e por você eu largo tudo…
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e por você eu largo tudo…
Quem é vivo sempre aparece Meio morto nessa terra onde Ser invisível é rotineiro.
130
tão cheia de si, tão vazia dele! tão cheio de si, tão vazio dela!
luis costa - nº 130
Acabei de me sentar a frente da minha escrivaninha, abri meu notebook sem saber muito bem qual a intenção, depois de pensar por um breve momento abri meu tumblr. Uma memória inevitável me ocorreu, doze anos atrás eu estava no mesmo quarto que estou agora, na mesma posição com meu computador aberto navegando entre facebook, tumblr e twitter. Era uma adolescente cheia de sonhos, de amigos, de expectativas, de esperanças. Agora aqui estou eu alguns anos mais velha com pouco ou nenhum sonho, frustrada com o tempo que passou e sem nenhuma esperança. Parece que o mundo girou e eu fiquei aqui, estagnada. Cometi os mesmos erros tantas vezes, vi minha vida se repetir dia após dia nessa mesma casa sem saber se um dia sairei daqui ou se terminarei meus dias da mesma forma que comecei... sem saber o que estou fazendo, desperdiçando minha juventude. O peito apertou, como não apertaria? Tenho vontade de chorar, mas já nem sei ao certo o porque. Não sei se é medo do futuro ou de não existir um futuro, medo de viver esse looping infinito de nadas.
C. Borges
Sabe, meu bem
O mundo não é um moinho Tampouco bom Mas é grande e ao mesmo tempo Tão pequeno pra eu te encontrar
Talvez eu devesse me afastar Dizem que é de longe Que a gente analisa melhor Talvez seja melhor analisar
Sabe, meu bem O mundo é um canteiro No fundo do quintal De um universo em quarteirões
E eu jurava que precisaria Com muita rapidez me afastar Porque gradualmente As coisas acontecem
E antes que eu, que luto contra o sono Assim, de bom grado, me entregue Eu vou me afastar Pra não me machucar
Assim, devagarzinho Vou mudando meu rumo Tomando outro caminho Pra não me apaixonar.
Eu poderia escolher a vida ao seu lado
Ver empoeirar os livros na tua biblioteca particular No espaço umbroso dedicado aos teus devaneios e poemas excêntricos Eu poderia admirar as marcas formarem-se no teu rosto de semblante sereno e apático sobre o café morno que lhe fiz
Eu poderia fincar raízes em você Como as roseiras que cuida com amabilidade e suor Como quem cuida do pequeno que logo há de crescer e deixar-nos Para trilhar desmesurável caminho
Eu poderia apreciar a passagem do tempo Como quem carreia vida a diante sem pressa E como quem pesa quando lhe convém passar apressurado Enquanto discutíamos filosofias mil E discordávamos de compositores aos risos
Poderia apaixonar-me pelo olhar feroz e palavras que salteiam como pragas egípcias rumo as falácias jornalísticas sobre a classe trabalhadora Apaixonar-me pelo cenho franzido e a revolta fervilhando na alma Tal qual os jovens tidos como revolucionários de um milhão na rua
Eu poderia envolvê-lo em meus braços Ouvindo-o praguejar sobre a religião, sobre o cosmos, magia facista, mídia tendenciosa E desejar os teus lábios silenciosos nos meus E a ebulição dos nossos corpos Com a mesma intensidade de nossas militâncias juvenis, vozes que açoitam prazerosamente o silêncio. Abraços eternos dentro das horas findáveis.
Eu poderia amá-lo E ver crescer-lhes rugas E os anéis nos cabelos teus perderem-se no infinito. Ver nossa pele doar o brilho aos olhos, que ainda sonhariam utopicamente com um não tenebroso amanhã Suspenso como um quadro Na paisagem veraneia de nossa sala de estar Presenteadas de latidos de um par de cachorros moribundos rodeando o quintal e beliscando nas roseiras que plantaste.
Poderia ali talvez Numa noite debruçada sobre teu peito morno E num dia tão desacreditado Despedir-me de tu e da vida que me deste, tão verdadeiramente entregue E descansar em algum lugar do qual você não faça ideia que exista
Eu poderia escolher estar ao teu lado Mas tu cegamente ama embalar-se a ermos dias Como quem embriaga-se de solidão Gotejando amores efêmeros Enquanto te vejo, da janela do quinto andar As sete da manhã, arrastar teu desapego pela avenida rumo A outro dia cinza-morto Enquanto outro alguém Me prepara o café.
We're only of us
Quando a música começa a tocar E você me dedilha o corpo Mesmo que não saiba uma nota sequer Ou o que seja bemol, sustenido ou sétima
Somos só nós Na escuridão da noite E dos dias cinzentos Quando tudo é tempestade Apenas nós dois Quando o caos se instala E tudo parece não ter ordem Desequilibrando minha sistematização
Só nós, depois da tua impaciência com o mundo Esbravejando sobre consumismo Praguejando burgueses safados Planejando a nosso canteiro Imaginando a vida Discutir na cama sobre mensalidades De colégios e crianças que não tivemos Amores que não decoraram paredes Só nós, na nossa infinidade particular No nosso desarranjo emocional Que enfeita bem a parede da sala Naquela foto em que lhe dei um sim.
Passagem
A cidade em tons de cinza A vejo passar, a colorir Arranha-céus Arranhando a alma
Espelhos por todas as janelas São da alma olhos Eu poderia lhe compor poemas Mas talvez eu já não esteja tão sóbrio
Mas daqui te olho Um ponto em vermelho, imponente na multidão A arte não ousaria imitar a vida pra não lhe plagiar
Eu já me via num futuro Ao ver desfilar poucas roupas Numa casa de interior Ao som dos teus engenheiros
Num fim de tarde, discutir política Ouvir Buarque, tomar cervejas Te escrever poesias Enquanto lê os livros de literatura na minha estante
Dedicar-lhe minha devoção E todo meu apreço Ao ver brotar rugas no teu rosto Enquanto esqueço coisas banais
Rezando aos deuses Que me conservem mais Uns 50 anos ao teu lado Ou o suficiente para amá-la como se fosse eterno
Dois adultos com teu sorriso nos trazem flores Pra lembrar o dia em que Escolhi dedicar-me a esta Pacata e longa vida ao teu lado
E então poderei descansar Levando a vida tranquila comigo E uma pausa pro cheiro do café Mãos que me abraçam
Você atravessa a faixa de pedestres E eu a deixo levar consigo meus sonhos Enquanto mãos frias me tocam o peito Com ar de vazio
E é certo que nem saiba O quanto gosto de você.