Quem nunca se deu a oportunidade de se perder entre o emaranhado de cores, gentes, aromas e sabores do Mercado da Madalena, não sabe o que é caminhar por entre uma aquarela viva.
Estas fotos fazem parte da matéria "Balaio de tudo”, na edição 3 da Quitanda.
Mercado da Madalena segue bombando vida na artéria urbana do Recife
Os mercados são uma importante parte da história da formação das cidades. Eles aglutinam produtores e comerciantes, que a partir daquele espaço, proporcionam uma ramificação urbana gradual. Vários espaços do Recife e sua região metropolitana tiveram a força dos mercados como poder impulsionador da ocupação humana e fortalecedor das identidades que compõem o estado.
Assim é o Mercado da Madalena, com 92 anos de atividades, cuja origem está numa área anteriormente parte de um importante engenho, pertencente a Pedro Afonso Duro. Dona Madalena Gonçalves Furtado, sua esposa, teve seu nome associado ao sobrado construído como casa grande da propriedade. Embora tenha sido batizado de Sobrado Grande de João Alfredo, a construção ficou conhecida como Passagem de Dona Madalena.
Assim como os mercados da Boa Vista e o de São José, o da Madalena também nasceu pela atividade espontânea na região. Então, em 6 de fevereiro de 1925, foram iniciadas as obras para a sua construção, por iniciativa do então governador Sérgio Loreto. Inaugurado em outubro do mesmo ano na Rua Real da Torre, o espaço tinha como característica o funcionamento noturno, o que fez com que ele ganhasse a alcunha de Mercado do Bacurau, inspirado pelo pássaro de mesmo nome, conhecido pelos hábitos noturnos.
As atividades noturnas também atraíram outros tipos que foram importantíssimos na construção da identidade do mercado: os boêmios. Intelectuais, artistas e estudantes fizeram e fazem do Mercado da Madalena o seu habitat natural. O avanço do tempo e dos problemas decorrentes ao crescimento acelerado das grandes cidades, como a insegurança, fizeram com que o espaço feche seus portões às 17:30h. Se por um lado a vida moderna não permita que a antiga boemia adentre a noite, os notívagos ainda podem contar com o Mercado da Madalena ao voltar de suas incursões noturnas, aproveitando o horário de abertura das 6h, para recarregar as energias nos boxes, repletos de opções legitimamente pernambucanas.
O fato é que o Mercado da Madalena, cresceu em sua essência, e como os seus irmãos de São José e da Boa Vista, tornou-se um marco do seu bairro como centro de convivência e preservação de vivências. A sua força reside na venda de mercadorias da terra, sejam elas receitas típicas, como também itens culturais, revelando costumes e a natureza de cada comunidade que pode ser encontrada num box ou em algum vendedor autônomo que circula nas imediações do local.
“Cada pessoa deveria considerar uma visita a algum mercado público de sua cidade como um hábito a ser cultivado, para repensar a cidade e os seus próprios valores de consumo”, reflete a professora aposentada Inês Albuquerque. “Eu sempre morei por essa região, e fiz minhas compras principais por aqui, sabe por quê? Por que aqui tem tudo o que eu preciso. Note bem, o que eu pre-ci-so. Se eu for em lugares maiores, como supermercados e shopping centers, pode ser até que eu encontre o que eu precise lá, mas o que não preciso também está lá, e em uma quantidade assustadoramente maior. A gente se sente seduzido por aqueles anúncios gigantes, aquelas frases que nos puxam pelo ego e fazem a gente acreditar que precisa daquilo que nem estávamos procurando. Sem falar no fato de que nesses locais, é tudo muito mecânico, até mesmo os funcionários e os caixas parecem máquinas. No mercado popular, não. Temos nomes, temos histórias, temos laços, recobramos a consciência do quanto somos humanos e do que realmente importa.”
O SERTÃO TRAZIDO PARA A CIDADE
Nos boxes do mercado da Madalena, encontramos frutas, legumes, folhas, ervas, peixe, carnes, itens para criação de pássaros, acessórios para os aficionados por aquários ornamentais, restaurantes, botecos, lanchonetes, empórios, armarinhos, artesanato e ações culturais. Um dos pontos de referência é o Canto Sertanejo, o Box de número 15, administrado há 18 anos pelas irmãs Neurides e Nelcita Ferraz, sertanejas de Serra Talhada que fizeram de suas raízes o seu meio de ganhar a vida e aplacar a saudade de milhares de pessoas que saíram do interior do estado para viver na capital.
Nós éramos bancárias. Trabalhávamos no Bandepe, e quando surgiram os primeiros boatos de sua privatização, Tratamos de nos preparar para essa possibilidade. Apesar de conseguirmos ter uma vida financeiramente segura, a rotina bancária não era algo lá estimulante. Mesmo nos dias mais tranquilos de trabalho, nos perguntávamos lá no fundo como seria trabalhar com algo que nos desse mais prazer. Tratamos de antecipar a nossa aposentadoria e investimos nesse box”, conta Neurides Ferraz, querida pelos frequentadores do mercado, que recorrem a ela na hora de pedir recomendações sobre queijos, vinhos, cachaças e doces do interior.
