Samba Blood Samba - Lado 2 Stereo
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Samba Blood Samba - Lado 2 Stereo
por Adilson Pereira
Quinta-feira de um inverno que sequer chegou perto de ser inverno-na-moral, no Rio de Janeiro. Mesmo assim, parecia uma ótima tarde para um soninho. Pelo menos no Leblon, na cobertura do casal Nina Becker e Marcelo Callado. Ele bocejava distraídamente e ela lamentava — bem-humorada, até — o cochilo interrompido para a conversa-entrevista que duraria uma hora, uns bons cafés e quase metade de um bolo de laranja levado pelo jornalista. É, há quem acredite que se deve agradar uma mulher grávida. Ainda mais se ela estiver com barriga de oito meses.
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Semanas antes, no Humaitá, também Zona Sul da cidade, um teatro lotado parecia rezar sob a mesma cartilha: no Espaço Cultural Municipal Sérgio Porto, foram/fomos todos extremante simpáticos com o casal, quando eles deram o ar da graça para lançar “Gambito Budapeste”, álbum-projeto feito em sintonia com o bebê. Ainda bem que o nome esquisito ficou para o álbum. O escolhido para a pequena é Cora.
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Callado explica que se trata de um projeto paralelo a todas as coisas que ele e Nina já fazem. Conta que foram três shows de lançamento, dois no Rio e um em SP e que lá, no Parque do Ibirapuera, também foi muito legal. Ao ouvir do entrevistador o aviso que a conversa estava já sendo gravada, ele sorri: “Tranquilo.”
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Essa tranquilidade é a deixa para que falemos um pouco do bebê que está prestes a nascer. Os dois comentam sobre como é prazeroso conversar com a barriga, isto é, com o bebê que há lá dentro. “Em todos os livros que li”, fala Nina, “dizem que é bom conversar com a barriga.” E, claro, tranquilidade é fundamental. Naqueles instantes de papinho-e-café, quando o escriba tem certeza de que os entrevistados ainda não relaxaram, Nina parece bem mais serena do que o marido-parceiro. Mas Callado lembra que, nos momentos de mais “agitação”, é depois de ouvir a voz dele que a miúda Cora se acalma.
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Esse pai orgulhoso deve após o espetáculo ter gastado saliva, na noite do lançamento no Sérgio Porto, para acalmar Cora. O clima era de festa, o que significa que neguinho fez um bom barulho.
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“Realmente, eram muitos amigos, família. Tinha sido meu aniversário, no fim de semana. Mas não foi nada planejado, aquilo. A gente ficou até falando, à beça, durante o show. Nada daquilo foi planejado”, afirma Nina ao responder se aquela noite, em alguns momentos, não havia sido de extrema exposição da vida íntima dos dois, digo, três. Verdadeiro clima chá de fraldas no ar, no Sérgio Porto, tamanha a boa vontade do público. Era tipo uma noite importante. Tinha candidato, na porta, fazendo campanha. Sabe noite de “extrema felicidade”, com o detalhe de que, no palco, vemos um casal em que a mulher está grávida…? Sabe a felicidade? Era o clima daquela noite. Sem exagero.
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Nina concorda. Acha que sim: ela, grávida, provocou um impacto extra na plateia. E talvez tenha sido uma certa surpresa para muita gente o trabalho ter vindo agora à tona. Os dois não falaram muito sobre esse projeto porque havia o grande problema de encaixar essa produção na agenda de ambos. Até que… “Até que teve um dia que rolou a bebê e a gente falou: ‘Pronto! Melhor lançar antes, porque, depois, sabe Deus o que vai acontecer… Então, foi quando resolvemos fazer um esforço mais rápido, começamos a falar com algumas pessoas. E a ideia era que fosse isso. Porque não vai ser um trabalho que a gente queira fazer assim de carreira”, define ela.
