Ensaio sobre a loucura
Condenado por sentir demais, a família decidiu que a solução era o tratamento. Era setembro de 1884, completavam-se três meses da inauguração do hospício. A distância foi idealizada para que o local se tornasse um refúgio para quem nascia com a habilidade de sentir demais
Quarta-feira, 22 de setembro de 2016. O céu estava cinzento e um vento gélido sacudia as grandes palmeiras em frente ao imponente prédio na Avenida Bento Gonçalves. A construção é típica do final do século XIX, estilo eclético com seus grandes arcos, que se destacam no meio da paisagem melancólica. O Hospital Psiquiátrico São Pedro, referência na área do tratamento de doenças mentais, hoje sofre com a ação do tempo e o sucateamento do serviço público.
Ninguém anotou nosso nome, de onde éramos, com quem falaríamos ou o horário de ingresso.
Chegamos faltando cinco minutos para as 8h30 — horário marcado para a visita. Passamos direto. Ninguém anotou nosso nome, de onde éramos, com quem falaríamos ou o horário de ingresso. Uma dúvida: e se déssemos de cara com o Dr. Simão Bacamarte — personagem de Machado de Assis que se dedicou às pesquisas psiquiátricas e a internar àqueles que considerava como louco — e ele acreditasse que deveríamos ficar na Casa de Orates? Não havia nenhum registro de que estivemos ali. Tampouco sinal no celular. O destino era o museu da instituição. A referência, a imagem da santa. Depois de dez minutos de caminhada em busca de indicação, adentramos um pequeno portão de ferro marrom e, ao longe, avistamos a imagem sacra. Ao pisarmos no pátio do Hospital, fomos envolvidas pela melancolia do ambiente.
Foi em 1884 que uma espécie de Casa Verde — nome dado à instituição do livro O Alienista, por alusão à cor de suas das janelas–, foi construída em Porto Alegre, na então Província de São Pedro. Na capital dos gaúchos, a Casa de Orates foi chamada de Hospício São Pedro, uma homenagem ao padroeiro local. A inauguração foi de imensa pompa, de todas as vilas e povoações próximas, e até remotas, e da própria cidade de Porto Alegre, pessoas de toda parte e autoridades acompanharam a cerimônia. Em pouco tempo, muitos dementes já estavam recolhidos.
Fomentado pelo forte movimento filantrópico da época, foi o maior estabelecimento de cunho social da Província, relembra Edson Medeiros Cheuiche, historiador do Serviço de Memória Cultural da instituição. Afastada do centro urbano da cidade, na Estrada do Mato Grosso, no Arraial do Parthenon, a casa hospedaria pacientes de todos os tipos: os que sabiam o motivo de estarem lá, os que relutavam para estarem lá e até mesmo os que tentavam entender quais eram os motivos para estarem lá.
A Casa Verde de Porto Alegre
Criado por meio de um decreto da província em 1879, o terreno distante do centro da cidade foi adquirido pelo Estado. Na época, o então presidente da Província de São Pedro, Carlos Thompson Flores, designou fundos para que a obra da instituição prosseguisse e atentou sobre a importância e a necessidade de um estabelecimento desta ordem, declarando que o complexo serviria como um abrigo para que os infelizes, privados do uso da razão, pudessem encontrar consolo aos seus sofrimentos. A população de Porto Alegre crescia vertiginosamente. Em 1875, os registros mostravam uma população de 43.998 habitantes. Três anos depois, essa marca já havia ultrapassado os 50 mil, chegando a 73.274 em 1900. Imigrantes alemães e italianos passavam pela cidade rumo ao Vale dos Sinos e à Serra. Entretanto, muitos ali permaneciam pelas características da região. Em uma encruzilhada que ligava o litoral ao interior, o local se tornava propício para o crescimento e desenvolvimento de negócios diversificados, registra a professora, historiadora e escritora, Sandra Jatahy Pesaven.
