Este é um documento de desabafo. Se por algum acaso, em circunstâncias que não consigo imaginar no momento, mas tenho quase certeza que são ruins ou desesperadoras em algum nível — você, seja lá quem tu sejas, tiver chegado até aqui e estiver lendo esse texto, saiba que peço que prossiga com cautela.
Não me é agradável a ideia de alguém lendo meus pensamentos despidos de filtro sem meu consentimento, porém suponho que, se chegaste até aqui, essas não são circunstâncias comuns e pedem o tratamento de uma exceção à regra. Então, sinta-se à vontade, suponho.
Pfft. A quem estou tentando enganar?
As chances de alguém encontrar esse documento nos confins das minhas contas são quase inexistentes. Sou apenas uma adolescente carente de atenção que não acha que o esforço, tempo e dinheiro necessários para ir a um psicólogo valham a pena. Solitária. Teimosa demais para recorrer a outras pessoas por uma conversa do gênero e cansada de reprimir tudo — exausta de viver os dias como se não houvesse nada pesando em meu coração e assombrando meus pensamentos sempre que fecho os olhos.
Cansada de me encontrar agonizando em um mar de sentimentos e pensamentos contraditórios e ainda assim manter a pose de 'garota forte’. Não aguento mais ouvir meu eu interno julgando minhas emoções e lutas antes mesmo de eu me permitir sentí-los, dizendo que eles não são válidos ou que são sensíveis e patéticos demais — que eu deveria ser mais que isso. Mais forte. Mais séria. Mais inteligente. Mais adulta. O tempo inteiro, sem nunca fraquejar.
O pensamento de que eu não tenho o direito de sentir ou expressar emoções negativas está me matando. Sinto-me vivendo com uma mãe rigorosa e controladora dentro de mim, sempre me afastando dessas coisas, me impedindo de viver plenamente, me acorrentando a algo que jurei para mim mesma que era bom — a noção ingênua de que sou uma pessoa controlada e com inteligência emocional o suficiente para cuidar bem de mim mesma. Que eu cresci bem e estou bem e nunca — nunca — irei precisar de ajuda com questões emocionais qualquer outra vez na vida após as crises de 2020.
A noção estranha de que tenho que agir forte o tempo inteiro para não me tornar como as pessoas que me fizeram mal. O medo esmagador de me tornar como eles. Acho que prefiro cometer suicídio do que perceber que estou me transformando nas pessoas que jurei encarar como um exemplo do que não ser. Não quero trazer mais miséria e toxicidade ao mundo do que ele já tem.
Não quero fazer ninguém passar por aquilo que passei. E acho que estou levando isso muito a sério, ao ponto de estar me sufocando pelo próximo passo — de praticar tanto a restrição e autocrítica ao nível de cair num abismo de isolamento de meus amigos e família com medo de levar algo ruim para eles, de demonstrar vulnerabilidade e fraqueza.
Com medo de ser fraca. Com medo de pedir ajuda. Com medo de me permitir sentir.
Somente escrever esse texto já me deixa em lágrimas de angústia por achar que estou gastando o tempo precioso que eu deveria estar usando para estudar, limpar a casa ou fazer algo mais produtivo para “reclamar” de algo estúpido que pode ser resolvido com um pouco de lógica e autodisciplina. Mas é essa autodisciplina que está me tornando esse barril de pólvora que está prestes a explodir em algum momento.
Sinto falta dos meus amigos, mas nunca me sinto emocionalmente adequada o suficiente para puxar uma conversa com eles.
Queria visitar meus parentes, mas todo lugar que vou eu lembro da minha mãe e do trauma que a minha identidade gira em torno — e isso me faz sentir algo que não consigo nem descrever. Faz-me considerar que talvez minha situação não tenha solução, me lembra que talvez eu seja digna de pena e nunca conseguirei me livrar dessa bagagem terrível.
Me dá vontade de morrer nesses momentos.
De desistir de tudo o que estive me esforçando tanto para construir e manter de pé. De abrir mão das ideias otimistas e esperançosas que tanto me seguro com força todos os dias, caindo exatamente como as pessoas sempre acharam que eu fosse cair um dia.