“Trabalho com muitos produtos de Pernambuco e da Paraíba. Claro que eu procuro me abastecer com o melhor do nosso estado e estou sempre procurando bons fornecedores e novidades do nosso povo, seja uma nova compota, ou um biscoito típico de Serra Talhada que eu possa trazer pra cá...” Um dos itens mais queridos são os queijos artesanais da Fazenda Carnaúba, da família do dramaturgo Ariano Suassuna, vindos diretamente de Taperoá. “São paraibanos, mas com Ariano não dá pra ter bairrismo, não é mesmo? Os queijos de lá são muito gostosos e fazem o maior sucesso. Tem gente que vem aqui só pra comprar ele.”
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Quando a história, a cultura e a economia se encontram num só lugar
Quando observamos a história de uma cidade e suas diversas narrativas, quais delas se destacam? As riquezas naturais, a pujança econômica, a vanguarda cultural, a participação da sociedade em episódios importantes na história do país? Todos estes e mais uma lista grande de episódios e particularidades, peças importantes do mosaico humano dos centros urbanos. Mas e as nuances dos pés descalços, da tez dourada e escura que carrega balaios, cestas, tabuleiros, embrulhos e redes?
A cidade é feita de heróis e progresso, mas também de ambulantes, das lavadeiras, das quituteiras, da arte mambembe, dos caixeiros e engraxates. Uma parte da sociedade que a história parece enxergar de longe, mas que a vida no fervor das ruas apaga qualquer chance de invisibilidade. Eles podem não estar nos livros de história, mas seus nomes e tradições se perpetuam na memória coletiva informal por gerações e gerações. Foi por eles que nasceram os mercados populares.
Ao analisarmos o corpo arquitetônico da capital pernambucana, vemos claros traços europeus, seja pela influência portuguesa, como holandesa, principalmente no Recife Antigo. Na história da cidade, o embate pela ocupação do espaço urbano ocupou lugar de destaque nas discussões entre o povo e o poder público, encontrando ecos até hoje. Ambulantes, quitandeiros e quituteiros sempre foram alvo de intervenções cujas diretrizes de ordenação se misturavam à postura higienista e padronizadora de uma população que se recusava a dividir seu entorno com negros, indígenas e outras classes menos favorecidas.
A luta pela sobrevivência e pelo direito de ocupar espaços fez com que todas as tentativas de “limpar a vista” das varandas dos sobrados fossem por água abaixo. A vida que corria nas ruas foi mais persistente e valente. Na tentativa de atender aos anseios de ambas as partes, nasceu o Mercado de São José. Com obras iniciadas em 1872 e concluídas em 1875, o espaço serviria para atender àqueles que tinham no comércio popular o único meio de prover sustento a si e à família. Ao mesmo tempo, essas pessoas deixariam de circular a esmo pelas ruas da cidade, amenizando a aura caótica que tanto afrontava a elite.
O Mercado de São José é o mais antigo prédio pré-fabricado em ferro no Brasil. Toda a sua estrutura foi trazida da Europa para o Recife, com partes vindas da França, Inglaterra e Portugal. O seu traçado é inspirado no Mercado de Grenelle de Paris, e foi executado pelo engenheiro francês Louis-Leger Vouthier, atendendo ao clamor por modernidade, civilidade e salubridade por parte dos patrícios. Mas para quem esperava que as atividades ali se restringiriam a um simples comércio, estava muito enganado.
“Meu bisavô frequentava esta região, e trouxe meu avô, que trouxe meu pai”, diz o aposentado José Firmino dos Santos, de 66 anos. “Inclusive já trabalhei aqui, com a venda de pescados. Embora minha família não fosse dona de nenhum box, sempre me senti integrado a todos e ao próprio prédio. Não é à toa que ele possui uma força muito simbólica pro Recife. Como aqui sempre houve uma concentração forte em torno do comércio, é lógico que outras atividades iriam naturalmente se estabelecer por aqui”, conta Seu José.
Nas imediações e nas bancas que começavam a se firmar do lado de fora, estavam vendedores de cordel, cantadores de coco e emboladores, vendedores de frutas, ervas e produtos religiosos. Artistas mambembes também tinham na Praça Dom Vital um ponto certo para seus aplausos. Locais onde era possível encontrar refeições e petiscos logo se multiplicaram, e o coração do Bairro de São José adquiriu a efervescência pela qual é conhecida até hoje.
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Mercado da Encruzilhada congrega diferentes classes e gostos, com um pé no passado e os olhos no futuro
Encruzilhada. Encontro de ruas de uma cidade, que se cruzam. Tanto no campo físico quanto no espiritual, as encruzilhadas se traduzem em confluência. De mercadorias, de pessoas, de histórias. O ponto de cruzamento é conhecido por ser uma fonte de intenso vai-e-vem de energia. Assim é um bairro da zona norte do Recife, que recebeu este nome e com ele batizou um largo, uma praça e um mercado municipal. O Mercado da Encruzilhada é um baú que preserva a essência de hábitos que compõem a identidade do pernambucano.
