ainda não é amanhã
Nas últimas semanas meus dias estão um tanto quanto virados. O meu hoje avança no amanhã das horas certas. Os ontens se bagunçam um pouco já que quando fui dormir ontem já era hoje. E quando tem um despertador dizendo que já é amanhã, ele se perde na vontade de não saber que dia é hoje, ontem ou amanhã.
Mas assim seguimos. Dormir às 6h, acordar e tomar café da “manhã” às 14h, almoçar às 16h, jantar meia-noite… e às 3h da manhã? Auge da produtividade. Hoje (meu hoje), escrevendo. Outros dias, costurando, desenhando, trabalhando, sendo eu.
Ontem (meu ontem)… até que consegui dormir cedo, às 2h, uhu! Porque hoje eu tinha que acordar às 10h (santo sacrifício). Nem era por aqui que esse texto ia quando comecei a escrever, mas preciso contar essa :) Tive um sonho muito louco. Costumo ter sonhos mirabolantes e bem produzidos, devia escrevê-los aqui… nem sei se consigo… Mas então… sonho muito louco. Eu estava numa escola ou uma universidade cheia de gente, ia rolar um sarau no pátio e eu sentei lá no meio pra escutar, peguei meu celular pra colocar no silencioso e ele deu um tilt. Começou a vibrar sem parar, fazendo aquele barulho de silêncio barulhento que só os celulares sabem fazer, sabe? Sem parar. Vrummmmm vrummmmm vrummmm vrummmm. Eu tentei fazer de tudo, até desligado ele vibrava. Todo mundo me olhando já. Uma amiga tentava me ajudar e nada. Falaram pra eu dar o celular pra um senhor lá que ia saber arrumar. Falei com ele, ele falou um moooonte de coisa de sei lá o que, medi o tamanho do monte de coisa pelo desespero que aumentava em mim daquele vrummmmm vrummm vrummm vrummm vrummmm vrummmm que não parava. “Eu vou arrumar, mas você sabe que vai ter que me pagar, né?”. Jura? Quanto? “70 reais”. SETENTA reais!? (Mano, senhorzinho maluco, setenta contos pra fazer o celular parar de vibrar!?) Não, obrigada, eu mesma vou dar um jeito. “Tá bom, mas saiba que você vai tentar dormir agora com ele assim e não vai conseguir”. Aham, tchau (eu hein, cara doido…)! Fui andando pra saída e lá fora tinha dois caras vestidos de pinguim vrummmm vrummmm que nem os coitados de mickey vrummm vrummm vendendo algodão doce na praia, sabe? vrummm vrummm eles estavam vendendo a piauí vrummm vrummm vrummm vrummm sol, cama, edredon, gata, travesseiro, meu quarto vrummm vrummm vrummm dia, acordar, sono, hora vrummmm vrummm vrummm celular vrummm vrummm celular, meu celular vrummm vrummm ahh meu celular, despertador, vibrando, despertador tá tocando, 10h45, vibrando ahh tá tá acordei acordei! hahaha juro que a primeira coisa que pensei quando me dei conta do que tava acontecendo foi “ainda bem que não paguei 70 reais praquele senhorzinho!”, a segunda foi “pqp, esse treco ficou vibrando no meu ouvido por 45 minutos…” e a terceira enfim foi “tô atrasada!”.
Mas o que eu ia contar mesmo era outra coisa. Juro que vou tentar não pegar outra tangente e desviar pra outro assunto, mas agora que me entupi de açúcar comendo um monte de sucrilhos e minha mente tá a milhão, não garanto…
É um pouco engraçado estar deslocada no tempo nos atos cotidianos. Foi super estranho ver um cara pedindo uma cerveja bem gelada na padoca enquanto eu tomava café da manhã… às três da tarde. Em tempos de… é Copa do Mundo que chama, né?... nos dias em que o Brasil joga de manhã, tem sido louco acordar com um monte de gente gritando na rua e soltando fogos (valeu, time, por ganhar e só fazer gols no segundo tempo!). E foi bem divertido ir almoçar no Sesc Consolação às quatro da tarde, horário em que os senhores e senhoras do Sesc estão confraternizando nas mesas da comedoria.
