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Ela tinha os olhos perdidos, algumas marcas visíveis nas olheiras causadas pelas noites mal dormidas de tanto chorar. Era uma daquelas moças que anda sempre com as mãos no bolso, procurando algo no meio da multidão, dispersa nos seus pensamentos, escondia atrás dos seus óculos escuros e do seu sorriso sarcástico. Ainda que para muitos ela parecesse somente uma moça normal com “fases de tpm” como qualquer outra, a verdade estava no que escondia por de trás dessas desculpas inventadas. Não que ela se achasse mais ou menos que ninguém, só não se achava. Vivia com a dor como se fosse um membro do seu corpo, convivia no infortúnio de si mesma ceifando-se a cada minuto mutilando-se, não literalmente, não na pele, mas na alma. A sua dor era muito mais profunda do que aparentava, depois de tanto tempo com ela, aprendeu a disfarçar tornando-a quase imperceptível. Embora ela soubesse que estava lá, no mesmo lugar, dilacerando de dentro para fora. Às vezes podia até ver-se algumas cicatrizes, cheias de agonia como se quase lhe vazassem pelos pulsos. Nada disso a saciava, porque era simplesmente insensato cogitar ou cometer a irreverência de descontar dor com dor. Ela tinha consciência que de nada adiantaria expô-la, não saberia enumerar motivos, não saberia construir explicações, não seria entendida mas sim denominada de fraca, apenas mais uma louca qualquer que não sabe lidar com as emoções, com as amarguras, com as quedas, com as perdas, com a vida. A única coisa que ouviria além de julgamentos seriam frases feitas de auto-ajuda, que mesmo utilizando-as continuaria a ser vista como débil, uma desafortunada. Por tudo isso ou além disso, era tão fechada, sorrindo só quando necessário, fazendo da ironia uma das suas defesas, da frieza uma das suas armas. Às vezes acompanhava-se de um cigarro, passava os dias em passeios e algum livro debaixo do braço entretendo os seus pensamentos, para que eles não a levassem somente ás suas dores, aos seus medos, ás velhas lembranças. Porém, nem sempre adiantavam os seus métodos de distração. Ela era cansada, triste intimamente, desprovida de instantes de contentamento faz mais de muito tempo. Não sabia mais se desistia de si, se largava os disfarces e de qualquer jeito mesmo desacreditada e independente de olhares alheios, pudesse procurar uma eventual cura ou simplesmente manter-se-ia com a mesma máscara de sempre. Talvez esta ultima. Afinal, embora a rasgasse e engolisse sozinha, era mais fácil conviver em sociedade com aquele sorriso forjado aparentando uma tranquilidade que não era dotada, do que encarar o mundo despindo-se daquela pele deixando ver-se negra, pesada e amarga como era. Por ora assim seria. Para si a mesma alma viúva de espírito estilhaçado, para os outros a moça do sorriso tímido e cabelos dançantes ao vento.
MariCosta e Gabriel