O bairro não ganhou esse nome por acaso: por lá cruzavam várias linhas férreas, desde os trens que ligavam Olinda ao bairro de Beberibe, assim como o que ligava Recife a Limoeiro. Os carregamentos de mercadorias inspiraram iniciativas como a instalação de um curral, onde descarregavam os bovinos e suínos que vinham dos trens oriundos do interior do estado. Essa movimentação foi gradualmente aumentando de intensidade, o que caracterizou o ponto de cruzamento das linhas como um importante centro econômico da região. Para se juntar à estação construída em 1881, foi erguida a primeira versão do que seria o Mercado da Encruzilhada, em 1924.
Mas como as instalações não atendiam às demandas dos comerciantes e clientes, foi erguido um novo edifício em 1950, com maiores instalações e condições mais adequadas de higiene. Essa é a versão que segue até hoje, com uma área coberta de 2.800m². O número de boxes saltou de 153 para 214, de acordo com a última reforma de 1998. O prédio é considerado um belo exemplo de arquitetura art déco, com a predominância de formas geométricas retilíneas em sua composição.
PARA A BOCA E PARA OS OUVIDOS
Entre os corredores repletos de mercadorias, o mais marcante no Mercado da Madalena são os tipos humanos. Seus trabalhadores são livros vivos de memória de um Recife cada vez mais escasso de poesia e simplicidade. Um dos que mais chamam atenção é o seu Natalício, há 40 anos à frente de seu box, uma vistosa bomboniere que se assemelha a uma típica bodega de interior. Lá, os produtos ultrapassam o limite do balcão, ocupando as paredes como uma cortina de cores e formas, em meio a caixas e cartazes dispostos numa curiosa harmonia, que nos faz perguntar se um cenógrafo não passou por lá.
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Todos que residem na região metropolitana do Recife conhecem muito bem o Mercado de São José. Com as obras iniciadas em 14 de junho de 1872 e entregue ao povo em 1875, ele é um exemplar vivo da arquitetura que redirecionou as atividades dos centros urbanos, impulsionada pelas exigências e tendências lapidadas pela Revolução Industrial, no século 19. O projeto é do engenheiro francês Victor Lieutier, que mandou trazer de sua terra natal quase todas as peças utilizadas em sua construção. O Mercado de São José é o mais antigo edifício pré-fabricado em ferro no Brasil. Mas é a região da Praça Dom Vital que ajuda a bombar vida nas suas veias.
Durante várias décadas, aquelas ruas que cercavam o mercado viviam repletas de gente, entre comerciantes e transeuntes. Dificilmente carros passavam por aquele mar de gente. O aparente caos de feirantes, que suavam todos os dias para garantir ali a sua sobrevivência, nos convidavam a refletir sobre o tempo e a nossa identidade: o que perdemos ao longo das décadas? E o que poderia ser resgatado e protegido?
Resgate e proteção são as palavras-chave da última intervenção realizada na região, pela Secretaria de Mobilidade e Controle Urbano do Recife (Semoc). No dia 1 de setembro de 2019, equipes deste órgão municipal retiraram as barracas de rua, assim como os ambulantes que cercavam o prédio histórico do Mercado de São José. Uma parte deste grupo foi transferida para um prédio anexo do mercado, e o restante mudou-se para os boxes que compõem o Centro Comercial do Cais Santa Rita.
Isso remete aos vários casos de ordenamento urbano promovido nos séculos passados. Inspirados pela pujança comercial e arquitetônica das capitais europeias, várias capitais brasileiras realizaram intervenções em logradouros de forte comércio popular, na tentativa de modernizar e higienizar a cidade. A própria instalação do Mercado de São José pode ser considerada o primeiro capítulo da delicada relação entre a cidade, seus moradores e a urbanização do Recife.
Mas aquilo que se espalhava organicamente pelo suor do povo também não era algo autêntico? “Toda cidade tem lá seu comércio de rua, desde que o mundo é mundo”, opina a professora Rosália Tavares, de 43 anos. “Embora a presença de comerciantes nas calçadas e vielas vá de encontro a aspectos importantes como a mobilidade do espaço urbano e a conservação dos produtos, sinto que uma parte importante da nossa história se vai. Vai ser estranho pra quem cresceu com esse burburinho e o teve como referência do comércio dessa região.”
Chegar na Praça Dom Vital nos dias intensos de feira era encarar um turbilhão de cores e formas. Tanto, que os cartazes, placas, toldos e barracas disputavam a atenção com os antigos sobrados daquelas ruas. Por mais que as autoridades realizassem intervenções periódicas com foco na mobilidade e ordenamento das atividades, o ecossistema de feirantes retornava como detentor de suas próprias leis, remetendo às raízes compostas por camelôs, mas também cantadores, vendedores de artesanato, cordel e receitas típicas para o paladar e a saúde. Exatamente como antigamente.
