O tal do corpo
Querida Aline do passado, estou te escrevendo isso após terminar de assistir pela terceira vez um filme chamado Dumplin, e dessa vez com a mamãe e o papai do jeito tradicional família Santos de ser: o seu colchão no chão bem na frente da cama deles. Sim, mesmo com 20 anos esse é o seu programa em família favorito, aliás, o papai é a sua pessoa favorita no mundo para ver filmes de comédia romântica, assim como a mamãe.
Mas o que quero falar agora não é sobre eles especificamente, mas sobre nós e a nossa dificuldade em lidar com o corpo em que habitamos. Depois de tantos anos ainda sofro por ser gorda e, atualmente, não sou uma gordinha, mas de fato uma mulher obesa. Não sei quantos quilos estou pesando agora, mas tenho uma leve ideia e você odiaria saber quantos. Os médicos seguem dizendo o quanto preciso emagrecer e mesmo sabendo que eles têm razão, não sei o que fazer para mudar isso.
Tentei voltar para academia no ano passado, mas desapareci de lá também da mesma forma que você fez quando ainda usava 46. Isso me frustra muito, pois eu adoraria ir para minha formatura sendo magra. Inclusive, esse ano decidi que faria a cirurgia bariátrica depois de tanto querer lutar contra isso. O plano era operar em janeiro, ainda nas férias para não atrapalhar as aulas, mas muita coisa aconteceu, tudo começou a dar errado para que isso acontecesse e entrei em desespero. O convênio da mamãe que atendia na melhor clínica de cirurgias bariátricas saiu da empresa, o novo convênio não atende lá e isso foi um salto ainda maior para a sua decepção.
Quanto mais os meses passavam, pior essa questão foi ficando e venho escondendo isso das pessoas, mas por uma boa causa já que elas não entenderiam e diriam coisas obvias como: você é linda, não precisa disso. Essa deve ser a verdade, mas porque eu não sinto isso? Sempre que penso em superar isso, me empoderar e me amar sendo quem sou me vem uma lembrança de quando estava no fundamental.
Tinha 10 anos quando uma menina chamada Ana entrou no banheiro da escola procurando pela Patrícia, sua vizinha, e nesse momento era uma das suas melhores amigas depois da briga com a Marcella. A Patrícia estava com medo de ficar com um dos meninos mais bonito da escola, que se não me engano se chama Erick, mas não tenho certeza já que ele nunca foi alguém que me chamava a atenção. A questão foi que eu disse a Ana que a Patrícia estava com medo de ficar com ele, ela não estava com muita certeza daquilo, lembro de dizer mais alguma coisa, porém não faço ideia do que era exatamente, mas era em defesa da Patrícia. Você se lembra do que a Ana disse? Eu me lembro, e é uma coisa que nunca esqueci mesmo 10 anos depois. A Ana me mediu inteira com o olhar e depois disse “Com você ele não vai querer ficar mesmo, olha o seu tamanho” e depois disso ela riu.
Crianças tendem a ser cruéis as vezes, e eu nunca culpei a Ana por dizer isso, mas as palavras dela ficaram guardadas dentro de mim. Isso chega a ser engraçado, eu nunca gostei do menino do qual ela estava falando, mas a questão não era ele, era eu, era como as pessoas me viam. Eu sempre me importei demais com o que as pessoas iriam pensar de mim ou como elas me viam, e o fato de elas pensarem e me verem como alguém que nunca ficaria com um dos garotos mais bonito da escola me fez perder o chão. Depois desse dia eu nunca mais fui a mesma, eu passei a me ver como a garota gorda que nunca seria amada ao invés de ser a Aline.
Isso é algo que tem doido mais do que nunca atualmente, pois estou a menos de um semestre para acabar a faculdade e ainda não aprendi a lidar com o meu corpo, não aprendi a me amar, a ver beleza no que eu sou. A Ana não é a responsável por isso, mamãe e papai sempre fizeram e ainda fazem de tudo para que eu entenda que um corpo gordo não me impede de viver um amor, nem a lutar pelos meus sonhos.
Escrevo isso em lagrimas, pois dói ter que admitir que tanta coisa mudou em mim desde que meu presente era você, mas que sigo não sabendo lidar com os problemas da adolescência e como isso tem dificultado a minha vida em tantos níveis. E quer saber de uma verdade? Esse caso no banheiro da escola não foi o primeiro e nem o último que ouvi, mas o que eu não entendo é os motivos que me fazem acreditar tanto no que as pessoas dizem sobre mim.
Eu queria muito poder me olhar no espelho e ver algo bonito sem que ele fosse todo remendado para entrar em algum tipo de padrão. Talvez essa seja a justificativa da cirurgia não ter acontecido ainda e tudo ter dado errado: os motivos que me impulsionaram a querer fazê-la estão errados, talvez ir a formatura em um corpo gordo não seja tão ruim.
Esse corpo é meu e é seu, Aline do passado, e quero que ele seja bom para nós.
À Aline do futuro tenho algo a dizer: independente de como este corpo esteja, espero que esteja bem, espero que você cuide dele da forma como as Aline’s do passado não cuidaram e que você o ame da forma em que esteja. Ele está contando a sua história, as marcas que ele carregar são assinaturas e registros de aventuras que você viveu. Que esse corpo seja sua morada e não a casa monstro (rs), espero que você goste dele mais do que eu.
Aline do passado, me desculpe, mas eu preciso me livrar das suas memórias ruins ou a Aline do futuro não existirá.
Com amor e muito choro,
Aline Maria.












