f l a s h b a c k .
Era fim de maio, o terceiro dia da missão de resgate de uma pequena semideusa. Apesar de teoricamente simples, a tarefa se tornava mais complexa a cada instante. Para começar, haviam escolhido Julian Kane, o ex-amigo de Liza, babaca arrogante e responsável pela morte de dois de seus amigos mais queridos, para acompanhar ela, Gaspard e as gêmeas filhas de Njord na missão. Depois, anunciaram que a garota não estava nos Estados Unidos, mas sim nas Ilhas Virgens Americanas, o que exigiria uma viagem de navio pelo mar de monstros. Sim, Liza tentou insistir para aguardarem a abertura de um portal na ilha, porém não havia tempo, logo enviariam a menina para a Europa com os tios e a missão se complicaria ainda mais.
E como se tudo aquilo não fosse o suficiente, assim que encontraram a semideusa ela teletransportou o grupo para o meio do nada (ou, segundo Julian, Ribeirão Preto, no Brasil). Como? Por que? Ninguém sabia, era uma criança ainda não reclamada, assustada, de luto pelo recém falecido pai. De qualquer forma, eventualmente os cinco chegaram à conclusão inevitável: teriam de esperar mais um dia naquela cidade até o próximo evento astronômico que permitiria Liza abrir um portal.
Agora, observava Gaspard dormir, não no corpo ao qual estava acostumada, mas na forma de um polvo humanoide. Sabia que não acordaria nada feliz. Acima de tudo, era seu melhor amigo e precisava de apoio naquele momento, por isso, o encarou bastante antes de decidir acordá-lo. Sinceramente, estava lamentável. Já havia visto polvos em aquários e vídeos da internet, mas nada como aquilo. Foi apenas quando se acostumou à imagem e teve certeza que não iria rir ou fazer caretas na frente de Gaspard que o cutucou. Os sentimentos estranhos dos últimos dias nem passavam mais por seus pensamentos diante da preocupação em como não ofendê-lo.
“Bom dia” falou, gentilmente. “Fiz café.” E estendeu uma caneca, preparada do jeito que ele gostava.
@polvoruja