Em 29 de junho foi inaugurado. Naquela época, os alienados eram encaminhados para a Santa Casa de Misericórdia ou para as cadeias das cidades, onde, segundo o médico e pesquisador Juliano Moreira, que atuou em instituições de saúde mental de 1893 a 1933, como o Asylo São João de Deos, hoje Hospital Juliano Moreira e o Hospício Nacional de Alienados, “de decadência em decadência aguardavam a morte”. Neste período, 27 alienados internados no hospital, e mais alguns que estavam na cadeia da cidade, foram transferidos para o São Pedro.
“Aos lugares de exclusão que definem a moradia, o lazer e a contravenção, acrescentam-se os lugares de ocultamento ou confinamento, redutos também dos excluídos. São eles o hospital, o hospício, o asilo, a cadeia”, Sandra Jatahy Pesavento.
Sobre o distúrbio
Loucura: substantivo feminino que pode ser compreendido como: 1. Distúrbio, alteração mental caracterizada pelo afastamento mais ou menos prolongado do indivíduo de seus métodos habituais de pensar, sentir e agir; 2. Sentimento ou sensação que foge ao controle da razão. O termo louco no século XXI pode representar infinitos significados. Uma expressão utilizada quando alguém comete atitudes não convencionais. Ou então para descrever uma condição física ou orgânica. Usado levianamente para descrever aquele indivíduo que desponta, possuindo modos e trejeitos diferentes dos demais. Instituições que acolhiam essas pessoas carregam uma imagem de preconceitos e estigmas, justamente por oferecer tratamento e abrigo para pessoas com distúrbios psíquicos e toxicômanos. “O mesmo preconceito que ocorria no século passado é o que encontramos hoje. Por isso o São Pedro ainda existe. O Rio Grande do Sul é atrasado em relação ao resto do país no quesito de tratamento da saúde mental”, coloca a médica psiquiátrica e doutora em história, Nádia Maria Weber Santos.
Homem, 18 anos, solteiro. Vindo da Casa de Correção, foi internado pela primeira vez em 1909. Saiu para assistência no ano seguinte e seria internado por mais quatro vezes. Provavelmente a família não o queria mais e as autoridades entendiam que o melhor local para um epilético seria o hospício. A classificação dos alienados era rasa, feita somente baseada na procedência, sexo, idade, estado civil, cor, nacionalidade, profissão. O número de indivíduos de estado desconhecido era grande”
As doenças mentais eram chamadas de doenças de espírito e lunatismo, uma relação à Lua que é citada entre as causas, mesmo acessórias ou adjuntas, da loucura, como explica o filósofo Michel Foucalt. Os lunáticos ficavam sob os cuidados na maioria das vezes de religiosos. Com o surgimento da Psiquiatria e a Psicologia, no início do século XX, a ciência começou a falar em loucura e a tratá-la como doença do corpo e não mais como doença da alma. Nádia comenta que nesse período aqueles que eram internados, por motivo de loucura, passaram a ser chamados de alienados e os responsáveis pelo tratamento eram identificados como alienistas.
O Hospital Psiquiátrico São Pedro foi a primeira instituição no sul do País a tratar doenças psiquiátricas. O alienado deveria ser vigiado e trancado, fadado a sobreviver sob regras impostas, aguardando a chegada de sua morte. Essa declaração era comum na época, onde médicos, padres, autoridades policiais e familiares impunham esta visão sobre quem fugia do modo convencional de agir. Além disso, alguns doentes eram rejeitados por seus entes próximos, muitas vezes pelo preconceito que sofriam da população. A sociedade, além de discriminar o enfermo, condenava aqueles que convivem com ele, em especial, os pais que poderiam ser vistos também como portadores de males mentais. A Doutora em História Zelinda Rosa Scotti, explica que na tentativa de a família evitar ser estigmatizada pela sociedade, por ter um doente mental em seu meio, rejeitava o alienado. “Foi possível observar a ocorrência da prática do abandono de pacientes por seus familiares, principalmente quando informavam o endereço erroneamente, ou quando a família mudava de residência e não avisava o novo paradeiro”, aponta.
