“...”Nunca imaginei que minha história teria continuação depois daquele dia, nunca imaginei que alguém me recuperaria da minha morte tão súbita e de fato até agora estou morta. O ruim é que eu morri naquele dia, minha mente insiste em dizer que morri, por que minha vida estava programada só até aquele dia. Declarei minha última crise de 27 e continuei a viver, como viver com aquelas lembranças que não param de girar na sua cabeça? Como viver com aqueles olhares cheios de pena e culpa, banhados com medo de acontecer de novo, sem entender muito bem o porquê.
Acordo sonolenta me perguntando o porquê de não estar morta, pessoas ao meu redor. Lembro-me do abraço de minha tia e algumas de suas palavras "a tia te ama Vi" "Não faz mais isso não, a tia ta aqui" e lembro-me de suas lágrimas e seus beijos em minhas bochechas que agora provavelmente estavam mais rosadas desde a hora que me viu naquele estado. Lembro do meu pai conversando comigo, sentados na mesa estávamos. Lembro-me de suas lágrimas e uma frase "se você morrer meu mundo vai desabar" "eu te amo". Lembro que em todos meu quase 15 anos só vi meu pai chorar duas vezes, uma por Mikaelle e agora por mim. Não lembro muito mais do que os "te amos" de minha mãe. E lembro-me do meu tio me abraçando e dizendo "o tio ta aqui, o tio te ama". Segundo pensamento, lembro de algum comentário de "veneno de rato" e xinguei-me por ser tão burra ao ponto de não lembrar de que uma de suas amigas tinha um avô que havia cometido suicídio com veneno de rato, xinguei-me também por ter jogado os citaloprans fora, achando que apenas alprazolam com um energético resolveria minhas dores, e o porquê de não ter comprado uma bebida alcoólica. Terceiro pensamento, "preciso ficar boa pra ir no shopping, distrair a Aline e comprar veneno pra tentar de novo.
Fui impedida mais uma vez de tentar vencer minha batalha. Meu segundo pensamento até hoje, em primeiro a das palavras do meu pai, mais triste. Perguntei-lhe como eu tinha ficado quando estava inconsciente, ela começou falando da ligação de meu pai, pedindo para ir até o pensionato, pois eu tinha passado mal e eles estavam vindo até Campo Grande para me ver. Minha tia achando que não era nada sério até entregarem minha carta de suicídio lembro-me dela dizendo-me que perdeu o chão e minhas lágrimas assim como as delas e de minha irmã estavam a rolar sobre nossos rostos cansados e angustiados ao mesmo tempo. Lembro dela dizendo-me também que minhas colegas de pensionato estavam assustadas e que minha boca espumava, disse-me também que elas haviam me perguntado o que eu havia tomado, respondi-lhes que havia tomado "28 comprimidos de alprazolam" não sei se elas viram o energético no lixo ou se eu lhes forneci essa informação dopada também, além do nome do remédio. A quantidade surgiu em minha cabeça como a minha proteção "negar, negar, negar", 28 não chega nem perto dos 52 que contei da ultima vez. Ela também disse que eles me colocaram na ambulância e ela foi atrás, entramos pela emergência e ela foi correndo fazer minha ficha. Não lembro se fiquei um ou dois dias em coma, não lembro nada na verdade, minha tia havia me contado. Ela disse que me ver naquela situação foi horrível e que ela desbrio algumas coisas sobre mim, ela agora sabia dos meus cortes, expliquei-lhe que eram apenas cicatrizes antigas, eram tão antigas e continuavam ali, lembrando-me todo dia como eu era. Ela falou que em toda sua vida nunca havia visto meu pai daquele jeito, suas palavras foram "ele não tinha ação nem reação". E lembro-me de uma frase mencionada em minha carta "desculpe atrapalhar o final de semana de todos vocês" ela disse que não seria apenas o final de semana. Lembro-me de minha irmã chorando e depois dizendo "não faz mais isso Vi, se você morrer eu vou me matar também, por que eu não vou conseguir viver sem você" depois um abraço triplo e uma frase de minha tia que, desculpe-me dizer, tenho que discordar "você é uma guerreira", apenas um argumento, uma guerreira é quem ganha suas batalhas, tenta derrotar a tristeza e sair dessa como uma vencedora, pois bem, meu objetivo era morrer, essa era minha batalha, então automaticamente quando perco essas batalhas, sou uma perdedora. Minhas batalhas são resumidas na morte, cada dia viva é um dia que passo perdendo a batalha e quando chega o tão "sonhado" dia perco a guerra, não mereço o título de guerreira.
Terceiro dia em que estava acordada e já em casa, fui ao pensionato buscar minhas coisas, foi tão triste recolher minhas coisas da minha então "casa", que realmente já era considerado minha casa. Perto de ir embora as meninas chegam, então lhes dou minhas desculpas e um abraço, ganho sorrisos disfarçados escondendo o choque e o medo e olhares atentos e piedosos.
Nada mais importante, apenas dia dois que eles batizam como "meu aniversário", mas que pra mim continuava sendo apenas "cinco dias depois do dia 27" o dia em que eu costumava comemorar meu aniversário até morrer de alma e ter completado dois anos e cinco dias de morte. E desde o primeiro dois de maio depois do primeiro 27 eles me fizeram comemorar essa data. Não foi diferente dessa vez, só me lembro de me sentir desconfortável por ter que dar todos aqueles abraços e sorrisos falsos e receber todos aqueles parabéns, no final eu ainda queria morrer, mas os remédios de controlar meus impulsos de tentar novamente funcionavam perfeitamente, já os antidepressivos não.
Sou pressionada a ir à escola, mas não consigo me imaginar prestando atenção na aula, fazendo tarefas e prova depois do que aconteceu. Pra mim mesma estou morta, só programei minha vida até ali, demorarei um tempo até construir outros planos e futuros. Agora já não sei se quero morrer ou só sobreviver, as únicas coisas que estão à disposição ainda. Já não consigo mais dormir a noite, esses pensamentos rodam minha cabeça constantemente, não consigo esquecer o que ouve, assim como o luto que sentia, ainda estava aceitando que ainda estava viva e que ainda seria obrigada a "viver".
A única coisa que eu queria era morrer, você tiraram o meu direito de morrer, me tornaram uma perdedora de uma guerra tão fácil de ganhar. Eu não imaginei que alguém seria capaz de me impedir de buscar o que era melhor pra mim mesma, meu descanso que sei que preciso. Estou angustiada e com raiva de mim mesma, me culpando por de fato não ter acontecido o meu então pedido de aniversário, "morrer".