-Mais uma história de amor. - pensei enquanto todos da sala aplaudiam, e Lana voltava ao seu lugar. Era meio da manhã e toda sala estava indo à frente, um a um para ler suas redações profundas. Professor Tim propôs, uma semana antes, de darmos um break em dissertações e interpretações de textos, e veio com o tema: "Falem do amor no coração ou imaginação de vocês, sentimentos verdadeiros ou inventados, falem de amor". Gelei. E ali, agora, era o tão esperado dia! Eu não queria parecer insensível àquilo tudo, mas uma parte de mim, estava muito mais interessado em focar nos temas possíveis para os vestibulares do ano que vem, do que... Aquilo tudo ali. Mas toda sala estava expondo seu coração como se estivessem todos presos dentro de si mesmos, até que agora tinham encontrado uma saída: a aula de redação. Realmente me fizeram pensar: "Somos a geração que tem de tudo, mas quer mais amor; dos que não foram criados para 'nunca voltarmos chorando ou sangrando para casa', mas a geração que grita com os pais e chora com os amigos virtuais."
-Tá se achando melhor que ela, Léo?
-Oi? - Parecia que Natan estava interrompendo meus pensamentos arrogantes.
-Você está fazendo uma cara horrível...
-Não, cara. Tô meio cansado desse tema...
-Logo é a sua vez.
-Quando o Tim perguntar se eu quero ler, eu vou dizer que não.
-Não quer expor seu coração? – Natan dizia isso com uma voz melosa, enquanto falhava absurdamente em sussurrar, era o intervalo entre a Lana e eu, o próximo da chamada, tempo curto em que o professor aproveitava para recolher a redação e fazer algumas anotações. Queria rir de Natan, mas estava numa mistura de 'estou achando engraçado' e 'está chegando minha vez, que droga'.
-Leonardo! Pode vir à frente, amigão, sua vez. Vou te dar a chance de não poder recusar a leitura. - disse Tim.
-Não, Tim, não faz isso, cara.
-Pode vir! Rápido e indolor.
Me levantei, caminhei até a frente da turma e estava colocando minha folha como uma discreta barreira entre mim e Vanessa, na primeira carteira, mas ainda com o rosto visível para os demais. Respirei fundo.
"7 seg
Por toda vida eu pensei que sabia muito de mim e das pessoas ao meu redor, sempre me olhei de uma perspectiva de infinitas capacidades e possibilidades. Um cara de 16 anos que não tem muito tempo de vida, e menos tempo ainda que reflete sobre alguma coisa.
Mas agora, por talvez uns sete segundos, eu estava me sentindo um verdadeiro lixo. Sem nenhuma moral, sem nenhum prestígio, sem valor, sem apreço. É terrível ser o segundo lugar no coração de alguém, ter a plena convicção de que não é o escolhido, de que é substituível, e que seu substituto é melhor que você, e está caminhando para titularidade.
Sei que existem dores muito maiores e piores do que a minha, mas durante este pequeno tempo em que minha mente viajou completamente para dentro de si mesma, eu era o protagonista de tudo que existia, e ainda assim, um perdedor. Acho que é uma das perdas mais bonitas, considerando a quantidade de lindas músicas de amor existentes baseado em situações de dor como a minha. Mas ainda dói. É uma perda poética considerando a literatura, a poesia, as bibliotecas e livrarias. Mas ainda machuca.
Por sete segundos eu tive a pior dor do mundo, e pensei estar perdendo o meu mundo vendo você ir embora, mas agora, eu sei que posso seguir sozinho por muitos segundos, minutos, semanas e anos. Segundo a segundo. Resistindo, crescendo, voltando meus olhos para dores maiores que não são as minhas, me compadecendo, me importando, suportando, superando, caminhando, e amando. Amando você, ainda que de outra maneira, ainda que depois do ódio e da raiva, mas aprendendo a amar sem possuir, tendo boas lembranças. É um bom plano que funciona na teoria da minha mente, mas enquanto penso com esperança no momento de alívio depois da dor, ainda dói, muito. E saiba que a dor é você, hoje e agora, mas a partir do oitavo segundo, fora da minha mente, a alegria será um futuro comigo mesmo!"