Às vezes, duvido da minha capacidade para alcançar meus objetivos. Tenho medo de falhar e fazer as pessoas que investiram tanto tempo, dinheiro e amor em mim sentirem que tudo o que fizeram não valeu a pena no final.
Tenho absoluto terror de ficar doente mentalmente. De desenvolver a maldita doença da minha mãe. De me encontrar sem outra saída senão tomar remédios psiquiátricos e ter outras pessoas me olhando com pena e decepção — de trazer mais trabalho para a vida do meu pai e meu irmão.
Não faço ideia se minhas ideias estão coerentes aqui, ou se estou apresentando o raciocínio da forma que desejo. Não tenho certeza se estou conseguindo me expressar ou se nem aqui eu consigo abandonar a necessidade de ser contida e apresentável.
Queria conversar com alguém sobre isso, mas o vazio que me surge após todo desabafo interpessoal não se prova valer a pena todo o processo.
O suicídio parece uma ideia tentadora nesses momentos. Mas, minha mente tóxica e absurdamente lógica-otimista me diz que não vale a pena e é um ato covarde e egoísta.
O retorno de antigos hábitos como a automutilação também me assombram quando olho para minha pele, mas, novamente, a Larissa altiva e estupidamente adulta me olha com o olhar sério dela e me diz que tivemos muito trabalho para sair desse vício há alguns anos. Ela me explica que seria como jogar todo esse esforço fora e que só traria mais problemas e nenhuma solução.
Que, assim como o suicídio, é um ato covarde e egoísta.
E nada me resta senão concordar com ela e engolir as lágrimas de desespero que nunca param de cair. Reprimindo e reprimindo até que exploda.
Não me leve a mal. Ela está certa, mas a forma como ela trata certas situações torna difícil manter as coisas estáveis como eu gostaria que elas fossem. A forma como ela usa essa autoridade de adulta experiente para me dizer o que sentir, expressar e fazer não é saudável. Entretanto, eu me vejo caindo aos pedaços sob as palavras duras e olhares de decepção.
Eu me vejo sendo repreendida como uma criança que fez algo errado e sente a necessidade de agradar e fazer certo ao custo de tudo, até mesmo da própria sanidade mental e bem estar emocional. Tudo para agradar, para ser melhor, para performar mais esplendidamente. Não há espaço para recaídas ou erros aos olhos dela.
Mas, quando sem querer me encontro sangrando aos montes em cima de gente que nunca me cortou, eu lembro que sou apenas uma criança, ou adolescente se você preferir. A realidade de que só se passaram 15 anos de vida desde o meu nascimento cai sobre os meus ombros como um balde de água fria.
Às vezes, sinto que se passou uma eternidade, que já vivi o suficiente, que se morresse amanhã não sentiria arrependimento de nada. Eu me sinto amargurada demais para ser jovem e despreparada demais para ser adulta. Não me encaixo em lugar algum.
Céus, minha situação não é normal para início de conversa. Estou farta de falar e pensar sobre ela. Estou farta sobre tudo na minha vida girar em torno disso, mas ao mesmo tempo sinto que preciso desesperadamente de alguém — qualquer pessoa que seja — para me ouvir pacientemente e livre de julgamentos sobre essa maldita questão. Sobre minha vida.
Sobre o porquê não tirei minha vida ainda e o porquê esse pensamento me persegue há tanto tempo que se tornou uma companhia reconfortante através dos anos.
Vontade de gritar para o mundo o quanto eu gostaria de me libertar disso. Vontade de morrer.
Somente aqui eu posso dizer essas palavras sem sofrer a censura rígida da parte de mim que amadureceu rápido demais. É libertador o mesmo tanto que é deprimente.
Não tenho sido capaz de me reconhecer nesses últimos anos. Estive em constante mudança desde que me soube como gente, transformando, caindo e diluindo todos os dias. Meu corpo não pertence a mim às vezes, tudo parece estranho e sem sentido. Minha casa não é minha. Nada me pertence.