“Acho que as críticas foram muito boas”, pega Callado. “Ainda não vi nenhuma crítica ruim. Mesmo de pessoas próximas, que poderiam ter alguma crítica. Essas pessoas têm gostado. O que escreveram de pior foi algo do tipo ‘essa parada é muito fofa demais’…”
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Ela ajuda o marido: “Aí, o cara falou assim: ‘…mas o problema é que é bom…’”
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E ele repete a frase, afirmando em seguida que o disco tem mesmo “esse lado nhé-nhé-nhém, esse lado romântico”. Perguntado sobre o clima de música de ninar que se espalha sobre algumas músicas, o batera não parece incomodado.
Nina volta para dizer que ela tem uma tendência a fazer música de… ninar! E isso é um início de conversa entre o casal.
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“Porque são delicadinhas, né?”, pergunta Callado.
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Ao que ela responde: “Cara, eu tenho essa tendência a fazer música de ninar, o que às vezes é meio chato. Mas tenho isso.” E depois segue, já como que continuando a entrevista, referindo-se ao visitante: “É bom que misturou com o Marcelo e deu uma quebrada. Tô aprendendo a ser brutamonte e ele, a ser fofo.”
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Marcelo Callado tem aprendido também o que é sair do cercadinho da bateria. Coisa que Nina tem curtido: “Sabe o que eu acho engraçado?”, começa ela. “Até esqueço que o Marcelo é baterista. Porque ele não toca em casa… “
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Ele entende que uma explicação cairia bem: “Na verdade, nunca toquei bateria. Mesmo quando comecei a tocar, em 95, de um jeito um pouquinho mais sério, lá nos primórdios do Carne de Segunda, eu só tocava bateria quando os malucos iam ensaiar na minha casa…”
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Precisava explicar então também como se deu o aprendizado: “Acontece o seguinte: desde os primórdios, também, eu tenho umas quatro bandas. Então sempre tô tocando. Sempre tem ensaio. Na verdade, tô sempre tocando bateria. Mas não sozinho. Nunca estudo sozinho. E estudei bateria, sim. Dois anos, com o professor Gustavo Stroeter. Dos 8 aos 10 anos…”, diz ele, que agora tem 33. Nina tem 38.
Lembrar dos 8, 10 anos animou o cara, ou pode ter sido efeito do café – que estava mais para forte do que para fraco: “Eu estudava, lá na aula; mas não fazia isso em casa. O professor mandava estudar teoria, tinha dever de casa. Mas eu não fazia. Ficava ouvindo disco dos Beatles e tocando em cima, sabe? Perguntaram uma vez pro Caetano numa coletiva qual era o jeito de cada um da banda e ele falou de todo mundo. Disse que ‘o Marcelo tem uma coisa muito legal que é ser um baterista desencucado, que não fica muito preso a vícios de baterista…’ É, de achar que tem que tocar toda hora. Fazer coisas meio pré…
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Você pode numa música tocar só um contratempo. E é isso aí, é o que a música pede. Foda-se se você tem o resto da bateria todo ali e você tá só tocando o contratempo…”
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Nina nina: “É que você não pensa como baterista. Não fica tipo ‘O que eu vou enfiar aqui pra preencher esse silêncio?’ Você fala sempre da música como um todo. Nunca te vejo preocupado só com a tua parte…” Depois, belisca-brinca: “Opinião de ex-patroa, né?”
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Marcelo lembra de conversas com amigos, de papos sobre o papel do baterista numa banda. E resume: “Nunca vou sair da bateria. Acabei de gravar um disco tocando bateria, vou fazer uma turnê tocando bateria. Mas eventualmente vou fazer esse negócio aí, com guitarra e tal. Porque é muito legal.”
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A conversa segue e surgem vários nomes de bateristas que saíram do cercadinho. Fomos capazes também de citar bandas em que o papel da bateria foge daquele digamos tradicional.
