Antigamente as histórias terminavam.
Hoje elas nem chegam a ser histórias.
Era terrível ter que viver aquele momento de “acho que precisamos conversar”, mas no fim, sempre valia a pena ouvir a verdade da boca da pessoa, sempre valia a pena ouvir mesmo sem entender ou concordar. Na verdade ainda vale.
Hoje alguns rascunhos de histórias terminam com uma ignorada na internet, afinal, pra quê se dar ao trabalho de explicar alguma coisa pra alguém, né? É só não continuar um assunto. É só visualizar a mensagem, pois nas entrelinhas já vai estar claro que você não quer mais nada com a pessoa.
Vai estar claro é o caralho, eu digo.
Ninguém tem a obrigação de gostar, mas tem a de respeitar.
A grande bosta de tudo é que raramente alguém se coloca no lugar de outro alguém. É aquilo né, já é um saco ter que lidar com os próprios problemas, imagina então o porre que é se colocar no lugar de outra pessoa pra saber lidar com os delas? Mas o ponto não é esse. O ponto é: “Será que se fosse eu no lugar eu ia gostar?” Mas até chegar nesse pensamento tem aquele: “Ah, acho que já dei a entender”. Não, não deu nada a entender.
Na intenção de melhorar, a gente pode piorar tudo.
Maldito dia em que as coisas ficaram mais fáceis para todos nós.
Pare pra lembrar na última vez que ficou no telefone com alguém até a orelha arder de dor. E aí você revezava as posições no sofá ou na sua cama, tudo pra tentar aliviar o tempo falando e ouvindo sem parar. A gente ficava ansioso em chegar em casa e fazer tudo rapidinho pra ligar pra aquela pessoa especial. Era tipo O MOMENTO SAGRADO DO DIA™. Nada poderia atrapalhar isso. E então tudo ficava lindo depois do “alô”. E muitas vezes havia um revezamento, cada um ligava um dia. Não dá pra generalizar que todo mundo vivia assim, mas muitas pessoas sim.
E aí você olhava a conta do telefone no fim do mês e tinha lá: númerodapessoa-númerodapessoa REPETIDAS vezes. E gerava-se discussões: “Gastou todo o pacote de pulsos do telefone!” e etc. Mesmo assim, as coisas eram mais reais. A gente ouvia a voz. A gente ouvia o som da risada. A gente conseguia perceber pelo tom de voz se a pessoa estava bem ou não.
É claro que isso ainda existe hoje em dia, mas o ponto é que não mais como já existiu um dia. “Ah, mas agora eu mando áudio do Whatsapp” – e isso é a mesma coisa? Nunca será.
Hoje você pode até falar com a pessoa o dia inteiro.
Só que digitando pelo celular.
Hoje você manda fotos de tudo que está vando no momento que está vendo, raramente rola aquilo de “Hoje a noite te conto”. Hoje você grava o vídeo NA HORA e já manda NA HORA. E isso não é problema, pelo contrário, é muito legal! A gente quer se aproximar mais, ficar ainda mais pertinho todos os segundos do dia.
O problema é isso nos tornar pessoas menos reais.
Imagine o seguinte cenário no Whatsapp:
Você falou com a pessoa, apareceu a notificação do duplo-tique e ela não respondeu. Pior: Aparece “visto pela última vez em xx horas” – depois de você ter falado. A TRETA ESTÁ ARMADA. A treta com você mesmo no caso. Se for alguém que você ainda está se interessando, você naturalmente vai morrer de angústia em esperar pela resposta; se for alguém que você já vive uma história, a mesma coisa, só que vai poder reclamar com mais propriedade. Aí inventaram que você pode esconder esse “visto pela última vez em xx horas”. Agora ficou 10? Ficou massa? NÃO! AGORA PIOROU, porque você nunca vai poder provar se o fulano viu ou não aquela mensagem.
E daí que se você ligar: “te falei uma coisa, mas nem respondeu” vai parecer: 1) grude 2) grude. Só que antes não era bem assim. Antes a gente já meio que ligava direto pra falar alguma coisa. Antes a gente gostava de ouvir a voz.
Perceba nos metrôs e ônibus da sua cidade, quantas pessoas digitam no celular e quantas falam ao celular. Tire suas conclusões.
E então, já na internet, parece que deixamos com que nossas relações se tornassem refém da tecnologia. A gente PREFERE MORRER do que não ter a mensagem respondida depois de visualizada. A gente abre a janela mil vezes pra saber se tem resposta. A gente se vê na loucura com tudo isso.
Por outro lado, esses artifícios se tornaram atalhos para as pessoas covardes.
É atrás de um “meu 3G tá uma bosta, não vi o whatspp” que na verdade está um “eu não quero sair com você, será que não deu pra perceber isso?”, é atrás de um “dei visualizada mas o dia tá corrido, nem consegui responder ninguém direito aqui” que está um “não é importante, não vou responder tão cedo”, só que como a gente não consegue olhar no olho, não dá pra gente discordar e então a gente fica embaixo da chuva de interrogações.
Que saudade do coração e não do