Hoje é um daqueles dias em que eu sinto saudades do cheiro da noite que eu sentia de madrugada pela janela do meu antigo quarto no segundo andar, do cheiro dos lençóis limpos e da facilidade com que a felicidade vinha.

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Hoje é um daqueles dias em que eu sinto saudades do cheiro da noite que eu sentia de madrugada pela janela do meu antigo quarto no segundo andar, do cheiro dos lençóis limpos e da facilidade com que a felicidade vinha.
Não ouço mais música Não danço mais Não canto sequer Parei de sorrir.
Aos poucos vou parando de viver
E é como se eu estivesse de fora do meu corpo, observando tudo, fazendo nada por mim.
Como se eu parar de viver fosse fazer com que a vida se esvaísse de mim também.
Podia.
Mas não vai.
Eu sei que não.
Eu ando tão cansado Exausto Perdido No limite da sanidade.
E quem olha pra mim, além do espelho?
Quem me suporta além do meu próprio travesseiro?
Eu.
Só.
Somente.
Sózinho.
Eu.
Às vezes fico pensando em todas aquelas oportunidades que joguei fora, em tanto tempo desperdiçado mesmo com tão poucos anos de vida. Fico pensando em todas as vezes que poderia ter dado certo, mas não deu. Em todas as chances que a vida me deu e eu abri não. Em todas as vezes que minha vida estava exatamente onde precisava estão e eu coloquei tudo a perder só pra poder seguir um caminho diferente. A única coisa em comum de todas as vezes em que penso nisso é a inquietude dentro do peito, aquela sensação de “e se...” que me faz querer implorar pro tempo voltar e a qual eu posso jurar, daria minha vida para poder retroceder alguns anos, ao menos quatro anos... E então tudo seria tão diferente! Talvez eu já estivesse formada, morando sozinho, com meus gatos, talvez até com alguém que me amasse de verdade e estivesse junto pra tudo, mesmo, sabe? Talvez eu viajasse mais e fosse menos estressado. Talvez eu ficasse ou fosse menos doente e vivesse mais. Talvez eu dançasse mais e me dedicasse menos à pensar sobre como tudo poderia ter sido.
Ah, se eu pudesse...
Talvez...
Quem diria...
Quem diria que logo eu seria um boêmio. Logo eu, filho de pai alcóolatra, com tendências impulsivas e suicidas, seria um belo de um boêmio.
Mas francamente, poucos são os fracos que não são. Como aguentam viver essa vida tão realista e triste? Tão chata!
A única forma de levar os dias tranquilamente é essa: bebendo, escrevendo.
Só assim pra esquecer as faltas que se sente, as palavras não ditas, os amores não correspondido, os abandonos e aqueles que partiram sem ti.
É tão triste olhar pra trás e saber que não trilhou nenhum caminho importante, que não deixou nenhum legado e não vai deixar nada para que possam comentar, bem ou mal, sobre a vida inútil que eu levo.
Não quero filhos, não pretendo postergar o tempo dos genes de alcoolismo aqui na Terra. Nem o espírito inquieto. Nem o diagnóstico de borderline.
Não pretendo durar muito por aqui também, francamente, tem dias que fico feliz por pensar que a cada hora que passa fico mais perto do fim.
Mas talvez a vida seja feita disso: momentos. Momentos que você implora pra que tudo acabe logo e outros em que o álcool te tira da sanidade e da crueldade que é estar vivo dia após.
Adoro a solidão, mas há dias em que ela é avassaladora.