30/12/1992,
"Querido Pedro, confesso que fiquei surpresa com sua carta, depois de tanto tempo, não esperava ter notícias suas. Estou feliz que escreveu e mais ainda por saber o rumo que a sua vida tomou. A vida sempre esteve complicada, para nós dois.
Me emocionei com a história que me contou. Os bares sempre carregam histórias intensas e cheias de emoções, talvez seja por isso que sempre te vi como dono de um. Lembro do seu fascínio por saber o que cada ser humano carrega em seu peito, o fascínio por saber onde cada ser humano poderia nos levar, saber a loucura que cada um carrega dentro de si.
Então, Pedro, como a garota no seu bar, estou te escrevendo para contar a minha história, aquela do que aconteceu depois que abandonei o amor da minha vida no nosso apartamento. Pegue um copo do seu whisky mais forte e sente-se, não será fácil ler essa história, assim como não foi fácil vive-la.
Aquela noite é como um borrão pra mim, tudo aconteceu tão rápido que quando me dei conta, já era tarde. Eu tava deitada na cama daquele motel da esquina, no quarto que sempre pedíamos quando íamos lá. Estava abraçada ao celular, esperando uma ligação sua e torcendo para que não ligasse, apenas entrasse por aquela porta, me implorando para voltar, como tinha acontecido por diversas vezes. Mas daquela vez foi diferente, não aconteceu. Vc não entrou por aquela porta e muito menos ligou. O tempo havia sido cruel com a gente e só naquele momento eu percebi, não era mais uma de nossas brigas, tínhamos chegado ao fim. Vc não iria me buscar e eu não voltaria para vc. Foi então que chorei, chorei como se tal ato fosse te trazer para mim, como se cada lágrima fosse mágica e fizesse o tempo voltar, como se chorar fosse o suficiente para que eu engolisse mais uma vez todas as suas desculpas esfarrapadas, tudo se consertasse e eu não tivesse que ir. Chorei até dormir e quando acordei minha primeira sensação foi de tudo aquilo ser um terrível pesadelo. Então veio a dor, não tinha sido um pesadelo. Era real, eu te deixei. Quis tanto te ligar e até tentei, disquei diversas vezes o seu número, mas não consegui. Eu não podia ouvir sua voz, Pedro. Não podia te ouvir implorar para que eu voltasse. Não podia ter mais um pouco de vc. Então arrumei as coisas e parti, precisei ir para outra cidade, outro lugar longe de ti.
Hoje moro em uma casa com um lindo jardim, tenho um cachorro e todas as noites antes de dormir ainda choro a msm dor de quando parti..
De alguem que (nunca) te deixou.."