um tom mais positivo, enfim, Lihuen.
Encontro-me com um sentimento estranho no peito. Uma coisinha quase doce, nostálgica e surpreendentemente afetuosa. Não tenho palavras exatas para explicar o que seja isso, apenas… Tive vontade de vir aqui e pressionar repetidamente as teclas desse dispositivo eletrônico. Falar com você.
Click-clack. Click-clack. Click-clack.
Eu falo demais, não acha, Lihuen? Posso dizer que, além de procrastinar, o hábito de escrever em demasia sempre me acompanhou desde que tenho algum nível de autoconsciência da minha existência. De maneira previsível, muitas vezes estruturo as minhas frases para possuírem o maior número de palavras possível, desnecessariamente longas e com pouco conteúdo relevante. É um hábito terrível, sem dúvidas. No entanto, é um passatempo que me provê uma espécie de liberdade: Essa capacidade de simplesmente soltar das restrições irracionais que coloco em cima de mim mesma, de deixar tudo o que quer sair para fora ter o destino desejado, independente do quão sem sentido e medíocre seja.
É, esta sou eu permitindo-me ser medíocre, encarando fixamente a tela de um computador e pensando sobre qual é o sentido de tudo e onde me encaixo nessa bagunça.
(Eu sei as respostas para esses dois questionamentos. Nada possui um sentido real e eu ocupo o mesmo espaço que todos os outros humanos, com as minhas respectivas relevâncias e irrelevâncias. Ainda assim, o desejo de perguntar novamente me traz até aqui antes que eu possa perceber. Ter conclusões não impede meu cérebro de tentar buscar novos caminhos, apesar da estrada ser sempre semelhante às suas predecessoras.)
Ainda estou tentando conter esses pensamentos autodepreciativos, Lihuen. Estou aqui para lembrar-me que está tudo bem estar insatisfeita com algumas coisas. Está tudo bem ter dias ruins onde você odeia a si mesmo e o mundo e quer desistir de se segurar as esperanças tolas de melhora. Está tudo bem admitir para si mesmo que os seus próprios pensamentos, em sua maioria, não são racionalmente planejados ou estão sob o seu total controle. Está tudo bem chorar. Está tudo bem reconhecer que alguns comportamentos autodestrutivos são difíceis de ir embora. Está tudo bem ser honesta e dizer que não estou me esforçando tanto quanto sinto que poderia. Está tudo bem apenas ser, assim como todos os outros.
O que não está tudo bem é ignorar todos os sinais positivos de aceitação, afeto, compreensão e desenvolvimento em prol de instigar crenças negativas irracionais. Eu não sou apenas os meus traumas. Há esperança para mim de levar uma vida saudável e de qualidade. Quando as coisas começam a sair do controle, devo me apoiar e não agredir-me psicológica e fisicamente — ainda estou me recuperando e o processo é lento, porém constante.
Muitas vezes, reabri feridas e dificultei propositalmente a minha melhora. Fiz-me chorar com as mesmas palavras que odiava ouvir saindo da boca de outras pessoas. Olhei para a minha pessoa com o desgosto de uma mãe que desaprova a forma como o próprio filho é — mesmo que, muitas vezes, isso não esteja sob o controle total dele; mesmo que o dever dela seja acolhê-lo e amá-lo. Eu não fui capaz de segurar essa violência contra mim mesma, pois precisava depositá-la em algum lugar e a ideia de fazer isso com outras pessoas me causava nojo.
Aprendi a bater, insultar, ferir e desprezar primeiro com os meus pais. As palavras eram a maior arma que eu poderia ter. Nunca hesitei em usá-las em mim mesma, ao contrário de usá-las em terceiros. Eram com elas que eu era capaz de entrar em contato com a minha própria mente, de comunicar-me, e, consequentemente, transmitir todo o tipo de ideia repetidamente até convencer-me da veracidade delas.
Aprendi a respeitar, amar, acolher e preservar com outras pessoas, fora do lugar que chamava de casa. Muitas vezes, apenas observando de fora as demonstrações como um ser intruso, não pertencente ao ambiente e manchado demais pela sujeira do seu local de origem. Eu tinha medo de tocar e transbordar coisas imundas em cima de tudo aquilo, de contaminar os outros com a minha tristeza e violência, com a minha dureza. Todas aquelas coisas eram tão delicadas e puras, tão vibrantes e diferentes daquilo que estava acostumada. Ninguém podia ver o quão estragada eu estava por dentro, mas eu queria tocar.
Eu queria tocar as outras pessoas e compartilhar do calor que tanto buscava. Eu queria ser vista, mas também queria esconder as partes feias de mim para não ser rejeitada. Queria me contentar em apenas observar de perto, mas não conseguia evitar de ter o desejo de fazer parte ativamente do cenário.
Antigamente, considerava isso um desejo egoísta. Atualmente, penso que isso é apenas um ser humano seguindo a própria natureza social. Se fosse outra pessoa no meu lugar, não hesitaria em acolhê-la, traumas e imperfeições, sem pestanejar. Então, por que tratar-me de forma diferente? Eu também mereço experienciar um toque gentil.
As figuras fora da minha bolha caseira mostraram-me uma gentileza a qual ficou marcada como um carimbo de brasa no meu ser. A cicatriz que ficou para trás é objeto de grande valor para mim. E, sem exceção, todas as vezes que me oferecem coisas boas é sempre a mesma sensação de estar sendo marcada a fogo. Dói, mas eu choro de alívio por estar sendo lembrada que existe mais do que o mundo cinza e violento que cresci dentro. Dói, mas o sofrimento é insignificante próximo da satisfação com a vida que me preenche.
Se eu choro às vezes por perceber que sou amada, é apenas porque lembro dos momentos em que me senti o ser mais não-amado do mundo e chorei por estar sozinha; porque percebo o quanto as coisas mudaram e como sou infinitamente mais feliz hoje. Como atualmente tenho as coisas que teria dado a vida para conseguir há alguns anos.
Porque, de certa forma, é um aviso: Está tudo bem, você pode soltar a sua melancolia e o seu ressentimento e se permitir aproveitar. É agora o momento que você desejou que chegasse. Respira, Larissa. Esse é o seu presente.
É o meu presente e a minha resiliência não foi em vão. A minha persistência em querer melhorar não é em vão. Vai ficar tudo bem, por mais que as coisas pareçam difíceis.
E, se não ficar, eu tive a chance de experimentar as coisas que fazem existir, com todas as suas contradições e desafios, valer a pena.