Me sinto um fantasma a maior parte do tempo, inconsciente da minha própria existência e somente vagando entre as horas e os minutos.
E, claro, claro, isso é clichê e não soa muito maturo. Eu tenho absoluta consciência disso, não tenha dúvidas. Mas eu também tenho a consciência de que não preciso soar matura. Por Saturno, eu não sou uma adulta. Eu não sou nenhuma pessoa experiente que tem a resposta para todos os meus problemas. Eu não sou perfeita. Eu sou uma criança.
Eu queria me sentir como uma, pelo menos. Mas o jeito que as pessoas me tratam e as circunstâncias não me permitem que isso seja dessa forma. Eu estou cansada.
Ter sido forçada a amadurecer antes da hora é mais uma maldição que uma benção a maior parte do tempo, como a sensação de que algo foi tomado à força de ti e você não tem escolha senão se conformar com os fatos. Ou morrer em negação.
No momento, estou aos prantos por estar me sentindo sufocada com o tanto de vezes que minha mãe me liga por dia para me cobrar por aquilo que fiz ou deixei de fazer, para me dar ordens e dizer que me ama inúmeras vezes somente para, na próxima crise de mania, ela me tratar como um fardo e fingir que eu não existo. Para ela poder dizer o quão boa mãe ela é, mas nem mesmo se importar sobre como as consequências dos atos dela podem afetar aos filhos e à família. E sou obrigada a agir como se “amasse” ela também e isso me mata por dentro.
Sinto vontade de morrer. Já disse isso muitas vezes nesse documento, mas é a ideia que mais me aparece em momentos como esse: quando minha garganta dói de tanto chorar e tudo machuca. Nada parece bom o suficiente e nada é capaz de dar um jeito nas minhas feridas emocionais a curto prazo.
Sou tão patética escrevendo dessa forma, como se esperasse que alguém fosse ler essas palavras e entendesse minha dor; que alguém se importasse genuinamente. Mas essa é a única coisa que diminui minha solidão angustiante do presente, e, infelizmente, essa é a única forma que me sinto confortável para desabafar já que a ideia de falar dessas coisas com outra pessoa me faz sentir mal.
Não quero dar trabalho. Não quero ser incômodo.
Não quero mostrar fraqueza.
E eu continuo repetindo o problema como se isso fosse resolvê-lo. Remoendo todos os pontos chaves na esperança de Saturno sabe lá o que. Ajuda, talvez? Mas, ao mesmo tempo, a sensação de que já tenho todos os materiais para lidar com esse problema em mãos e só me falta parar de ser infantil e covarde cresce. Eu odeio essa contradição. Como irei chegar em algum lugar correndo em círculos dessa forma?
Onde exatamente estou errando? Qual é a mentalidade terrível que necessita de mudança? Por que sinto que quanto mais tento achar uma causa e uma solução mais retorno ao ponto principal o qual julgo errado, o qual não me oferece nenhuma resposta e me deixa desamparada?
Será que meu problema é fácil e eu não consigo enxergá-lo da forma como ele realmente é porque estou com o julgamento afetado pelas minhas emoções cada vez mais incontroláveis?
Seria essa uma questão que parece impossível de se solucionar com o meu conhecimento de agora, mas se tornará clara e banal conforme eu for ganhando experiência?
Me deparei com outra parede a qual não consigo enxergar através e não posso passar sem ajuda, o que está me apavorando e tornando a imagem do meu corpo morto perante os portões da vida adulta cada vez mais real a cada dia que se passa? Como na última vez?
Eu não sei. Sendo genuinamente honesta, eu não faço a mínima ideia, porém, se alguém me fizesse alguma pergunta sobre isso, eu daria uma resposta elaborada cheia de possibilidades e alguma derivação de “eu irei resolver isso” ou “estarei melhor amanhã”. Como a máscara intirável de pessoa que tem tudo sobre controle e não precisa de ninguém que uso e me vejo incapaz de abandonar mesmo nos momentos em que estou a só e realmente necessito de alívio. Quando necessito respirar um pouco, colocar o que guardei para fora. É um problema.
(sem data, cerca de dois anos atrás).