Foi justamente esse fator humano e cultural que cativou Liêdo Maranhão (1925 - 2014), dentista, escultor escritor, cineasta e fotógrafo, e um dos maiores conhecedores da literatura de cordel no Brasil. É graças a ele que hoje temos um registro fiel dessa aquarela humana que é a Praça Dom Vital, eternizada no livro “O mercado, sua praça e a cultura popular do Nordeste", publicado pela Prefeitura do Recife, em 1977.
Registro de Liêdo Maranhão em uma de suas andanças
São 100 páginas com uma seleção das conversas diárias que Liêdo tinha com os mais diversos tipos que compunham aquele cenário, entre os anos de 1960 e 1970. De feirantes, passando por cantadores, camelôs e prostitutas, entre outros, Todos deixaram suas impressões que são verdadeiras crônicas do Recife popular que nunca foram impressas nas páginas da história oficial da sociedade pernambucana.
A presença do povo no entorno do Mercado de São José pode ser lido como uma disputa simbólica em torno do espaço urbano e suas implicações sociais. Ali não apenas circulavam bens de consumo materiais, mas principalmente a cultura imaterial. Por mais que possamos tocar e levar para casa as ervas e raízes, as roupas, os tecidos e o artesanato, não se pode dissociá-las da constante circulação de saberes e difusão de variadas formas de produção e comércio.
Espontaneidade da feira popular versus mobilidade
Há quem dissesse que daquela região imprimia uma espécie de comensalismo entre o centro comercial histórico e os trabalhadores que recorriam às suas calçadas e ruas para trabalhar. Após a mudança, muitos lojistas que antes estavam escondidos pelas barraquinhas e toldos coloridos puderam finalmente vislumbrar suas próprias fachadas. “Algumas deficiências na minha pintura e calçada se mostram muito maiores agora”, se espanta Francisco Natanael de Souza, dono de uma loja de aviamentos. Lixo, mato, pintura descascando, minha Nossa Senhora, há quantos anos minha loja não via a luz do dia, com o sol batendo assim, direto nela? Vou ter que dar um tapa nesse visual, sem dúvida.”
Para muita gente, levará um tempo até que todos se acostumem com a nova situação. “Não vou dizer que eu não me distraio vindo aqui, mas decididamente, o perfil dessas ruas é o comércio, puro e simples. A gente espairece a cabeça pelas conversas que temos com os feirantes, com alguma cena engraçada aqui e ali, e pela certeza de estarmos fazendo um bom negócio ao pechinchar esses artigos”, diz Dona Ernestina Miranda de Freitas, de 70 anos. Ela costuma aparecer na Praça Dom Vital nos finais de semana com a nora. “Enquanto ela se perdia nas alas de artesanato lá dentro do Mercado de São José, eu gostava de conferir as frutas e as ervas aqui fora. Isso me fazia relembrar muitas andanças com as amigas e minha mãe nos dias de pico. O aroma verde dos tabuleiros era um acalanto pra minha memória. Agora tô me sentindo perdidinha, mas terei que me acostumar, né?”
Zé do Mel: tradição viva da feira popular do Mercado de São José
Se há um feirante que muita gente vai sentir falta e correr para encontrá-lo nos novos pontos de venda após a mudança, esse alguém é José Carlos Pereira Nunes, mais conhecido como Zé do Mel. A sua barraca de ervas e garrafadas estava há mais de 48 anos no entorno do mercado de São José. “Eu comecei aqui trabalhando junto com meu pai. Somente ele passou 66 anos nessa rua, sustentamos nossa família com estas ervas, e juntando o meu tempo de serviço com o dele, este comércio nosso aqui já serviu muita gente por mais 100 anos!”
Eunice Pereira de Jesus é cliente de Zé do Mel há mais vinte anos, e sente o maior orgulho de ter ensinado às filhas onde achar tudo que elas precisam. “Eu sempre fui contra entupir as crianças desses comprimidos que prometem alívio automático. Para essas coisas menores do dia-a-dia, eu fui ensinada à recorrer à natureza, e aqui encontro tudo que preciso. Tem ervas e garrafadas do nosso interior, tem plantas que eu só vi no Ceará, tem outras que vêm diretamente da Amazônia... Posso lhe garantir que lá em casa ninguém nunca caiu por causa dessas viroses da moda, nem dor de cabeça ou estômago. Fico muito feliz de termos a chance de recorrer a esse comércio aqui. Isso está tão raro hoje em dia...”
Dona Eunice e muitos outros compradores agora terão de se adaptar e fazer um novo mapa dos seus feirantes favoritos. E quanto ao Mercado de São José e suas ruas? Um projeto de requalificação está em andamento, para transformar aquele entorno num novo polo de atração cultural, artística e gastronômica. O vuco-vuco, o falatório e a mistura de aromas e cores, se despedem, devidamente registrados nas fotografias e memórias.
