A muito tempo eu não me sentia assim, fraca, impotente e totalmente dependente. Olhar pro lado e ver que vc não tem nada e nem ninguém é desesperador né? Pois é, assim que eu tô me sentindo, dentro de um buraco que só está eu e o eco.

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A muito tempo eu não me sentia assim, fraca, impotente e totalmente dependente. Olhar pro lado e ver que vc não tem nada e nem ninguém é desesperador né? Pois é, assim que eu tô me sentindo, dentro de um buraco que só está eu e o eco.
i can’t it let win now ; pov
Houve uma dessas noites em que Flynn Peters perdia seu sono. O casamento de seu amado príncipe estava chegando e não tinha nada que ele poderia fazer a não ser conformar-se. E isso não fazia parte da natureza rebelde de Peters. Queria lutar e fazer alguma coisa por seu amado que agora dormia em seus braços. Queria impedir que o homem que amava se casasse e fosse infeliz naquele casamento. Entendia que ele poderia até gostar dela, mas a conexão que tinha com Flynn era diferente e não seria transferida. Flynn tinha a mais absoluta certeza de que por melhor que a princesa fosse, Aurélien lhe pertencia de um modo que não tinha volta e vice-versa. Ainda que soubesse que seus dias estavam contados e que o rei não poderia deixar o assassino de seu pai com vida, Flynn tinha um resquício de esperança de que o que sentiam um pelo outro fosse capaz de vencer mais um obstáculo.
Flynn se afastou de Aurélien sob protestos do mesmo. Disse que iria ao banheiro, mas não era a verdade. Flynn queria ficar um pouco sozinho, pensar em todas as possibilidades. Talvez se o escravo colocasse tudo em pratos limpos ao príncipe, teria seu aval para fugir. Entretanto que tipo de covarde ele seria se não permanecesse ao lado do seu amado quando o mundo inteiro estivesse caindo sobre as costas dele? Talvez fosse por sono que Aurélien não protestou de fato com a saída de Flynn da cama.
O castelo estava vazio e com pouquíssimas velas acesas. Ainda assim, Flynn conhecia aquele castelo como a palma de sua mão. Não precisava sequer de iluminação para chegar onde bem queria. Numa das escadarias que levava para a torre em que o rei costumava castigar seus filhos, o escravo se sentou e colocou a cabeça para trás, tentando apagar da mente todos os caminhos que levassem a morte da princesa. Parecia a solução mais fácil, mas olha onde ele estava por simplesmente ter enfiado a faca no pescoço do rei? Se ele pudesse voltar no tempo se impediria de ser tão inconsequente.
Se lembrava de como Anna havia ficado feliz por ter visto o rei morrer. Precisava encontrar com ela em breve e falar para que eles não o vingassem e que se o fizessem, ao menos, com Aurélien de modo completamente indolor. Flynn amava demais ao outro para sequer imaginar que seu amor sofresse qualquer coisa, por menor que fosse. Sentia os olhos arderem, mas engolia o choro dolorosamente. Não tinha certeza se o príncipe cumpriria a promessa de libertá-lo, mas o que Flynn faria com a liberdade se a única que queria era a liberdade de amar Aurélien sem que nada fosse capaz de conter? O príncipe era a liberdade do escravo, mas também sua mais obscura prisão.
Foi então que ouviu alguém descendo as escadarias com pressa. Seu cenho se franziu, porque não esperava ninguém acordado àquela hora da noite. Encolheu as pernas e deixou que a pessoa passasse sem maiores problemas. Só que, diferente do que o escravo imaginava, a pessoa voltou alguns passos e se sentou ao lado dele. Se tratava do escravo da noiva da princesa.
“O que está fazendo aqui?” Flynn perguntou curioso.
“A rainha mandou que viesse alimentar Dival.” O escravo disse e ao escutar isso,os lábios de Flynn se curvaram em um sorriso. Quando o escravo voltasse para o quarto preparado a ele, Flynn teria uma conversa com o ex-capanga do rei de modo que todo o ódio entre os dois fosse devidamente colocado em pratos limpos. Especialmente a parte em que aquele maldito abriu o bico sobre o príncipe e Flynn. Era tudo culpa do maldito Dival tudo o que estava acontecendo.
“Não que ele merecesse...” Flynn não resistiu em ser sincero. Todo o palácio sabia que os dois não se gostavam e o responsável pelas escalas de trabalho no castelo tomava o cuidado para que os dois não se cruzassem em momento algum. Dival tinha sido jurado de morte por Flynn, embora soubesse que mata-lo não traria o alívio de sua dor.
“Então é você o cara que nunca devem deixar cruzar com o Dival.” O homem disse dando uma risada leve. “Minha princesa ficou assustada ao saber que havia um escravo abertamente odiando o outro por esses arredores. No reino dela, os monarcas não convivem tão de perto com seus escravos.”
