PERVERSIDADE
Sou o mais cruel dos vilões. Macabro, sinistro, fúnebre, tétrico e trágico. Não controlo meu instinto implacável, rancoroso e vingativo. Me orgulho por ser mau, desumano, duro, feroz, frio, perverso... vil. Simplesmente gosto de tudo isso; de ter essa maldade intima e não direcionada a ninguém, só a mim.
Às vezes sou frágil. Detesto meus momentos de instabilidade e desânimo, quando necessito de forças para cumprir alguma tarefa (árdua) do cotidiano e, pateticamente, não encontro. Sinto um desalento cortante nesses momentos. Mas logo me lembro de toda aquela maldade que possuo e... pronto. Forças reestabelecidas.
Mas acredite: existe benevolência em mim. Distribuo meus sorrisos, em caridade, enquanto contemplo a beleza das coisas feias da vida; tenho delicadeza ao manusear os corações que roubei e muito cuidado para não os partir de maneira aleatória — pois as decepções do coração devem ser bem planejadas —e sou gentil ao lidar com inimigos, pois acredito que educação é bem-vinda de qualquer parte.
Considero a estratégia uma grande amiga. Sou metódico, técnico e engenhoso. Saio de situações embaraçosas com uma maestria de dar inveja. Não sei quando, nem onde, adquiri essas habilidades, mas, sem dúvida alguma, se estou firme-forte-confiante é graças a esse meu talento. Fato.
Contudo, as vezes eu necessito de espaço e calmaria. Cabeça vazia oficina do cão, diria algum inimigo meu, mas eu acredito que os momentos em que estou sozinho são reconfortantes, me ajuda a colocar as ideias em ordem e a me preparar para mais e mais batalhas. Porque na maior parte do tempo eu não tenho paz. E não deixo ninguém ter.
(Caso do Cavaleiro Cruel)
- Reinaldo Barbosa