Anexos da Feira Popular do Mercado de São José
Praça Dom Vital,
Bairro de São José. Recife.
De segunda a sábado, das 6h às 18h.
Feiras agroecológicas dão o tom do consumo consciente e justiça social
Enquanto houver mãos humanas cultivando a terra, haverá quitandas. Um dos sinais mais visíveis disso é a crescente conscientização em torno da busca cada vez mais crescente pelos produtos orgânicos e pelo trato mais ético com a terra e os recursos naturais. Quem já frequenta mercados municipais invariavelmente acaba comparado a dinâmica da compra nesses locais com a ida às grandes redes de supermercados. Mas as feiras de orgânicos potencializam essa experiência à enésima potência positiva.
Além das compras, as feiras de rua sempre se converteram em verdadeiros passeios, onde o indivíduo exerce a integração com o seu entorno e com o outro, através da convivência e da troca de conhecimentos acerca do que é colocado no tabuleiro. Nas feiras orgânicas, você se transforma num agente que pratica a mudança sob uma ótica macro, ao lidar com questões globais, como a ameaça às espécies pelo uso de agrotóxicos, o comércio justo, a sobrevivência de famílias que trabalham com a terra e a disseminação de um consumo cada vez mais consciente.
Elas estão espalhadas em diversos bairros do Recife e Olinda, com itens por valores mais acessíveis, justamente por não haver intermédio na hora de adquiri-los: nas feiras agroecológicas, você compra direto do agricultor. “A primeira que passei a frequentar foi a que acontece nas imediações do Colégio São Luiz, nas Graças. Uma amiga minha me contou que ela vinha de madrugada aproveitar as melhores mercadorias, e eu achava que era conversa fiada, mas me espantei com a quantidade de gente que chega lá da sexta para o sábado. Hoje, tenho o hábito de além de fazer compras, ficar por lá conversando até a hora do café da manhã. Até comprei cadeirinhas de praia daquelas pequeninhas com minhas amigas pra trazer pra cá”, conta a costureira Maria Augusta Rezende.
A disposição de Maria Augusta tem razão de ser, pois além dos produtos in natura, muitos comerciantes trazem receitas feitas a partir do que colhem, como bolos, pães artesanais, pastas e pastéis. “Imagina só você ter tudo isso, acompanhado de um bom café, cercado de gente fina e trabalhadora, com um papo arretado de bom? Não tem programa melhor pra iniciar o final de semana!”, completa ela.
COMO TUDO COMEÇOU
Para quem não está familiarizado, o cultivo de alimentos orgânicos começou nos quintais das residências e em pequenas propriedades, com a força das famílias desde a aragem até a colheita. Em Pernambuco, essa realidade vem tomando os bairros da capital e do interior há mais de 20 anos, com a atuação de diversas entidades não governamentais que trabalham para a formação e autonomia da população agricultura do agreste e do sertão do estado.
Uma delas é o Centro de Agroecologia Sabiá, responsável por fundar algumas das primeiras feiras agroecológicas da capital pernambucana, adentrando o estado em suas principais cidades das mesorregiões. Somente em Recife, O Centro Sabiá coordena cinco espaços: Boa Viagem, Graças, Santo Amaro, UFPE e Dois Irmãos. A população da Zona da Mata Sul pode encontrar essas feiras nos municípios de Ribeirão, Rio Formoso, Porto de Galinhas, Sirinhaém, Catende e Tamandaré. Bom Jardim é por enquanto a única cidade do Agreste que conta com esta iniciativa, enquanto o Sertão do Pajeú foi agraciado nas cidades de Tuparetama, São José do Egito, Tabira, Afogados da Ingazeira e Serra Talhada. No Araripe há uma Bodocó e Ouricuri contam com feiras agroecológicas coordenadas pelo Sabiá.
Davi Fantuzzi, do Centro de Agroecologia Sabiá
“As feiras agroecológicas se apoiam na valorização dos conhecimentos dos povos nativos e na preservação dos recursos naturais”, explica o assessor para a Temática de Comercialização no Sabiá e coordenador da CPOrg-PE, Davi Fantuzzi. Formado em Gestão de Cooperativas pela Universidade Federal de Viçosa e especialista em Gestão Pública e Sociedade pela Universidade Federal do Tocantins, Fantuzzi foi um dos fundadores do Instituto de Permacutura da Bahia (IPB) com a antropóloga norte-americana Marsha Hanzi. Ele também coordena as feiras e a formação agroecológica dos camponeses ao longo de Pernambuco.
