📝 › ACT 3: SUMMON ALL THE COURAGE YOU REQUIRE
Heidi recebeu a notícia à olhos tortos.
Diga-se de passagem que sua vida já não estava sendo fácil.
Se sua vida fosse um livro de aventura, não haveria leitor esperançoso o suficiente para o final. Todos já estariam confortáveis com o seu final triste ou já teriam largado a leitura e deixado-a na beira do precipício. Quem sabe deixá-la pender no além entre o ruim e o péssimo fosse melhor do que a confirmação da tragédia. Contudo, os possíveis leitores de sua aventura miserável como herói já estariam cientes de algo que ela havia demorado a perceber: Heidi nem mesmo era a protagonista de sua própria história.
@olympusfall-demigods
Desde a queda do Acampamento Meio-Sangue, crescente era o sentimento de não pertencimento, algo existente mesmo antes, enquanto vivia naquele lugar que deveria considerar casa: a casa de dois andares e três quartos. Ir para o Acampamento Jupiter parecia o inferno. Fingir-se colega de um grupo de semideuses romanos que ela sabia não serem capazes de mexerem os dedos para ajudar qualquer situação que envolvesse gregos era como sua punição por qualquer pecado que viesse a cometer.
Não culpava Quíron, por exemplo. Ele havia dado o seu melhor para aliviar a tensão, ela reconhecia, mas odiava o olhar de decepção que ele tinha em seus olhos cada vez que se tratava da filha de Éris. Por algum motivo, todos ao seu redor tinham o péssimo hábito de colocar uma extrema confiança nas coisas que fazia, como se estivesse realmente destinada a grandes atos. Spoiler: não estava, mas Heidi não achava em si coragem o suficiente para dizê-los.
Heidi sempre foi mesquinha. Guardava para si seus fatos, suas verdades. Entretanto, nesse caso, ainda que tentasse manter em segredo a realidade do que era, difícil se tornava esconder o fato claro como o dia sob a luz do sol: não era nada não fosse uma causadora de problemas.
Ela reconhecia a discórdia quando a via, ela sentia de longe o sabor da briga, o cheiro do conflito, e a forma como a desconcórdia se espreitava entre paredes finas causava na loira arrepios que lhe corriam o corpo inteiro. Heidi tratava do desajuste como um velho conhecido, talvez por isso achasse melhor lidar com as situações de seu dia-a-dia com raiva e pouca vontade, tremendo-se por completo a cada oposição que lhe surgisse. Havia sido sempre assim, ainda que hoje, longe e por sorte (leia-se de maneira irônica) abençoada pelo amor familiar, receba diariamente fotos de Hugh, Victor e Marianne, tal qual uma família perfeita.
Ainda não havia contado a novidade a eles, não achava em si a maneira de conectar-se com palavras que diziam ei, então, eu sei que vocês são bem ocupados e que adoram fingir que gostam de mim, mas logo logo estarei morta. Não havia visto na sua realidade chance alguma de sobreviver ao que viria a seguir, o ataque ao acampamento durante o jogo das bandeiras era razão suficiente para que desacreditasse em sua capacidade.
De que servia, se não para causar discórdia?
A cicatriz em seu rosto que Heidi recusava-se a fitar no espelho era sinal óbvio de que nunca seria mais do que apenas aquilo.
Talvez nem mesmo junto dos outros semideuses devesse estar. Se fugisse, talvez encontrasse paz. Por isso, cogitou, cogita, juntar-se às Caçadoras, buscar entre elas algum tipo de conforto. Em seu mundo utópico, faria o juramento ao que sorria para Ártemis e imediatamente sentiria-se em casa. Contudo, nem mesmo isso era capaz de fazer, com Ártemis sumida, em cativeiro, e as caçadoras sem uma liderança adequada.
O destino parecia tratar de si como uma piada.
E, assim talvez, por conhecer bem a discórdia e o conflito, é que ela não conseguia acreditar em Hécate. Não via verdade em suas ações, não conseguia acreditar em alguém traidor assim como não conseguia nem mesmo acreditar no suposto amor, carinho, afeição que sua mãe tinha por si. Não encontrava razões o suficiente em si e na realidade que lhes envoltava para acreditar em Hécate, ainda que tivesse trazido junto de si Circe, uma figura importante no plano maior das coisas, e Bianca Di Angelo.
Uma traidora para sempre seria uma traidora. Ela franziu o cenho.
Não conseguia enxergar como ambos Lupa e Quíron de nada fariam para negar a aproximação da deusa, mesmo após terem assistido de camarote a forma como ela havia se voltado contra eles no momento em que mais precisavam. De certa forma, ainda que quisesse acreditar que tinham o apoio da deusa, mesmo que maneira confusa e entre linhas tortas, Heidi não conseguia se deixar aceitar.
Semideuses não podia contar com a ajuda de deuses, isso era aprendido logo cedo. Nem mesmo de seus parentes. Ajuda divina dificilmente vinha se não havia algo que quisessem em retorno. Por isso também sentia pelas crias da deusa da magia. Ter que lidar com a causadora da discórdia já era o suficiente. Ter como mãe uma traidora deveria ser como uma sentença única e marcada em sua pele para sempre. Não compartilharia, contudo, suas opiniões nem com Belen, tampouco com Rebecca. Temia a reação que pudessem vir a ter, não sabia o quão fundo haviam caído no papinho ensaiado da deusa da magia e da encruzilhada. Sua especialidade era trapacear e encarcerar semideuses em dúvida. Não era confiável por natureza, tais quais os filhos da Discórdia.
Heidi suspirou e girou a adaga que tinha em mãos, percebendo, então, que há longos minutos encarava o alvo à sua frente. Ela tornou a franzir o cenho, encontrando o centro do alvo. Se haviam escolhido aceitar as desculpas esfarrapadas de uma deusa, não iria morrer sem tentar. Recusava-se a padecer como covarde, recusava-se a fazer disso o final de seu livro. “Pronta?”, o semideus que lhe treinava perguntou, apreensivo e ela assentiu, então lançou a adaga vendo-a cravar num movimento sutil sua lâmina afiada na madeira utilizada e reutilizada do alvo e suspirou. Não, não simplesmente desapareceria. “Pronta.”
Dessa vez, Heidi tinha feito sua decisão. Lutaria por seu lugar, lutaria para achar pertencimento no mundo. Ainda que não fosse a protagonista desde o início, sendo essa a Discórdia, tomaria o que era seu por direito.











