Estava tranquilo, de boas mesmo. AJ não costumava preocupar-se com jogos daquela forma, tampouco sentia-se competitivo o suficiente para realmente fazer loucuras. Tão grego quanto romano, sentia-se animado e agitado, mas tranquilo. Ele tinha plena consciência de que estava seguro, porque as barreiras que os protegiam estavam de pé e porque ainda guardavam os portões, mesmo que estivessem se divertindo um pouco. Isto é, estava tranquilo até poucos segundos atrás, quando escutou um: "sssssemideuses". A voz arrastada, como uma cobra se esfregando no chão. Demorou alguns segundos para dar nome a ela, ao tom cínico e irônico, mas não havia dúvidas. Sabia, no mais fundo de seu consciente, como se herdasse tal conhecimento da parte grega de seu pai.
Puta merda.
Sentiu os pelos em sua nuca se arrepiarem com a constatação, desacreditado, e procurou por ela, de forma infantil e principiante, diga-se de passagem, ao redor, até que os olhos se fixassem em uma cabeleira que ele conhecia. ━━ Becca! ━━ Chamou, num meio sussurro meio grito, correndo na direção de @beccalopez e cobriu seus olhos com uma das mãos, indicando que os fechasse enquanto fazia o mesmo. ━━ Medusa… Não sei como, não sei porquê, mas a Medusa está aqui ━━ Sussurrou ofegante, tentando manter sua localização e da outra em segredo. A adrenalina corria por suas veias, a medida que a mão livre se apoiava no cabo da espada embainhada, pronto para sacá-la se fosse necessário. “Eu ssssssssinto ssssseu cheiro, cheiro de mar e magia.”
AJ olhou ao redor. Semideuses e mais semideuses eram levados às pressas até a enfermaria onde seriam tratados, se tivessem sorte. Eram de várias idades, desde os mais novos aos mais antigos, todos sofrendo com o ataque inesperado dentro de Nova Roma. A mesma Nova Roma que ele considerava um forte impenetrável.
Agora nem mesmo sabia se ele algum dia realmente havia acreditado nisso.
De qualquer forma, encarava os outros. Havia acabado de deixar Rebecca em uma das macas, fazendo questão de olhá-la receber os primeiros socorros antes de realmente sair do local abarrotado de pessoas. Os filhos de Febo, Apolo e outros que se voluntariaram como curadores trabalhavam feito loucos para tomar conta de quem precisava de ajuda, isso quando, ao mesmo tempo, não precisavam cuidar de seus próprios hematomas e ferimentos. AJ pensou em ajudar, mas estava exausto. Enxergava as coisas em dois e precisava encontrar Belen ou Stella, quem sabe, alguém pra contar sobre o estado de Rebecca.
Sua estadia ali seria para atrapalhar e não ajudar. E, numa hora como essa, não precisavam de ninguém atrapalhando.
Antes de realmente partir em direção às Coortes, deu um tapinha no ombro de um dos filhos de Febos, perguntando se precisavam de algo. AJ teve de se esforçar para ouvi-lo negar, dizendo que ainda tinham tudo que precisavam, antes de senti-lo empurrar um pedaço de ambrosia para si. Tudo passava lento, borrado, sem foco, nem mesmo sentiu o gosto, mas sentiu como suas dores no corpo lentamente se foram e como a lateral de seu corpo roxa, mas não pelo contato com Medusa, voltou a cor normal de sua pele e como ele já não sentia mais dor no braço após brandir a espada por tanto tempo.
Mas a ambrosia não chegou a ter efeito em sua visão, sua percepção da realidade.
Sentia-se péssimo após arrancar a cabeça da Medusa. Ninguém havia lhe perguntado o que é que carregava na camisa que ele obviamente havia tirado de si. Mas tinha certeza que não ficariam horrorizados, talvez até iriam lhe parabenizar, e mesmo assim AJ sentia-se péssimo. Culpado.
Ele havia matado Medusa. Ela havia transformado milhares e milhares de pessoas em pedras e queria fazer o mesmo consigo, queria matar Rebecca e depois fazer o mesmo consigo. Mas não conseguia se sentir aliviado por ter se livrado do monstro. Nem mesmo sabia se poderia chamá-la assim. Ela era muito mais humana do que criatura e isso soava errado, porque também era muito parecida consigo. O peso de dar-se conta de tal fato, levou-o a precisar secar as lágrimas que rolavam em seu rosto.
As palavras dela continuavam rodando sua cabeça, rondando seus pensamentos, perturbando sua calmaria. Poderia ela ajudá-lo com sua maldição? Essa seria uma dúvida eterna causando formigamento em seus membros.
Ajoelhou-se, não porque estava fraco das pernas, ou porque estava machucado. Mas porque precisava tocar o chão, senti-lo sob si, então tocou a terra com a calma, apertando-a entre os dedos e deixou-se chorar apenas um pouquinho. Onde estava Aro, Amélia, Connor? Não os havia visto, mas se os perdesse também, talvez não teria nem mesmo motivo para continuar lutando contra sua maldição. Talvez o certo deveria ser se entregar a Melinoe.
Então lembrou-se do Acampamento Meio-Sangue, de todas as suas lembranças que haviam sido destruídas lá. Da árvore que ele e sua mãe haviam usado para gravar as iniciais de seus nomes (AJW e AW, junto de um coração), sendo destruída, restando apenas parte do tronco em cinzas. Do chalé onde vivera a melhor parte de sua vida completamente destruído. Da Casa Grande, onde recebera broncas e mais broncas tanto de Quíron, quanto de Sr. D e de Alma, não restara nada. E do chalé de Poseidon, onde dormira nas noites em que sentia-se independente e onde usara para treinar no deque que dava espaço para o mar, sobrara apenas parte do tridente que o enfeitava.
Sua casa havia sido destruída e agora que encontrara outra, recusava-se a deixar que isso acontecesse novamente.