Para quem tem dúvidas ou desconfiança a respeito da qualidade do que é vendido nas feiras agroecológicas, Fantuzzi explica: “As famílias que comercializam seus produtos nessas feiras estão respaldadas legalmente para isso, graças a um cadastro junto ao Ministério da Agricultura, através de uma Organização de Controle Social – OCS, que é um grupo de agricultores que interage e se autorregula para garantir que sua produção é orgânica. Entre as exigências para atuar, os agricultores devem exibir seus cadastros nas barracas e permitir a visita do público e dos órgãos de fiscalização, às suas propriedades, a fim de mostrar o que é produzido, e como é desenvolvida essa produção.”
BOM PARA TODOS
Com a produção em larga escala dos grandes conglomerados industriais, parecia que o ser humano estava fadado a descer ladeira abaixo numa relação nada ética com a natureza, que intensificou seus sinais, mostrando os nossos recursos não são tão renováveis assim.
“O uso de agrotóxicos e outras substâncias sintéticas pelas grandes empresas otimiza a extração dos nutrientes da terra para atender uma demanda gigantesca de forma extremamente predatória, pois explora os recursos da natureza sem dar tempo a ela para se recuperar. É como se tivéssemos uma pessoa remando um barco sem parar, nem se alimentar direito, contando somente com injeções de vitaminas que inflariam o que lhe resta de energia vital para continuar remando”, compara o professor de biologia Arnaldo Lima, de 54 anos, frequentador da feira agroecológica de Olinda há seis meses. “Costumo frequentar várias feiras do tipo, a de Olinda eu venho sempre nos fins de semana que coincide com minhas idas a Itamaracá. Foi um amigo que me apresentou, e desde então, dou uma paradinha estratégica para levar frutas, legumes e uns pães artesanais para a viagem.”
A quantidade de itens impressiona. Quanto maior a feira, mais variedade. Uma pesquisa realizada pelo Centro Sabiá em 2015, tendo como base apenas as feiras agroecológicas de Boa Viagem e das Graças (as mais antigas do Recife), apontou a média de 29 produtos diferentes vendidos por barraca, totalizando no geral 114 itens diferentes à disposição do público, entre frutas, legumes, folhas, raízes e os transformados de forma artesanal pelas famílias, como licores, lambedores, doces, canjicas, queijo e massas. Ainda de acordo com a pesquisa, somente essas duas feiras chegaram a movimentar cerca de 1,8 milhões de reais por ano.
BOM PRA SAÚDE E PRO BOLSO
Ainda em 2015, outra pesquisa, desta vez realizada com o apoio de estudantes do curso de Gestão Ambiental do IFPE, confirmou que as feiras agroecológicas são boas para manter girando a engrenagem da economia local: preço justo e venda sem intermediários beneficiam ambos os lados da barraca, quem vende e quem compra. Foi realizada uma comparação de preços de produtos convencionais, utilizando como base 20 itens presentes tanto nas feiras agroecológicas, quanto em grandes redes de supermercado e nas feiras livres de mercados públicos dos bairros populares.
O resultado? Os supermercados se mostraram em média 56% mais caros que as feiras da Rede Espaço Agroecológico, enquanto os mercados populares apresentaram itens em média 19% mais caros que nas feiras agroecológicas, onde só se vendem produtos orgânicos, derrubando a falácia de que alimentação orgânica seria mais cara que os produtos infestados de agrotóxicos à venda nos espaços convencionais.
Sabendo de tudo isso, é claro que optar por um consumo mais saudável e ético com o fator humano e ambiental é um chamado para exercer ativamente a sua cidadania e sua consciência enquanto parte desse mundo, que é afetado direta e indiretamente por nossas escolhas.
Resistência e diversidade são as principais forças de Peixinhos, em Olinda
Antigo matadouro de Peixinhos, em 1929
Peixinhos. É difícil alguém da capital nunca ter ouvido falar desse bairro tão prolífico e icônico da região metropolitana do Recife. Embora muitos o associem à Marim dos Caetés, este bairro é partilhado pelas cidades-irmãs, possuindo um lado recifense e um olindense. E a sua origem está no fato de seu território ser cortado pelo Rio Beberibe, que em meados do século 19 era responsável pelo abastecimento de água potável e pequenos peixes, servindo a população de Olinda e do Porto do Recife. Somente no início do século 20, é que as duas cidades passaram a ter um lado de Peixinhos para chamar de seu.
Atualmente, o lado de Recife possui pouco mais de 5 mil habitantes, enquanto sua contraparte olindense, já passa dos 36 mil. Inicialmente um povoado a partir de terras pertencentes a Jerônimo de Albuquerque, Peixinhos possuiu um engenho de açúcar e depois, ficou célebre pelo seu matadouro, curtume e feira livre.
A feira de Peixinhos é emblemática e se tornou um ponto tradicional para as compras semanais de inúmeras famílias de Olinda e Recife. Açougues, granjas e venda de pescados estão dispostos entre frutas, legumes e verduras, além de grãos e artigos têxteis. Entre as tradicionais barraquinhas e tabuleiros, é comum encontrar as mercadorias expostas sob uma esteira estendida no chão.
