uma imagem-
uma imagem mística me enebria,
roxo, motter,
casa motter.
em sua casa-
em seu quarto-
nós com uma luz fragmentada no quarto,
e o cheiro na pele e no hálito.
sentado ao seu lado sinto através dos poros,
e a textura das suas boxexas avermelhadas.
ao redor, para distrairmos os olhares
encaramos as parede-
as unhas dos pés pintadas, que você me mostra,
azul-
-roxas.
as pernas estendidas, o rosto, os olhos,
e as pupilas mirando abaixo
as bocas entre-
abertas
̶ a linha dos olhares um X.
encostamos as boxexas, rosadas,
falando sobre o frio e lendo trechos de um livro.
seu corpo grande, seu corpo quente,
os cabelos caxeados,
você embaixo de mim-
você me vendo por cima
eu sendo visto por você,
que me vê tocar você.
meus dedos sobe-
descem seu braço,
seguram sua mão e guiam ela até sua-
-calcinha,
você-se toca com minha mão segurando-a,
ela retorna,
pintada de-
com cheiro da-
com cheiro que me toca a face,
com os dedos úmidos na ponta
era uma noite, ainda o claro da noite, quando há luzes acesas na sala e as pessoas em volta falam superficialmente coisas do dia. tomando café diz que na verdade é artesã, que o tal trabalho maçante é só algo temporário, que na verdade é artesã. pedras brutas, joias incrustadas, pulseiras e anéis entalhados a mão, minha mãe me ensinou isso, essas coisas são passadas de mães para filhas, o artesanato é a base da sociedade. o artesanato é um trabalho de revelação do inesperado, digo pensando ninguém me ouvir-pensando. no bar não lembro bem quem estava junto, algumas faces misturadas, como um quadro ̶ eu coloco essa, e me alcança o copo e segura minha mão, que segura o copo. decifração de códigos em meio aos bebad-decifração de códigos, bêbado. vagamos de um grupo ao outro, em um falam da pureza de maria, o cristianismo é a base da sociedade ocidental, e em outro das novelas da televisão e da personagem que não é o que parece ser. na intersecção dos grupos: há sempre algo na beira do episódio que nos leva até o outro, até o outro episódio, até o outro. assim seguimos. e o contexto nos dá poucas informações, para imaginarmos algo, imaginamos sua santidade, mas ela tocou deus, e o toque dela redime a humanidade, como o fim de uma novela. o início da noite sóbrio com olhares ainda banais é com uma personagem que se desvela no alccól, aquela conversa só fazia sentido naquele contexto, como um olhar só faz sentido em um contexto,
ela escuta meus pensamentos, eu vejo o que os olhos dela veem. um garoto anda pela floresta com sinos e violões tocando agitados e o guiando confuso entre as árvores e clareiras. ele termina em uma clareira iluminada pela luz da lua, picotada por entre a sombra de algumas folhas. a luz clareia o chão-o chão e os pés de uma entidade feminina sentada em uma pedra. o garoto caminha até o altaaté a deusa com ornamentos de pedras e cristais nas pernas e tornozelos. a entidade ressoa um toque de flauta-o garoto escuta um toque de flauta ressoar da entidade, que guia suas mãos pelas pernas geladas da deusa. o garoto vaga pelo caminho do mármore sob o som da flauta e da noite. com um tambor que começa a tocar, a deusa se revela uma menina em camisolas transparentes, que expõem seus tornozelos e veias azuladas, ela apóia os pés no peito do menino e os dois concebem uma criança na pedra enquanto recitam palavras incompreensíveis e sobem em escalada até o céu. a pele dos dois se tornou transparente e a pedra da criança se tornou uma fonte, que derrama água roxa e doce e toda noite dá de beber as criaturas despertando nelas a fertilidade que dá seguimento a vida.
em frente a sua casa comemos caquis molengos que escorrem pelas nossas mãos. nos encaramos fixamente no exercício bocal de retirar a carne dos caroços, você diz que o artesanato é um trabalho de revelação, o artesanato, a religião, o artesanato é maior que a religião, eu, você, eu digo. em cima do muro, por baixo do encontro da linha reta dos olhares, seu gato bebe a água que pinga da telha em que limpamos as mãos com o caldo dos caquis.
o cobertor com estampas de animas
estendido na cama-
-na mesa
de centro um copo
sobre uma toalha bordada em tricô
com intersecções de linhas vermelhas.
bebo a água gelada,
à minha frente você anda pela sala,
bebo vendo a luz entrar pela janela
e clarear o chão-
-os pés
descalços pelo piso frio,
suas pernas geladas e alguma roupa leve
̶ você olha o espelho, imagina algo.
pega-
-vejo pegar o livro de bolso,
um livro com título dourado
e capa de couro azul-
roxa,
na iluminação do quarto,
a luz entra pela janela gradeada,
luz, sombra, luz, seu ombro, sombra, luz, sutiã.
ouço sua respiração lendo
e você olha o copo-
-a mão segurando o copo
e levando água até a boca,
o vento entra por debaixo da porta,
esfria os meus-seus pés.
bebo-
-bebemos vinho,
as figuras estampadas no cobertor,
cavalos, bodes, ovelhas,
passo a mão
olha eu passar a mão
na textura aveludada dos animais
sinto o cheiro do seu hálito
as boxexas rosas, e você segura firme minha mão
leva até sua bo-
eu esculpo-
voce
-me ensina a esculpir
um quartzo rosa
e com as vózes tremidas
lemos a passagem do Livro,
uma estrela-
-os faróis de um carro perpassam a sala
e anunciam uma chegada,
um grito abafado pelo barulho do motor do carro,
as pernas tremendo
e sobre os animais nos deitamos ofegantes
com o hálito que tem o cheiro doce da selva
e que tem o gosto carnal que dá seguimento a vida e que é a base da sociedade
levo-
leva a mão ao seu pescoço,
e do pescoço a face,
com as pontas dos dedos úmidas e enrugadas
vemos através das peles,
a religião, o artesanato, a religião é maior,
nos perguntamos e enquanto corpo e espírito e excedente
se confundem no olhar e no toque
procuramos brechas entre as elevações das bochechas arrepiadas