O Universo não entrega um único Sol
Sabe de uma coisa?, disse o Menino do Sol ao velho pescador que consertava a rede na beira da praia. Eu não sei como aguento tanta pressão assim.
O pescador ergueu os olhos, mas não falou nada. Só esperou, porque sabia que as palavras verdadeiras precisam de silêncio para nascer.
De dia, continuou o menino, tenho a reflexão de que meu propósito é sem dúvida a fotografia. Vejo a luz dançando nas ondas e sinto que nasci para guardá-la dentro de uma caixa pequena. À noite, sento-me debaixo das estrelas e escrevo; aí sei que sou escritor. Quando acordo, porém, não sei de mais nada. Fico ali, deitado, esperando a próxima reflexão como quem espera o vento mudar de direção.
O velho pescador assentiu devagar.
Hoje, falou o Menino do Sol, tive a sensação de que o propósito é apenas um despertar. Para alguns dura dez anos, para outros cem anos. Como ninguém chegou aos cem ainda, ninguém sabe que o propósito um dia irá acabar. Então a pessoa olha para o céu e diz, com toda a certeza do mundo: “Sou cantor, esse é o meu propósito.” E quando fala assim, dá uma sensação de vazio, né? Como se estivesse assinando um contrato com algo que já começou a morrer.
O pescador sorriu, mostrando os dentes queimados de sol.
Você já reparou no sucesso dos famosos?, perguntou o menino, quase sussurrando. Ele também tem um tempo de duração. Chega de repente, como um cometa, e vai embora do mesmo jeito. Quem fez o pé de meia, ótimo: dorme em paz. Quem não fez, vira história triste na boca dos outros. Apontam o dedo e dizem: “Ele não chegou lá.”
O velho pescador terminou de amarrar o nó da rede, levantou-se e pôs a mão no ombro do Menino do Sol.
Escuta, menino. O Universo não te deu um único Sol para carregar nos ombros a vida inteira. Ele te deu muitos sóis pequenos, um para cada manhã. Uns nascem vermelhos, outros dourados, alguns duram o dia inteiro, outros se apagam antes do meio-dia. A tua única tarefa é não prender nenhum deles com as mãos fechadas. Quando um sol se põe, agradece a luz que ele trouxe e abre as mãos para o próximo.
Porque “chegar lá” não é um lugar, menino. É aprender a dizer adeus a cada sol sem deixar que o coração vire noite.
O Menino do Sol olhou para o horizonte. Naquele exato momento, o céu inteiro parecia incendiar-se de laranja e rosa.
E percebeu que o velho tinha razão.
Naquele dia o seu propósito foi ouvir. Amanhã talvez fosse fotografar o mar. Depois de amanhã, quem sabe, escrever sobre os dois.
E em todos esses sóis, ele seria inteiro.
Porque inteiro, mesmo que por um único dia, já é eternidade suficiente para a alma de um menino que carrega o Sol dentro do peito.









