Poupa (Upupa epops)
Portugal
photo Pedro Lemos
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Poupa (Upupa epops)
Portugal
photo Pedro Lemos
Um sorriso no rosto é sempre necessário manter. Ele poupa falsas preocupações desnecessárias e imaturas.
Huppe courtilière 170511-08 par paul.vetter Via Flickr : La huppe fasciée a capturé une courtilière, son mets favori.
Huppe courtilière 170511-01-P par paul.vetter Via Flickr : Huppe fasciée et sa nourriture préférée: la courtilière
A Sentinela de Crista
Na região de Paços de Ferreira, onde as sombras das serras se alongam como dedos esqueléticos sobre os vales, a meteorologia não é um capricho do céu, mas uma sentença dos deuses antigos. Naquelas paragens, o vento Suão não traz apenas calor; traz a febre, o delírio e o cheiro a carne ressequida. Mas o nevoeiro... o nevoeiro é algo pior. É a "Bruma dos Esquecidos", um manto leitoso que apaga as fronteiras entre o mundo dos vivos e o reino daqueles que não conseguem partir.
Neste cenário de desolação, erguia-se a velha Abadia de Santo Tirso de nenhures, uma ruína de pedra negra onde a luz do sol parecia morrer mal tocava as paredes musgosas. Era ali que a Poupa vivia. Naquele tempo, a Poupa não era a ave que hoje conhecemos, mas a "Zeladora das Mortalhas". Tinha o corpo coberto por penas que pareciam feitas de veludo funerário e uma crista de penas longas e afiadas que ela erguia como uma coroa de ferro sempre que a morte rondava o átrio.
A sua tarefa era sagrada e terrível. Sempre que um infeliz falecia sem confissão ou sem família, a Poupa tinha de tecer um sudário com fios de silêncio e agulhas de espinhos. Se o trabalho não fosse terminado antes da primeira badalada da meia-noite, a alma do defunto ficaria presa na terra, vagando como um espectro faminto.
Contudo, aquele inverno de 1825 fora particularmente devastador. Uma peste sem nome descera das montanhas, e os corpos acumulavam-se sob as arcadas da abadia. A Poupa, com as patas feridas e a visão turva pelo cansaço, sentia que o fio do destino se estava a romper. Precisava de ajuda.
Voou, então, até ao carvalho oco que marcava o limite do cemitério, um lugar onde a erva não crescia e os insetos não ousavam zumbir. Ali habitava o Cuco.
O Cuco era uma criatura de natureza parasitária e cínica. Enquanto as outras aves construíam, ele destruía; enquanto umas cantavam à vida, ele contava o tempo que restava aos moribundos. Diziam que o seu "cuqueiro" — o seu refúgio secreto — ficava numa fenda entre as dimensões, um lugar onde o tempo estava parado e o frio era absoluto.
— Cuco! — clamou a Poupa, pousando num ramo seco que estalou sob o seu peso. — A morte reclama mais do que eu posso dar. As minhas garras estão gastas, e os teares da alma estão parados. Peço-te, por uma vez, que deixes a tua indolência e me dês uma demão. Ajuda-me a selar estes sudários antes que o abismo se abra.
O Cuco não se moveu. O seu corpo, de um cinzento metálico como uma lápide sob a chuva, estava fundido com a escuridão do tronco. Apenas os seus olhos, de um amarelo bilioso e circular, se abriram lentamente. Ele observou a aflição da Poupa com um desdém milenar. Ele conhecia o peso do trabalho, mas desprezava o esforço. Para ele, a salvação das almas era uma ocupação fútil.
— Eu, se estiver suão... — sibilou o Cuco, a sua voz soando como o arrastar de uma corrente enferrujada — Vou-te dar uma demão.
Naquele preciso momento, o ar estremeceu. O vento Suão, vindo das profundezas do sul, começou a soprar com uma violência antinatural. Não era uma brisa; era um sopro de fornalha. O céu tornou-se cor de cobre e as folhas das árvores murcharam instantaneamente. O calor era tão intenso que o suor da Poupa evaporava antes de tocar nas penas.
