Com um disco, "Esfíngico - Suite for a Jazz Combo", acabado de editar pela Clean Feed, outro a caminho e uma participação no grupo
Andava à procura de um longo e magnífico texto de Pedro Gomes, que guardo na memória, sobre Sei Miguel, publicado no Público nos idos dos anos 2000, e não o encontrei – o arquivo digital do Público é muito mau.
O Pedro tinha uma relação muito especial com a sua obra – que culminaria no facto de terem colaborado, depois, musicalmente – e nesse texto havia esse arrebatamento lucido, passe o aparente paradoxo, que às vezes os textos dele possuem. De caminho, deparei-me com este bom texto do Nuno Catarino, de 2010, num outro registo, que é um bom testemunho sobre a obra e relevância de Sei Miguel.
“A música de Sei Miguel é esculpida no detalhe. Nela será possível reconhecer fragmentos da história do jazz, sendo que este assume aqui uma forma viva, mutável, não convencional, mas também da música concreta ou da música erudita contemporânea de carácter mais experimental. Com uma discografia de dez títulos que se espalha pelas últimas três décadas, a sua música raramente é consensual.
Exceptuando uma imensa minoria de fiéis apoiantes e algumas, raras, excepções - no final dos anos 80 é nomeado para os Setes de Ouro e convidado para diversas actuações no Hot Clube de Portugal -, a sua música é encarada em Portugal com desconfiança e perplexidade, sendo-lhe negado qualquer tipo de estabilidade ou reconhecimento.
No entanto, após 25 anos de trabalho contínuo e uma total dedicação à sua própria linguagem musical, as coisas começam agora a mudar, sobretudo a nível internacional. O crítico da revista "Wire", Dan Warburton, chama-lhe "o segredo mais bem guardado da nova música portuguesa", e Joe Morris, conceituado guitarrista norte-americano, escreve no seu blogue: "Sei Miguel é um dos mais interessantes improvisadores na cena actual.
De alguma forma, encontrou aquele espaço onde melodia, ritmo, e um delicado equilíbrio entre som e silêncio, fazem a ponte entre música 'high art' e música 'folk' pura. É um dos artistas mais profundos que já conheci. Uma vez mais, como tantas vezes antes, um novo jazz surge de um lugar inesperado. Desta vez foi de Lisboa."
Ao planear a recolha de material para este texto, marcámos encontro com Sei Miguel numa esplanada no Príncipe Real, em Lisboa. O músico começa por mostrar-nos os "scores" em que tem estado a trabalhar - sistemas de notação gráfica, uma partitura geral para cada tema e uma partitura específica para cada músico, com instruções detalhadas - e pede para responder por escrito ao conjunto de perguntas que lhe preparámos.
Passados alguns dias, entrega-nos as respostas num conjunto de folhas manuscritas, elaboradas com uma minúcia que adivinhamos reveladora do cuidado que aplica a cada passo do seu trabalho musical. Tal como a sua música, que não encontra paralelo em lado algum, esta é uma personalidade única.
Miguel nasceu em Paris, passou a infância no Brasil, voltou a Paris, e instalou-se em Portugal. Todas estas mudanças geográficas terão contribuído para a formação de um carácter particular. O músico confessa: "Eu completamente 'nasci' no Brasil.
Mas Paris acabou por ser benéfica, eram os gloriosos anos 70 e isso abriu-me ao mundo. A vida cultural brasileira sempre me pareceu auto-suficiente, para o bem e para o mal. Portugal/Lisboa foi, logo, soturno saturno, uma verdadeira armadilha chinesa. Tenho uma relação de ódio-ódio com isto.
Penso hoje que lá fora as coisas não devem estar muito melhor. Tenho aqui passado mal e pior, obrigado, tornaram-me português à força. Rafael Toral ajudou-me incontáveis vezes a não ir abaixo.
O que quer que lhe diga? Que existem bons e grandes portugueses? Que Manuel Mota toca o que toca e é de cá? Que a esperança é a última a morrer? Pois é."
vitor belanciano