“A feira de Peixinhos é uma síntese do tradicional com o efêmero, da beleza e fartura da gula pagã com o divino e o mítico”, explica Mirtes Barbosa, de 33 anos, moradora do bairro desde os 3 anos de idade. “Eu falo dessa forma, por que além dos itens de alimentação, também há as mercadorias repletas de força e simbolismo que permanecem geração após geração. Minha mãe sempre comprou mastruz aqui, e hoje eu recorro à feira quando preciso de um lambedor ou alguma outra erva pra curar aqueles males do trato respiratório. Também é possível achar artigos relacionados à algumas religiões como as cristãs e as de matriz africana. Nos últimos tempos temos encontrado até confecções que os vendedores trazem do interior, cujas peças variam, dependendo do que está na moda por aí. Quem não pode comprar uma peça original de shopping, é capaz de encontrar um similar aqui, não duvido nada.”
Pode se dizer que a força dos comerciantes e seus tabuleiros ajudou a fortalecer o crescimento do bairro, que de tão grande, poderia se tornar uma cidade. Seu comércio se estabeleceu com a fundação do Matadouro, cuja construção teve início em 1874, sendo inaugurado em 1919. Outro fator que contribuiu para o impulso populacional e comercial do bairro foi o seu solo, que possuía um barro rico em fosfato, muito usado como adubo. Por muito tempo tornou-se comum a escavação de poços em busca desse material, culminando na instalação da Fábrica Fosforita Olinda S/A, em 1957, fechada na década de 60.
HISTÓRIA PELOS OLHOS DO POVO
Para quem começou na Rua da Canequinha (hoje, avenida Antônio da Costa Azevedo), em 1949, quem diria que se tornaria a maior feira livre da região metropolitana do Recife? Não era pra menos, tamanha foi a demanda gerada pelos tempos áureos onde trabalhadores de diversos cantos foram atraídos para a região em busca de trabalho na Fosforita e no Matadouro. O crescimento desordenado da ocupação do seu espaço fez com que Peixinhos apresentasse inúmeros problemas estruturais, perdurando até hoje. Em 1998, a feira teve de se mudar para o Pátio do Areial, por conta dos constantes problemas com o tráfego de veículos emperrado nos dias de feira, por conta da grande quantidade de comerciantes e pessoas circulando em seu espaço de origem.
Dona Severina Francisco de Melo, de 62 anos, comercializa seus produtos na Feira de Peixinhos há 20 anos, e diz não querer outro local como ponto de venda. “Comecei aqui trazendo temperos como colorau, cominho e pimenta, pra completar a renda de casa. Com o tempo, fui acrescentando utensílios de alumínio, além de goma de mandioca e ervas medicinais, que o povo usa pra fazer chá. Eu fui crescendo conforme ia atendendo as demandas da comunidade. Fiz muitas amizades e tenho uma boa relação com meus clientes. Não estou completamente satisfeita com a estrutura, mas consegui ir levando e sustentar minha família com meu suor pingado aqui. Já faz tanto tempo, né? Aprendi a ter tato e enxergar pessoas, em vez de somente clientes, entende? Foram anos de aprendizado, e hoje me considero uma pessoa melhor. Acho que a feira livre tem disso: ela nos dá a oportunidade de humanizar nosso trabalho, de uma forma que nenhum shopping center ou internet pode fazer.”
Dona Zuleide de Paula da Silva
Esta percepção da dinâmica do bairro também foi o combustível que impulsionou Dona Zuleide de Paula da Silva a publicar o primeiro livro com a história oficial de Peixinhos, em 1999. Nascida em 1944, esta simpática senhora tem descendência indígena e afro, e acompanhou o andar dos embates entre o povo e a sua luta por direitos e ocupação dos espaços públicos. Com a consciência a respeito de suas raízes sendo formada ao longo da vida, ela logo percebeu que muito da história registrada do nosso país foi escrita observada de cima. Ela tomou gosto por escrever sobre praticamente tudo que conversava com amigos e conhecidos, graças à curiosidade natural daqueles que são observadores atentos da vida.
Em sua época de catequista, Zuleide escutou atenta as histórias contadas por Biu da Capelinha, responsável por construir a capela que ela frequentava. Foi justamente um desses relatos que provocou a vontade de registrar tudo que escutava. E desse então, encontra-la pelo bairro com o inseparável caderninho e lápis tornou-se algo comum. O resultado desse espírito de historiadora foi o livro “Peixinhos - Um Rio por onde Navegam um Povo e suas Histórias”, um exemplo único de transcrição da memória oral de uma comunidade. O livro teve duas edições. A primeira foi publicada de forma independente, enquanto a segunda saiu pelo Centro de Cultura Luiz Freire.
CULTURA VIVA
A formação social de Peixinhos não pode ser contada sem a devida atenção à sua construção cultural. Estranho seria se um bairro que reuniu tantas pessoas de diversas origens não fervilhasse vozes, cores, sons e movimento. Dos seus filhos artísticos, o manguebit é o mais célebre, cuja essência, que reúne o maracatu, o coco, a embolada e o moderno e urbano hip-hop, ele é a síntese perfeita do bairro, onde o tradicional e o moderno, o pagão e o divino, convivem lado a lado.
