Era uma das melhores épocas do ano. Tinha ares morbidamente melancólico e eu, mesmo muito novo, aprendera a me aproveitar da situação. Enquanto meus pais pagavam penitência e rezavam por seus pecados, eu e meu irmão fazíamos o que queríamos perambulando pelos bairros da cidade e, mesmo quando passávamos dos limites, não haviam gritos. Tinha o olhar pesado de meu pai, mas minha mãe só nos arrastava para um canto em silêncio, nos sentava e pedia, por favor, para que a deixássemos rezar. Era uma mensagem bem mais compreensiva do que gritos. Não significava, porém, que obedecíamos...
Chamávamos de Pascua Florida. Juntávamos as coisas e viajávamos por uma semana para Sevilla, extremo de Barcelona. Nos hospedávamos em grandes hotéis com piscina, comida boa, gente do mundo inteiro. Nossa irmandade era de grande influência e, por isso, tínhamos alguns privilégios. Os adultos passavam os dias programando os domingos enquanto nós, depois de algumas horas de atividades catequistas, ficávamos sobre supervisão de algumas freiras mas, na maioria das vezes, fazíamos o que queríamos.
O domingo era o dia mais esperado. Era quando meu pai arrancava os sapatos e carregava o trono de Jesus nas costas em procissão junto a outros homens de influência e quando minha mãe se tornava a mais bonita dentre as mulheres. Usava roupa preta e maquiagem, soltava os cabelos - tão enrolados quanto os de Santiago - e vestia um véu de luto para caminhar junto as outras damas e sofrer a morte do Salvador. As freiras costumavam nos levar atrás de todo o resto da procissão. Eu morria de medo. As velas, os capuzes, as músicas... Geralmente era arrastado pelas ruas enquanto chorava, me negando a acompanhar a tradição odiável.
Quando mais velho, as minhas responsabilidades aumentaram. Aos poucos eu era inserido no mundo dos pecadores, tinha de responder a perguntas nos confessionários que eu nem mesmo sabia a resposta e passava as cada vez mais horas rezando. Ou fingindo rezar. O ano dos meus quinze foi o pior dos anos, em todos os sentidos.
Eu era coroinha em Barcelona e na páscoa em Sevilla não fora diferente. Passara a maior parte do tempo a ajudar nas celebrações em vilas mais precárias e geralmente não tinha qualquer ânimo para quando voltava ao hotel. Apenas acompanhava Santiago em suas estripulias de menino, agradecendo verdadeiramente por sua inocência aos céus.
Num dos dias da semana o padre Carlo deu um jeito para que não voltasse tão logo para casa. Eu sabia o que viria, mas desta vez, viera cheio de discursos. Comparou nossa época à Inquisição e disse que certamente seria queimado se a Igreja mantivesse seus dogmas, porque o demônio propagava em meu corpo. Culpou-me por tentá-lo... Disse que o diabo agia em meu andar e em meu jeito de olhar, e até na minha forma de me vestir. Depois disse que não cederia mais a tentação e eu quase respirei aliviado. Quase acreditei que a semana santa era mesmo milagrosa.
Mas me mandou baixar as calças e começou a rezar. Eu estremeci. Quando molhou a cruz de madeira em água benta eu entendi qual seria a purificação da vez. Encostei a testa na parede e comecei a chorar, me desculpando por qualquer coisa que não tinha cometido, mas ele me penetrou a Santíssima Trindade.
Eu tive febre na noite seguinte. Mal conseguia sair da cama e definharia ali se me deixassem, mas meu pai me obrigou a levantar e em plena madrugada me levou ao hospital. Me recusei a tomar qualquer tipo de injeção, preferindo me dopar com os remédios com a esperança de me fazerem dormir o resto da semana até a volta para casa. Mas também fora arrastado para a procissão, no domingo.
"Padre Carlo disse que precisa me acompanhar. Já é um homem, Andreas. Tem de sentir o peso do pecado." E eu achei que já me havia bastado.
Então caminhei com o peso junto aos demais pagante sem sapatos e olhos vendados, com aproximadamente 200kg distribuídos em dezenas de costas que de nada ajudavam a sustentar o trono de Jesus verdadeiramente. Eu, com quinze anos e 52 quilos, caminhara por mais de duas horas para pagar o pecado de ter nascido. Minhas costas ficaram quase em carne viva.
No ano seguinte eu não frequentava mais a igreja, mas como parte da família, tinha de voltar para o sul da Espanha. Antes, porém, passara a semana a trocar mensagens com um dos amigos de Frederico e, quando e Sevilla, peguei Santiago e me hospedei em sua casa. Não tinha piscina ou comida em abundância, mas como uma família pagã, tinha muito chocolate! Além das perspectivas completamente diferentes da cidade sobre outros olhos... Martín - era como se chamava - me mostrara diversos pontos artísticos, me ensinando sobre artes barrocas, construções góticas e tudo o mais que o meu país tinha a apresentar. Coisa que eu não conhecia e que me fez apaixonar pela arte.
Mantinha meus pais informados. Diariamente encontrava um mensageiro, geralmente algum garoto da rua, e lhes mandava um bilhete contando de minhas experiências. De como a cidade era tão maior do que a procissão! Mas de nada adiantou... Apanhei por mim e por Santiago quando voltei, já que não permitira que meu pai tocasse nele sequer. Mas correria cada passo novamente!
O ano seguinte não fui. Ou qualquer outro ano. Passo minhas páscoas comendo ovos pagãos e assistindo qualquer coisa que de nada tenha a ver com Jesus de Narazé.