba. Pq essa era a única coisa na qual ele conseguia pensar. O dia todo. Todo momento. Será que essa corda suporta o peso do meu corpo? Será que esse janela é alta o suficiente? Essa dose de remédio tá em excesso? Mas sei lá. Quem sou eu pra pensar em alguma coisa? Será que eu até não contribui vagamente pra isso, ou será que é pretensão me achar relevante demais? De que valeu todo o meu rancor? Pensei nesse menino como um merda minha vida toda, pra descobrir que, na verdade, a merda aqui sou eu.