Foi justamente em um dos ensaios da Lamento Negro, bloco de percussão formado no Centro Comunitário Daruê Malungo, que Chico Science convidou alguns de seus percussionistas para tocar em sua banda. E o resto todo mundo já sabe: as vozes da periferia formariam o som que dali a alguns anos ajudaria a colocar Pernambuco nos holofotes do mundo, com a Nação Zumbi.
Outro expoente do bairro é o Maracatu Nação Pernambuco. Consagrado, o grupo foi aplaudido em diversos festivais nacionais e internacionais. Seu objetivo é divulgar a cultura do Maracatu, buscando cidadania para as crianças e adolescentes da comunidade, através da união entre arte, educação e conscientização.
Também não podemos esquecer o balé feminino Majê Molê, fundado por Glória Maria da Silva Gomes e Gilson José Pereira Gomes, a partir das festas anuais que organizavam para as crianças do bairro. Em 1995, resolveram inserir apresentações de dança nas festividades. Gilson, de ampla experiência como coreógrafo, ajudou a formatar o grupo. O nome foi tirado após consultar um dicionário africano. E o termo escolhido não poderia ser melhor, pois significava “crianças que brilham” ao ser traduzido para a língua portuguesa. Além da própria Nação Zumbi, o grupo já se apresentou com Naná Vasconcellos, Caetano Veloso, O Rappa e Afroreggae, entre outros.
Outros gêneros musicais como o bregafunk, o rock e o rap também fluem pelo bairro, escoando novos talentos que hoje possuem mais chances de emplacar suas criações graças à capilaridade de canais da internet, exatamente como o rio Beberibe que corta o bairro.
O estudante Jadylson Lima, de 21 anos, já perdeu as contas da quantidade de shows que assistiu no próprio bairro. “Tem muita novidade boa que nasce aqui, que se fortalece aqui, graças à esse contato sem filtro entre o artista e os fãs. E em retribuição a essa atenção e carinho, a gente impulsiona e dissemina eles, torcendo para que possam expandir para outros bairros, outras cidades, outros estados. É meio que uma consciência de classe que age de forma inconsciente, entende?”
É esse amor e atenção com a própria casa que faz dos moradores de Peixinhos um exemplo de resistência e luta. “A gente merece mais, sabe? Temos isso bem claro. Somos orgulhosos de nossa história e não vamos baixar a cabeça, não. Aqui estamos, e por esse espaço lutaremos.”
Fotografias:
Matadouro - Acervo Biblioteca Nacional
Feira de Peixinhos - Ernani Neves
Dona Zuleide de Paula da Silva - Alexandre L'Omi L'Odò
Veteranos e jovens mantêm a vida do coração da Boa Vista
Se fôssemos personificar o Mercado da Boa Vista, diríamos que ele seria um senhor multitarefa de dar inveja a muitas revistas que vendem a ideia do indivíduo perfeito: ele consegue ser um território de muito suor e compromisso, mas também de um hedonismo que se revela na relação dos seus comerciantes com os clientes e o público que enche seus boxes durante os finais de semana. Misto de entreposto dos tesouros regionais e ilha de felicidade no mar de concreto, ele contribui para que o centro do Recife esteja sempre vivo e pulsante.
Construído no início do século 19, ele foi conhecido como Ribeira da Boa Vista, e seu espaço fora ocupado antes com uma estrebaria e o cemitério da então capela, hoje Igreja de Santa Cruz. Há registros de que nos primórdios de seu funcionamento, o mercado também foi usado como ponto de venda de escravos. Um dos resquícios deste fato está em sua arquitetura, mais especificamente em seu portal de ferro, através de um símbolo utilizado para indicar o local de negociação para este fim.
Conforme o tempo foi passando, a venda de mantimentos, miudezas e utensílios artesanais para o lar foi tomando o local, que hoje atrai desde a dona de casa das redondezas, como os mais velhos que têm um lugar cativo em suas mesas e corredores para bater um papo, jogar dominó e saborear seus petiscos e bebidas. A população jovem, formada especialmente por jovens universitários, começa a aparecer com mais frequência já na quinta-feira, seguindo uma extensa programação de sorrisos, música e gastronomia até os domingos.
São cerca de 64 boxes, que além da gastronomia, dispõem de frutas, verduras, carnes, mercearias, bebidas, confecções e artesanato. “Tem gente que deixa pra fazer a feira nos sábados pela manhã, e acaba esticando pro almoço, mas o negócio é tão bom, que elas esticam um pouquinho mais e vão até a tardinha. Outro dia uma moça saiu daqui toda afobada por que fez compras pra um jantar de aniversário da mãe dela e acabou esquecendo de voltar pra casa a tempo”, lembra Dona Lúcia Maria, de 64 anos, funcionária de um dos boxes do recinto.
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