“Eu sou uma fortaleza.
Não há colunas para me apoiar.
Tenho um interior bagunçado, bagunçado e cheio de rachaduras, algumas até reformadas ao longo do tempo, mas as lembranças insistem em reabri-las.
O chão, muitas vezes sinto falta, confesso.
O teto dia após dia insiste em quebrar e desabar sobre meus ombros já cansados.
Mas a minha fachada, essa me enche de orgulho, com suas paredes de pedra bruta, sempre enfeitadas com um lindo sorriso e muito iluminadas com o brilho dos meus olhos. ”
- Márcio Soares.
Eles olham para ela e veem uma rainha.
Ela olha e vê...
A vê a garota em lágrimas.
A garota que gritou sozinha naquele quarto luxuoso.
A garota que fugiu.
A garota que perseguia fantasias.
A garota que nunca foi ouvida. Considerada. Amada. Protegida.
A menina... A mulher com pele de porcelana e cicatrizes profundas.
Mas ela é ensinada a sufocar essa garota.
E sufocar ela faz.
Então ela seca as lágrimas.
Ela aplicou maquiagem nas cicatrizes e cobriu aquelas que não consegue fazer desaparecer.
Ela destrói aquelas fantasias de infância todas as noites com pesadelos.
Ela sobe nos calcanhares e se conforta com as dores dos calos nos pés.
É pelo menos alguma coisa. Ela diz a si mesma sentindo os pés sangrando a cada passo. A dor pelo menos a faz sentir alguma coisa.
Ela corrige sua postura levantando os ombros e a cabeça como se estivesse erguendo uma parede entre ela e eles.
Ela e eles.
Aqueles que foram os primeiros a adorar. Os primeiros a odiar. Os primeiros a apontar as falhas.
Então ela sufoca a garota. E deixa a mulher subir.
A garota tinha pele sedosa e olhos suaves. A menina foi engolida por eles dia após dia. Ela andava curvada, quase quebrada.
A mulher começa com pele de porcelana, mas termina com aço.
A mulher não se curva. A mulher é considerada. Adorada. Ela não precisa de proteção.
Ela fica sozinha e enfrenta o mundo.
Mais frequentemente a mulher também se permite pensar na menina.
E permita-se sentir falta dela. Aquela pobre e ingênua garota sozinha com quem ninguém se importava.
Mas a menina sobreviveu. Ela ainda se via refletida todos os dias nas profundezas da mulher.
Então a mulher olha seu reflexo no espelho e acena para a garota.
Ela se lembrou. Ela era de aço. E ela nunca mais humilharia ou se curvaria.
Ela lembra. E é por isso que é uma rainha.
E a garota acena de volta.














