No último mês, fui entrevistado pela deliciosa Revista Vida Simples (@vidasimples) e o resultado tomou corpo na matéria “Brasil de verdade”. Na sessão “Um café com”, abri o jogo com a Bel Rapoport sobre os dois lados de passar perrengues. Tá bem bacana! Deixo aqui o conteúdo completo agora que a edição não está mais nas bancas, mas, se eu fosse você, corria comprar a nova que traz o tema “como lidar com as dificuldades” ;)
BRASIL DE VERDADE
O designer que viajou pelos quatro cantos do país para revelar as histórias dos nossos artistas populares.
- por Izabel Duva Rapoport
Há um ano, Renan Quevedo criou o projeto Novos Para Nós, no qual viajou o país para garimpar e escrever sobre a vida de 300 artistas populares. Nesse caminho, ele tocou e foi tocado. Conheceu gente simples, que, muitas vezes, duvida da própria capacidade de fazer arte. Mas, ao mesmo tempo, quando Renan as encontrava percebia nas obras algo lindo, que merecia espaço em qualquer galeria, por serem peças que contam a história da nossa gente e, por consequência, a nossa própria. Depois de percorrer tantos quilômetros, ele agora tem como objetivo divulgar a capacidade de fazer arte dessas pessoas, para que todos conheçam o Brasil de verdade.
VS: Foi preciso transformar seu olhar de viajante para reparar num Brasil que, muitas vezes, passa despercebido por nós?
RQ: O Novos Para Nós tem menos de um ano, mas essa pesquisa é antiga e foi assim que um olhar voltado a essas pessoas tomou forma. É o mesmo olhar que traz coisas boas ao meu dia a dia. Quando visito os artistas, sinto uma grande conexão que me alimenta de diferentes maneiras. São sentimentos puros, uma vivência resumida ao que de fato importa e a ter desejos que só existem se forem necessários. E é aí que mora o nosso verdadeiro tesouro: os brasileiros.
VS: Nesse sentido, a sua busca é pela arte popular ou pelas pessoas?
RQ: Conceitualmente é pela arte popular. Já entendi e acho incrível que ela tenha tomado outra forma e hoje se misture com a vida de cada um dos nossos artistas. A arte popular existe por ser um híbrido entre inconsciente, crenças, tradições e cotidiano. Muitos pesquisadores apontaram uma estreita ligação entre vida e obra, mas isso perdeu força e ficou comum exaltar a obra enquanto a galinha do ovo de ouro sumia do mapa. Meu trabalho vai além do contemplativo artístico, vem com uma grandeza pessoal de quem produz. Acho importante dar nome aos bois e extraio coisas lindas das vivências com os artistas. Não é necessário, mas é um presente.
VS: Que tipo de coisas lindas?
RQ: A oportunidade de redescobrir nossa própria cultura, de conviver com o novo e viver propósitos e ideais. Os artistas despertam em mim sentimentos ainda sem nome. O deslocamento físico para realizar o projeto foi muito intenso, mas muito maior foi o deslocamento de eixo. Pode ser que eu tenha proporcionado alegria à vida desses artistas, mas certeza eu tenho da mudança que eles fizeram na minha. Aprendi na raça o famoso “existo porque insisto”.
VS: O que há em comum nessas casas?
RQ: Há somente o necessário e acho bacana estabelecer uma comparação entre casa e vida. Ter somente o necessário nos revela uma sabedoria em construir da própria vida um lar confortável. Não é lindo? Esse possível romantismo cai por terra quando nos damos conta de que somos diferentes, entretanto acredito que isso nos aponta um norte a ser pensado.
VS: Como enxerga o constraste de realidades no Brasil?
RQ: Caetano diz “gente é pra brilhar, não pra morrer de fome”, e essa frase se encaixa quando penso nos grandiosos artistas que foram escanteados. Poderia falar, de fato, sobre os poucos recursos que os artesãos têm para sobreviver, mas esse trecho de “Gente” me remete à forma como alimentamos o que é produzido aqui dentro. Dizer que é difícil sobreviver de arte no Brasil não é novidade, mas é importante repensarmos como valorizamos a cultura popular. Comprar um caso de metal por 100 reais feito por uma máquina não parece tão caro, mas um vaso de barro feito por uma pessoa que traz um conhecimento secular, passado por gerações, por 30, é caro. Não seria hora de carregarmos com mais orgulho essa bandeira?
VS: E qual é o real valor dessa produção manual?
RQ: É um tesouro. Os artistas desenvolvem uma técnica e, através dela, uma estética única desdobrando-a em diferentes obras. E adivinha? Nunca frequentaram uma escola de artes. Começaram sozinhos. Fazem porque precisam colocar algo para fora e é incrível que insistam nisso. São essas pessoas tão brilhantes que acabam postas de lado pelas autoridades e sabe por quem mais? Nós mesmos. É um esforço grande - mas necessário - passar a entender a arte popular brasileira como algo provocativo, refinado, ousado, original e perder o fantasma de compaixão por consumir esse tipo de arte.
VS: Entre as histórias, pode nos contar alguma?
RQ: Seu Jasson mora na beira do rio São Francisco e passa três semanas para fazer uma única peça pela qual pede 200 reais. Os galeristas chegam a oferecer 70. Quem sustenta a família com 70 reais durante extensas três semanas de trabalho? Encomendei uma peça pela qual ele pediu um determinado valor e resolvi pagar três vezes mais. Assustado, me perguntou: “mas que tamanho ela vai ser?”. Eu disse que era o mesmo, só que pagaria o que talvez fosse mais justo. Dias depois, ele me ligou para dizer que a peça estava pronta e completou aos soluços: “Renan, sentia que estava preso numa caverna escura, mas aí você apareceu. É a minha luz no fim do túnel”. Nessa hora, quem chorou fui eu.
VS: E o que faz valer a pena passar pelas angústias de quem decide largar tudo e pegar estrada?
RQ: As angústias existem em doses cavalares. Percorrer o Brasil com o olhar para o que é ignorado não é turismo. Não tem oba-oba, nem descanso. Imagine: eu chego na cada de qualquer artista, bato no portão e sou recebido com o carinho de quem recebe um rei. Em minutos abrem suas vidas, que se transformam em profundas lições. Essas pessoas carregam muito. Às vezes, pesco uma frase dita de maneira inofensiva e entendo que equivale a anos de terapia. Não carrego uma gota de arrependimento por mais que perrengue eu tenha passado. Lembro-me do escritor Guimarães Rosa: “E eu - como é que posso explicar pro senhor o poder de amor que eu criei? Minha vida que o diga”.
VS: E pra onde segue essa jornada?
RQ: Quem me acompanha sempre pede livro, documentário, exposição, mas sozinho não sou capaz. Minhas economias foram todas para o projeto. Dou meus pulos, mas, para algo maior, só com a ajuda de mais pessoas. Sobretudo, gostaria de proporcionar melhorias para a vida dos artistas populares, oferecendo, além da valorização através das histórias, modos concretos para um mercado mais justo.
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