Também ganhei aplausos. A esta altura da chamada, eram aplausos rápidos, os autores dos melhores textos ganhavam mais palmas, mas textos como o meu, ficavam com o padrão, embora Natan tenha tentado me dar uma moral, assoviando para mim. Vanessa olhava para mim com um sorriso fechado. Caminhei para minha carteira como quem estava bem tranquilo com todo o cenário. Mas, honestamente, é terrível ter sua ex namorada na primeira fileira, sentada, te olhando enquanto você interpreta seus sentimentos na frente de todos. Vanessa era, com certeza, todas as minhas emoções naquele texto, mas talvez ela não se identificasse diretamente com ele, eu retratei tudo que eu sentia, num contexto modificado. Terminamos há 2 meses, não porque ela tinha me traído ou me trocado, ou algo assim, como dava a entender o texto, mas porque não estava mais dando certo. Eu queria mesmo uma maneira de não ouvir ela dizer, após ouvir minha leitura: “Caramba! Ele não superou mesmo!”, então floriei, dei a entender outra situação, outra coisa, mas no fundo, eu acredito que eu temia mesmo que ela encontrasse alguém melhor do que eu.
Nossa última conversa foi muito difícil para mim. Sério! Eu não queria terminar com ela. Eu queria brigar se fosse preciso brigar, eu queria dar um tempo se fosse melhor dar um tempo, mas eu não queria terminar, nunca. E a frase que eu mais disse depois do término foi, para todo mundo: “terminou tudo bem”. Mas nós dois termos saído daquela cafeteria chorando, abraçados como amigos, para mim não era um sinal de que estava tudo bem, era um sinal de que estava muito difícil ficar tudo bem. Mas, eu não sabia me expressar. Essa sempre foi uma dificuldade, e estava sendo mais uma vez, na aula de redação: me expressar honestamente. Enquanto estávamos sentados ainda na cafeteria, de frente um para o outro, com duas xícaras vazias, eu falei um pouco que queria que desse mais certo, que nosso relacionamento estava preocupando nossos pais e nossos amigos, estava chateado com a postura dela em relação á mim naquele dia, distante... Depois ouvi dela, e concordei com ela em muitas coisas. E eu estava tão envolvido, tão apegado, tão apaixonado, que ela ia trazendo à tona situações e a perspectiva que ela tinha de cada coisa, e eu me pegava um tanto surpreso porque, sim, eu tinha visto, mas eu não tinha visto como um problema: "nós temos brigado demais", "acho que a gente não está se respeitando, considerando as falhas e necessidades um do outro, só estamos nos atropelando com esse relacionamento, cobrando e exigindo muito um do outro" e deixei ela expor o coração dela, e fiz o papel, mais uma vez, de garoto compreensível, mas, como um típico garoto, "não tão emocional". Que se dane este conceito! Eu tenho emoções! Eu tinha muitas emoções, e estar naquela aula, vendo todos expressarem tanto suas emoções de forma tão intensa, estava me deixando irritado, cansado e incomodado. Estava trazendo à tona uma verdade sobre mim: eu estava sentindo muitas coisas, e não tinha superado. Eu me sentia dispensável, parte do namoro que não valia à pena insistir, substituível, sim.
Antes daquela aula, pensando no tema proposto, só vinha em minha cabeça: última ligação com a Van, última ligação com a Van... Depois de toda aquela última profunda conversa com Vanessa, depois de termos saído chorando, depois de eu chegar em casa e chorar mais, eu queria muito ligar para ela, naquela mesma noite. E liguei. E ela atendeu com uma voz de choro:
-Oi, Léo...
-Van, eu amo muito muito muito você!
E desliguei. Sabe quantos segundos durou aquela ligação?