“Aqui não é diferente.” Flynn advertiu. “Mas digamos que o idiota do Dival tinha sua fidelidade ao antigo rei e minha lealdade está, irrevogavelmente, com o futuro rei. E isso não é segredo pra ninguém.”
“E havia briga entre o rei e seu filho?”
“Não.” Disse negando com a cabeça. “Havia conflito de ideias entre eles. Tenho certeza de quando o Príncipe vigente tornar-se rei, muito do modo de governar do antigo haverá de cair. Começando pelo fato de que o novo príncipe não tem interesse em matar soldados em uma guerra.”
“Como?” Franziu o cenho. Ao professar aquelas palavras, Flynn percebeu o quão cega era a sua confiança no príncipe que outrora estava lhe abraçando. Talvez aquela certeza fosse prejudica-lo, uma vez que não tinha a menor certeza se seu amado tinha escutado toda a sua confissão. Flynn não sabia se o príncipe ouvira quando disse que era um líder rebelde e todas as outras coisas que tinha dito num momento de fraqueza. Nunca haviam conversado sobre isso. O príncipe nunca o tinha colocado na parede para decidir de que lado ele realmente estava e, quando isso acontecesse, não teria uma resposta. Não uma que fosse racional. E Flynn tinha muito apego ao que era racional.
“Não importa.” Preferiu dizer ao invés de detalhar do que se tratava. “O casamento será daqui alguns dias. Como sua princesa está?”
Flynn perguntou porque só tinha uma visão ciumenta da princesa e, quando estava com Aurélien, se ocupava apenas de fazê-lo esquecer dos problemas que os dois vinham enfrentando desde a fuga. Não se importava com a imagem que tinha da princesa, pelo menos não até agora que não parecia haver saída a não ser entregar o amor da sua vida para a garota. O escravo precisava saber o máximo que conseguiria para que seu coração se apaziguasse um pouco mais. Além do que ainda existia dentro de si a necessidade de proteger Aurélien de tudo e de todos. E sabia que seu principezinho não queria reinar. Sendo assim, Flynn só precisava ter a certeza de que a princesa não era uma má pessoa e talvez também amasse ao príncipe. Não seria difícil, sendo que o jovem era bonito, inteligente, engraçado, doce e puro, mas também conseguia ser teimoso e seu jeito mimado conseguia desmontar aquele escravo como se ele fosse feito de lego.
“Radiante.” Respondeu o homem. “Ao que tudo indica, seu príncipe não é o homem que ela achou que fosse. Então ela não tem motivo para temer a infelicidade de ambos ou qualquer coisa assim.”
“Isso é bom.” Disse Flynn tentando soar natural. “O príncipe tem sido parte de minha alçada há muitos anos... Tenho uma grande estima por ele. Não quero entregar o príncipe nas mãos de alguém que o fará infeliz.”
O outro escravo entendeu. Assentiu. Peters por outro lado havia soado meramente mecânico e sem emoção. Havia entrado num estágio de dor tão forte nas últimas semanas que era como se já o tornasse imune a qualquer coisa nesse estilo. Tantas coisas estavam por vir a partir daquele casamento que o escravo não tinha certeza se conseguiria suportar, mesmo sabendo que seria capaz de roubar o brilho da Lua caso o príncipe lhe pedisse. Não existia nada que Flynn fosse capaz de negar ao homem que amava. Absolutamente nada.
Flynn também não ouviu mais nada depois daquilo. O homem talvez tivesse que ir atender os designíos da princesa ou, simplesmente, voltar a dormir. Ele ficou entre voltar para o quarto e ficar com Aurélien mais um pouco ou se dava uma prensa em Dival. Preferiu a primeira opção, porque seu tempo ao lado do amado estava passando rápido demais e, se haveria uma coisa que Flynn sentiria falta, era de abraçar ao príncipe no meio da noite.
Uma vez rainha, sabia que a princesa tiraria o quarto do escravo. E não era o fato de ser tratado como um escravo comum que doía, mas sim não poder escapar do quarto para ficar com Aurélien ou às vezes que era o oposto que acontecia. Sentiria falta de dormir abraçado ao príncipe e de como seu coração disparava ao olhá-lo dormir tão profundamente em seus braços.
E lá estava ele de novo, ouvindo reclamações do príncipe por conta de uma demora no banheiro. Flynn sorriu. Não tinha sono, mas também não tinha vontade de deixar o amor de sua vida sozinho nos dias que faltavam para a separação definitiva deles acontecer. E Flynn ficou em silêncio, quase que imóvel, para que o príncipe não percebesse o quanto o escravo estava se sentindo vazio e com medo. Queria fugir de novo com o príncipe, mas sabia que não era possível. E odiava aquela sensação. Embora, pelo menos, a princesa não era tão ruim quanto estava desenhada em sua cabeça. Talvez Aurélien pudesse vir a amá-la depois que o mandasse executar. Flynn estava mais do que ciente do seu verdadeiro fim, mas deixar ao príncipe naquele momento – ou em qualquer outro – era incabível.