Can you keep a secret?
O vento frio da noite entra furtivo pelas frestas das janelas na sala escura do diretor, onde os professores estão reunidos. Os primeiros minutos passam em silêncio, e um clima tenso paira sobre o local. A iluminação oferecida unicamente por velas que bruxuleiam com o vento apenas tornam o clima mais sinistro.
Noel o encara, e ele o encara de volta. O diretor, com cabelos brancos, uma barba que carece de cuidados e uma profunda ruga na testa. Obviamente, está esperando que ele fale algo. Noel só não sabe por onde começar.
- E então? - a voz de Matt Haideen, o diretor, o arranca de seu torpor. Ele olha ao redor. A maioria dos professores carrega a mesma expressão inquisitiva, e Helena o encara de forma quase encorajadora. Ao menos ela está ali. Ele esfrega suas mãos uma na outra.
- Eu estive pensando - começa. - Em relação aos acontecimentos recentes, e… acho que deveríamos fazer algo pela segurança dos alunos.
Ninguém fala nada, todos apenas mantêm o olhar fixo sobre ele.
- Explique-se - Matt demanda.
- Certo - Noel limpa a garganta, coçando o queixo. - Não estou falando sobre colocar guardas de segurança em Hogwarts ou coisas assim, mas ensiná-los a se defender. A se preparar, caso algo como aquilo volte a acontecer.
Ele olha ao redor. Todos sabem a que "aquilo” se refere.
- Pensei em, além das aulas, começar um tipo de treinamento, que também ajudasse cada um a desenvolver suas melhores habilidades e usá-las a seu favor - ele continua, procurando as melhores palavras. - Haveriam testes, para saber com o que cada um se daria melhor na ocasião de uma batalha. Cada um aprenderia também a se defender.
Alguns professores parecem interessados, outros concordam com a cabeça, mas o diretor apenas franze ainda mais sua testa, e junta os dedos. Não parece exatamente animado com a ideia.
- Está sugerindo que, ao invés de seguir com as aulas normais… - ele começa, inclinando-se para a frente. - Coloquemos nossos alunos em um mini treinamento militar com absolutamente nenhuma finalidade? Acha que não somos o suficiente para protegê-los?
Noel franze o cenho. Está certo de que não foi bem aquilo que queria sugerir.
- Não exatamente - responde. - Apenas acho que eles deveriam estar preparados para enfrentar inimigos. Só nós, professores, estamos em um número bem menor do que o grupo Mossinieurs, especialmente agora que Lauren se foi - sua voz enrijece. - Alunos foram mortos pelos homens nesse último confronto, e apenas vencemos porque tivemos reforços mandados em uma última hora. Odeio admitir, mas creio que uma nova guerra pode estar próxima, e eles têm que estar preparados. Você sabe que sim.
Ele se cala, esperando por uma resposta. Está convicto de sua ideia.
Matt apenas volta a recostar-se contra sua cadeira. Por algum motivo, sua calma é alarmante para Noel.
- Não - o diretor responde.
- Não? - Noel pergunta, tentando manter-se controlado.
- Não. Acho que essa ideia é perda de tempo.
- Perda de tempo? - repete, descrente e indignado. Seu cenho franze-se ainda mais, e Noel não é o único com aquela expressão. - Acho que não está em completo juízo, diretor.
- Tenho certeza de que estou, Noel - ele responde, e é fácil captar o sútil tom de ameaça em sua voz. - Você já apresentou seus argumentos, e eu já apresentei minha resposta. Ela não mudará.
Noel abre a boca para argumentar, mas consegue apenas cerrar os punhos. Não esperava um “não” como resposta. Não esperava que o diretor fosse tão cego a ponto de não perceber o perigo em que estavam. De não perceber que exatamente o que acontecera em Durmstrang poderia acontecer em Hogwarts. E de não perceber que era exatamente aquilo que ele queria evitar.
- Noel… - ele ouve a voz de Helena atrás de si, e suspira.
- Certo - diz, abaixando levemente a cabeça. - Perdoem-me por ocupar o tempo de vocês. Isso é tudo.
No corredor, após terem se retirado da sala, ele coloca as mãos no ombro de Kale e Helena, e lhes murmura um aviso. Eles assentem. Ao menos, ele tem um plano B.
***
O ar está úmido e pesado dentro da sala privada no Cabeça de Javali, e cheira a cerveja e mofo. A única iluminação é oferecida pelo candelabro pendurado no teto, que parece poder se apagar a qualquer hora.
Um feitiço impede que qualquer coisa que eles dizem seja ouvida no lado de fora, e Aberforth se certifica de que ninguém entre ali. Aquela sala em especial provavelmente é desconhecida para a maioria das pessoas, o que é quase reconfortante.
A maioria dos olhos estão centrados nele, esperando por uma palavra. Ele coça o queixo, apoiando o cotovelo na mesa de madeira que range a qualquer dada oportunidade.
- Antes de tudo, quem está de acordo comigo? - Noel pergunta.
- Você sabe que eu concordo, Noel. - responde Helena primeiro.
Logo em seguida, os outros murmuraram sua concordância. Mais relaxado, Noel para de coçar o queixo e continua:
- Acho que não podemos contar com o diretor para nos ajudar, e sinto que desobedecê-lo vai ser uma má ideia. Mas, mesmo assim, temos que fazer algo.
- O que sugere? - indaga Sophie.
- Simples: nos organizamos, falamos com os alunos e colocamos o plano em prática, mas em segredo.
- Como?
- É exatamente isso que viemos discutir.
- Não acha que é arriscado demais? - Daniel arqueia uma sobrancelha.
- É arriscado, mas Noel tem razão - Rachel se pronuncia, tocando o braço do marido. - Não podemos permitir que em tempos como os atuais os alunos sejam desprezados. Um erro na saula de aula é uma coisa, mas um erro no mundo lá fora… Poderia custar a vida deles. Eu estou dentro.
Noel concorda com a cabeça, agradecido, e alguns fazem o mesmo.
- Temos que tentar; apenas precisamos melhorar o plano - Noel olha ao redor. - Por onde começamos?
Por um momento, o único som na sala é o continuo ranger da mesa sob o peso de mãos e cotovelos. Alguns professores trocam olhares, outros assumem expressões pensativas.
- Podemos começar com o básico: onde, como e quando. - sugere Kale
- Essas são boas perguntas. - Noel concorda. - E então?
Já é madrugada quando deixam o Cabeça de Javali, com o ar frio e seco da noite e neve cobrindo os caminhos. Hogwarts está silenciosa. No dia seguinte, ele imagina, a áurea de calmaria não durará muito.