“A loucura muitas vezes é um espelho das repressões"
Atrás do Muro
Todas as semanas chegavam pacientes oriundos de diferentes cidades, bem como outros estados e países. Por razões diversas, eram encaminhados para avaliação na instituição. Alguns retornavam para suas residências por não apresentarem doenças mentais, outros realizavam o tratamento e recebiam alta. Mas alguns permaneciam na instituição por tempo indeterminado. Cada paciente possuía uma papeleta de admissão, onde constava suas informações de entrada, idade e local de origem. A partir de 1928, os novos pacientes passaram a ter seus registros em um livro que continha informações como data de ingresso no São Pedro, cidade de origem, idade, classe, gênero, parecer médico, pertences com os quais chegou ao hospital, data de internação anterior (se houvesse), data de saída e motivo. Ainda, eram descritos os fatos do por que do recolhimento do paciente, normalmente realizado por alguém da família, padre ou pela polícia. Nele, constam os motivos que levavam os indivíduos a serem internados.
Os alienados vindos do interior do Estado eram trazidos para o Hospital São Pedro em trens. Na época, poucas linhas existiam e a estratégia para diminuir os gastos com o transporte era juntar o maior número de doentes possível, no mesmo vagão. Dessa forma surgiu a expressão “O Trem dos Loucos”, afirma Nádia Maria Weber dos Santos. | Crédito: Divulgação IBGE/1954
No estado de Minas Gerais o Trem dos Loucos cruzava as ferrovias em direção ao Sanatório de Barbacena | Crédito: Direção de Marcio Sampaio
Acostumados com a ideia de que os pacientes do São Pedro entravam no sistema por motivos como loucura, paranóia ou esquizofrenia, verificou-se que esses nem sempre foram as principais evidências. Para Nádia, “a loucura muitas vezes é um espelho das repressões e uma construção da realidade cultural da sociedade”. A Mestre e Doutora em história da loucura retrata que assim como a cultura e os costumes, a ciência está em constante evolução, por isso os conceitos alteram conforme cada época. Assim, é possível observar que as enfermidades mudam com os anos. Os sintomas permanecem os mesmos, o que se alteram é o diagnóstico do que é ou não patologia. Por isso em 1952 foi criado o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM), utilizado para identificar as doenças mentais de acordo com os sintomas de cada paciente. O DSM já está na quinta edição e sofre alterações conforme as evoluções nos estudos científicos.
Atualmente, para a ciência é correto falar em doença mental, mesmo assim o termo loucura resistiu aos últimos cem anos e permanece no vocabulário popular e até médico. São diversos adjetivos utilizados para caracterizá-los e nunca se chega a uma definição. A loucura vive em constante reconstrução. É importante esclarecer que as interpretações são amplas e variam conforme a visão de cada estudioso. Mas podemos constar que o lunático, o alienado e o louco na sua essência são os mesmos e acima de tudo são seres humanos, cada um dentro de suas próprias peculiaridades e que sofrem, ao longo do tempo, o preconceito nas mãos da sociedade e na maioria das vezes sofrem indefesos.
“Mulher, 33 anos, casada. Internada pela primeira vez em 1909, na primeira classe. Sairia para assistência em domicílio, em 22 de abril de 1910, retornando em 26 de abril de 1910, e retirada alguns meses depois, em outubro de 1910. Ambas as vezes foi internada pelo marido. Em 1915, seria internada pelo genro, com o detalhe de que da 1ª classe passará consecutivamente para a 2ª classe, e, por fim, para a 3ª classe. Em 1940, passados vinte e cinco anos de internamento, Maria V. demonstrava em seus gestos ter incorporado a instituição: passa os dias andando de um lado para o outro, o corpo continuamente animado de um movimento de balanço. Internada com o diagnóstico de loucura histérica com delírio sistematizado religioso associado, seu comportamento inicial, possivelmente inconveniente para o marido, foi substituído por comportamento de apatia completa”.