Lá na comedoria do Sesc Consolação tem 3 fileiras de mesas, formando uns mesões que sempre rendem em escutar conversas das mais variadas e puxarem assunto com você involuntariamente. Tá sentado ali, tá disposto a conversar, é o que me parece. Sempre. Na primeira fileira, lotada, estava todo mundo vidrado no jogo que passava no telão. Na segunda, algumas senhoras, uns sucos de caixinha, travessa de salgadinho, um bolo, um senhor que ganhou vários presentes, uma senhora que deu pano de prato lembrancinha do nordeste pra todo mundo que chegava ali. Na última fileira, vazia, estava eu bem na pontinha almoçando, duas cadeiras pro lado tinha uma mulher tomando um café. De repente chegaram algumas senhoras e sentaram por ali, a mulher pediu pras senhoras olharem as coisas dela enquanto ela pegava açúcar, chegaram mais outras senhoras. “A gente pede pra mulher se ela não se incomodar de sentar na cadeira do lado e você senta aí”. A mulher ia sentar ao lado e aí chegaram mais outras senhoras. A mulher foi sentar em outra mesa. E lá estava eu, almoçando na pontinha da mesa e todas as outras… sei lá… 20 cadeiras ocupadas por esse grupo de senhoras. hahah sério, foi bem engraçado. foram muitas conversas aleatórias. lembro de pedaços de poucas.
“Tá quanto o jogo? Quem que tá jogando? Ah acho que é a Inglaterra”. É a Inglaterra e a Colômbia. “Ah isso. Tá… 0 a 0? (espremendo os olhos pra enxergar o placar)”. Isso, 0 a 0, 20min do segundo tempo. “Eu peguei um chá de erva cidreira, se eu tomar café agora eu não durmo. Ah eu também não, sabia?”. “Desculpa, rapidinho, só vou fazer uma ligação aqui, acho chato ficar pegando no celular assim na mesa, mas é que meu marido tá saindo agora do tribunal, preciso falar com ele (enquanto clicava no whatsapp, fechava o whatsapp, clicava no SMS, saía do SMS, clicava no telefone, ia parar na calculadora…). Ah é o amor dela, pra falar com o amor pode. Ele trabalha muito, já tá com 90 anos, nem sei como ele lembra dos processos todos que ele cuida. (clica aqui, clica ali). Ele tinha um caso muito importante hoje, preciso ligar pra ele me contar como foi. Vocês são muito parceiros, né? É bonito um amor assim. A mocinha (olhando pra mim, que estava nitidamente de butuca na conversa) tá se inspirando aqui, vai querer um assim pra ela. Ah isso mesmo, menina, tem que achar alguém bem companheiro. Você é muito bonita. Você frequenta esse Sesc? Frequentava, mas agora não tenho mais carteirinha. “Ah, que pena, foi ruim quando restringiram tanto, né? Que colar bonito. Olha que bonito o colar dela. A gente tava na aula e a gente gosta de se reunir depois pra conversar. Todo mês é uma que faz aniversário aí a gente traz bolo. Eu sou a mais nova, entrei a menos tempo. Tem a Fulana também. Ah é! Ela entrou comigo.” (não, aquela senhora não ligou pro marido) “Na época da guerra eles davam leite condensado, era bom, mandavam todo açúcar pra guerra daí só sobrava leite condensado pra gente. Você (olhando pra mim, que estava mega interessada no leite condensado) está com alguém aqui do grupo? Não, não, ela tava aqui já, a gente que invadiu o sossego dela” Eu tô adorando que vocês sentaram aqui, meu almoço ficou bem mais interessante. “Ela é uma querida, tem a mente saudável, né? Respeita os idosos, não são todos assim. Você tá almoçando só agora, menina? É bom comer aqui no Sesc, né? Daí eu pegava o leite condensado e…” (não lembro o resto dessa conversa… queria lembrar…) “Eu queria apagar um whatsapp, mas não sei como (a mesma senhora que clicava pra lá e pra cá), o Fulano faleceu, daí fica aqui aparecendo a conversa com ele, meio chato, né? É… melhor apagar mesmo, mas dá pra apagar?” A senhora quer que eu te diga como apaga? “Ah, mas você faria isso? Não quero te incomodar.” É um iPhone ou um Android? “Vixi, não sei (tirando o celular da bolsa), é esse aqui ó” (depois de subir e descer toda a lista de conversas duas vezes, achamos o falecido, apaguei… ela contou do que ele morreu, eu não me lembro) “Como ela é querida, né? Nossa, olha, tão fácil, agora vou apagar todos que não preciso mais” (catei as ultimas mandioquinhas da minha cumbuca de salada, rapei o prato do meu sanduba) Licença, meninas, obrigada pela companhia! “Tchau, querida! Foi um prazer! Olha a fulana levando tudo… você devia experimentar fazer, é um ótimo lanche pra quando você chegar em casa e não quer cozinhar muito… Já tá na hora da sua outra aula?…”.
06h02 agora. hora de colocar uma música calminha, fechar a janela, as cortinas e o blecaute (obrigada, mamis, pela escuridão alcançada!) e terminar o meu hoje já no amanhã de vocês que é na verdade hoje e eu que estou no ontem… sei lá… enfim, boa noite! Quer dizer… bom dia :)