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O bolo de laranja estava mesmo muito bom. E já falando sobre o álbum, Nina diz que não, “não há uma DR na sequência ‘Saudade vem’-'De cor coração’-Packing to leave’-'Essa menina’”. “Na verdade, ‘De cor, coração’ eu fiz quando estava na Turquia. Ela é mais existencial-genérica. Não fala nada sobre o nosso relacionamento. Mas pode se encaixar sim nas nossas vidas. Em ‘Packing to leave’, juntei umas coisas… Estar o tempo todo na estrada é massacrante, mas ao mesmo tempo uma coisa mágica que faz com que a gente se renove. Essa concepção de que tudo já foi feito te aprisiona. Mas ao mesmo tempo você vai fazer o quê, nada? Tem essa busca, juntando isso com a estrada… Mas tem a ver com o relacionamento também porque fiz numa hora em que estava morrendo de solidão”, detalha a cantora que ri, depois, quando Callado conta que mostrou a música para o amigo e produtor Kassin e ouviu deste último que aquele som “parece Queen”.
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Algo de Beatles e Novos Baianos, sim, com certeza essa faixa tem. Assim como para Callado “Armei a rede” é uma música para a qual o casal poderia ter feito uma versão krautrock. Refrindo-se a esta que no disco é a única que não foi composta pelo casal, ele repete: “Cara, a gravação original é sinistra. É meio que à frente do seu tempo. É o quê, uma toada? Mas ao mesmo tempo… a gente podia ter feito uma versão krautrock dessa música… “
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Tempo para experimentar novas versões eles não tinham muito. O projeto começou a ser gravado em janeiro de 2011. E até aquele momento Callado nunca tinha pilotado um computador para registrar um álbum. Para ele, o fino até então era gravar num Tascan de quatro canais. Brincar com um Mac deu numa mistura de “pop e experimentalismo”, nas palavras do baterista: “Tem um experimentalismo já por sermos eu e a Nina. E por ser a gente gravando na nossa casa. Isso já é ser experimental. Era do jeito que dava, procurando situações diferentes na casa, novos timbres. Gravamos no banheiro. Mesmo que não tivesse uma ambição experimentalzinha de arranjo, já teria o experimentalismo mesmo. E acho que as músicas são muito pops, no sentido de serem canções com melodias.”
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Muitas dessas canções com melodias estão nascendo no sofá que acomoda os dois durante essa conversa. Em frente, uma estante giga, cheia de vinis. Há um teclado aqui e outro ali. Um Mac aqui, outro ali. Simone, a moça que fez o café e que pelo jeito é quem cuida da limpeza da casa, dá tchau de longe.
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Seguindo na brincadeira de achar referências, surgem os Titãs. Aqueles, aqueles lá atrás. “Futuro”, conta Callado, “foi a única música que fizemos já sabendo que ela seria parte desse álbum.” Nina lembra: “A gente mandou pro Miranda e ele falou: ‘Adorei essa música do Arnaldo Antunes’.”
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Voltamos a nos distrair com um papo rápido sobre como certos bateristas fogem da regrinha básica. Chegamos ao lance das bandas em que os integrantes trocam de instrumentos, durante uma apresentação. E Marcelo se anima, de novo: “O Carne de Segunda fazia isso. Mas, pra praticidade de show, é horrível isso. Ainda mais quando você tá tocando em festival, meia hora de show. Aquele recado tem que ser rápido. Não trocava só de bateria pra guitarra. Eles trocavam entre eles. Bubu tinha que tocar baixo numa e guitarra noutra. Aí, toda música tinha que parar pra trocar. É um negócio também que se começar a viajar muito fica chato.”
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Um estalo e voltamos às faixas de “Gambito Budapeste”. Mais especificamente ao clima novela das seis de “Armei a rede”.
“Com o Marcelo, veio uma coisa folk que eu gosto mais do que nunca. Acho que essa música caipira ela é folk. Juntou na verdade com uma coisa que tá acontecendo com a gente.”