Segundo a historiadora e escritora Sandra Jatahy Pesavento, no final do século XIX e início do século XX, era comum as internações feitas no Hospital São Pedro virarem notícia.
Glossário de diagnósticos
No final do século XIX e início do século vinte existiam diversas definições para os diagnósticos dos alienados, pois dependia da interpretação de cada profissional e linha de pesquisa. Por isso, em 1952 foi criado o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM), utilizado para identificar as doenças mentais de acordo com os sintomas de cada paciente. Até a criação do DSM os enfermos ficavam a deriva da análise de cada médico.
Demência precoce: perda da afetividade; da iniciativa e associação de ideias (identificado posteriormente como esquizofrenia).
Degeneração hereditária: transmissão de caráter adquirido, ou seja, não só por fatores biológicos mas também virtudes e vícios são passados para gerações futuras.
Coprolalia: compulsão em proferir palavras obscenas.
Logorréia: produção verbal anormal intensa e acelerada, frequentemente associada à fuga de ideias e distraibilidade.
Diagnóstico maníaco-depressivo: perda do controle, euforia acompanhada de logorréia.
Sordice: sórdido, imundície, possui sujeira na vestimenta ou no corpo.
Idiotia: aquele que não consegue se expressar verbalmente, nem compreender a verbalização de pensamento de outros.
Imbecil: articula mal as palavras, não conseguindo se comunicar por escrito, nem compreende o que lê.
Debilidade mental: capaz de se comunicar verbalmente e por escrita, mas apresenta dificuldade de aprendizado.
Gatismo: incontinência de urina ou de fezes.
Coprofagia: prática de ingestão de fezes.
Psicose alcoólica (alcoolismo) crônica: é aquela que pode ser observada em indivíduos que fazem uso de álcool há muito tempo. Segundo o médico psiquiatra Henrique Roxo, o indivíduo passa por modificações de caráter, perda de noção da ética e da estética, não exerce seu trabalho de forma satisfatória e as vezes falta o emprego. Ele perde a noção de honra e não zela pela esposa, que pode o abandonar e insinuar carinhos para outro homem. Irritabilidade permanente.
Psicose alcoólica (alcoolismo) subaguda: mau humor, inquietação, insônia, irritabilidade, alucinações do ouvido além da vista, e em alguns casos ocorre delírio sistematizado de ciúmes.
Psicose alcoólica (alcoolismo) aguda: o paciente tem fortes tremores, intensas alucinações da vista e é perceptível uma confusão mental alucinatória.
Melancolia: segundo Hipócrates, considerado o pai da medicina, a melancolia era um estado de tristeza e medo de longa duração, além de ser considerada doença. Já para Phillipe Pinel, considerado o pai da psiquiatria, melancolia é a parte dos quadros patológicos, descrita como uma doença cujas vítimas tinham fixação em um orgulho desmedido, podendo ser acometidas de abatimento, consternação e desespero.
Histeria: a palavra tem origem do grego, histeros, que significa útero. O termo passou a ser utilizado para classificar um distúrbio relacionado diretamente à sexualidade feminina, podendo surgir entre a puberdade e a menopausa. Inclusive na Idade Média a Histeria era associada à possessão do demônio. Segundo o psiquiatra Charcot, a histeria se desenvolvia em quatro etapas: rigidez tônica, convulsões desajeitadas, manifestação física de estados emocionais e estado de delírio.
*Créditos Reportagem: Gabriela Fritsch, Gabriela Freitas e Murilo Zechlinski (Shalynski Zechlinski)
Fotos: Gabriela Freitas
Projeto para as Disciplinas de Jornalismo da UniRitter: Projeto Experimental - Revista e Redação Jornalística IX - Ênfase em Revista Impressa
Semestre: 2016/1