Fiel à sua palavra caprichosa, o Cuco saiu do seu esconderijo. Com movimentos mecânicos e precisos, começou a ajudar a Poupa. Trabalharam durante horas sob aquele sol doente e o vento abrasador. O Cuco, com o seu bico afiado, cortava os fios do destino com uma eficiência assustadora, mas havia algo de sinistro no seu auxílio. Ele não cosia com carinho; ele pregava os sudários aos corpos com uma força que parecia querer esmagar os ossos que restavam.
— Depressa! — urgia a Poupa. — O vento está a mudar! Sinto o frio a subir do vale!
O Cuco parou por um segundo, o pescoço rodando cento e oitenta graus como o de uma coruja mecânica. Ele cheirou o ar. O Suão estava a morrer. Do horizonte, uma massa branca e compacta, como o hálito de um gigante de gelo, começava a devorar a paisagem. O nevoeiro estava a chegar.
Não era um nevoeiro comum. Era a Bruma de Ouro, a névoa que cega os homens e liberta os demónios. À medida que os primeiros farrapos de névoa tocavam as pedras da abadia, a luz do dia era aniquilada. O mundo tornou-se cinzento, silencioso e húmido.
A Poupa entrou em pânico. Faltava um último sudário, o de uma criança que morrera de medo.
— Não pares agora, Cuco! — implorou ela, as suas penas eriçadas de pavor. — Só mais este! Se o nevoeiro o levar, a alma dele nunca conhecerá o repouso!
O Cuco, porém, soltou a agulha de osso. O seu corpo começou a vibrar e a tornar-se translúcido, quase fundindo-se com a bruma que os rodeava. O seu compromisso com a luz e o calor terminara. A sua natureza predatória e solitária reclamava o seu direito ao isolamento.
— E se estiver nevoeiro... — disse ele, a sua voz agora multiplicada pelo eco das ruínas — Quero ir para o meu cuqueiro.
— Mas o teu cuqueiro é a solidão eterna! — gritou a Poupa. — É o vazio!
O Cuco não respondeu. Deu um salto para trás e, antes de tocar no chão, desapareceu. Não voou para longe; simplesmente deixou de estar ali. Tinha regressado ao seu refúgio metafísico, um lugar onde nem o som nem a dor o podiam alcançar, deixando a Poupa sozinha no meio da bruma branca.
A Poupa tentou continuar. Tentou tecer no escuro, mas o nevoeiro era tão espesso que ela já não via as próprias garras. Sentiu mãos invisíveis e frias puxarem o sudário inacabado. Ouviu os lamentos das sombras que o Cuco, com a sua preguiça e egoísmo, permitira que ficassem soltas.
Diz a lenda que a Poupa, num acesso de loucura e desespero, começou a gritar para a bruma, tentando chamar o Cuco de volta. Mas o Cuco apenas respondia com o seu chamamento rítmico, vindo de uma dimensão que ninguém podia atingir.
Desde esse dia, a Poupa ostenta aquela crista magnífica e trágica: é o símbolo da sua ansiedade eterna, sempre alerta, sempre à espera que o vento mude. E o seu grito tornou-se rouco e triste. Quanto ao Cuco, ele continua a ser o mestre da conveniência. Ele oferece ajuda quando o sol brilha, mas no momento em que a alma precisa de um guia na escuridão, ele retira-se para o seu "cuqueiro", deixando o mundo entregue ao nevoeiro e ao esquecimento.
E em Paços de Ferreira, quando o nevoeiro baixa e as luzes das casas se tornam apenas pontos baços na bruma, os velhos fecham as janelas. Sabem que o Cuco está escondido, a observar a sua preguiça ser paga com a angústia dos outros, enquanto a Poupa, solitária, continua a tentar tecer um amanhã que o nevoeiro insiste em apagar.