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O escriba arrisca dizer que o clima “brejeiro” estende-se até “Saudade vem”. Ao que os dois concordam. “Saudade vem”, segundo o casal, é uma música irmã de “Só”. E ele revela: “Sabe, essa parada eu escrevi pensando no mar aí da frente… Embora vá à praia pouquíssimo, eu adoro. Isso com certeza vai mudar! Vai mudar negócio de horário também, né?” .
Nina: “Espero que a Cora não tenha a preguiça de praia que eu tenho. Tem que ir cedo. De tarde, começa a ventar e eu não gosto de vento, por causa de alergia…”
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Tanto ela quanto ele estão ouvindo muita gente dizer que será impossível dormir nas primeiras semanas após o nascimento da filha. Mas isso não parece preocupá-los. “A gente já não dorme mesmo”, brinca Nina, e não dá pra saber se ali ainda tem um tom de lamento pela soneca da tarde que foi interrompida.
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Callado diz que seu horário de ir pra cama, durante aquela semana, foi sempre às quatro da matina. Gravação, gravação, gravação. Ensaio, ensaio, ensaio. “Acordei hoje meio-dia”, diz ele, com tom de vitória.
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Claro que tem um lado muito bom nisso e os dois reconhecem. Nina diz que agradece todos os dias por poder viver de música independente. E já que o clima é de confissão, os dois assumem que gostam de novela. E defendem o formato, apaixonadamente. Na opinião de Nina, “é uma cultura muito madura no Brasil, é um negócio sério e complexo. Como toda indústria, tem o lado pesado. Como qualquer indústria…” Callado lembra que seu companheiro de Do Amor, Ricardo, é neto de Dias Gomes e Janete Clair.
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Para os dois, gostar de novela é uma coisa. Fazer música pensando nelas é outra. E essa outra não rola. “Não consigo fazer música sob encomenda. Pensei em compor um samba e aí saiu ‘Packing to leave’”, brinca Nina. O batera lembra de uma antiga composição sua, “Cântico”, e puxa um verso de lá: “Eu gosto é do frio na barriga…”
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Barriga volta a rimar com ninar, quando eles comentam outra faixa: “Nuvem”. A conversa agora vai pras bandas de “quem é mais calmo(a) e quem é mais pilhado(a)”. Nina: “O Marcelo é pilhadaço.” Callado: “Eu sou pilhado mesmo… ‘Nuvem’… a gente tinha saído pra jantar. Voltamos. Janela aberta. Noite bonita. Uma nuvem tava baixando. Nina falou ‘Vamos fazer uma música sobre nuvem’. Peguei umas coisas num jeito bossa nova que ela me ensinou… E fomos fazendo. Começamos a viajar um pouco nisso. Brincando com a palavra sem procurar um sentido. Nuvem chora. O choro da nuvem é a chuva. E saiu em dois minutos. Foi a música mais rápida desse disco. Essa foi feita antes de sabermos que seria um disco.
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Sabendo ou não que vai surgir um disco, é bom que num repertório haja uma música como “Marco zero”, certo, que leve o ouvinte para um universo à moda Mutantes, não é mesmo? Para Callado, sim, certo, é isso mesmo. Já Nina acha que “Marco zero” tem mais a ver apenas com “Rita Lee na época Tutti Frutti. Uma época Stones, Bowie. É mais roqueirona. ‘Marco zero’, quando saiu, era uma coisa meio latina. Depois, virou rock.”
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E Callado diz lembrar do momento em que isso aconteceu: “Lembro! Essa música começou de uma letra da época do Carne de Segunda. Na época, não rolou. Era uma letra que eu gostava. Deixei com a Nina e ela foi viajar. Quando ela me mostrou a música, tava ainda em dúvida sobre o ritmo. Peguei o violão e tentei um dedilhado. Aí ela disse que não queria dedilhado. Graças a isso, ela começou a fazer o chacundum.”