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e por você eu largo tudo…
Eu sou boa demais, eles dizem. Sou incrível e outras várias qualidades, uma garota que merece coisas maravilhosas. Mas ninguém nunca fica! Tem horas que eu queria ser boa só o suficiente.
— Recordancias, por C. Borges.
Acabei de me sentar a frente da minha escrivaninha, abri meu notebook sem saber muito bem qual a intenção, depois de pensar por um breve momento abri meu tumblr. Uma memória inevitável me ocorreu, doze anos atrás eu estava no mesmo quarto que estou agora, na mesma posição com meu computador aberto navegando entre facebook, tumblr e twitter. Era uma adolescente cheia de sonhos, de amigos, de expectativas, de esperanças. Agora aqui estou eu alguns anos mais velha com pouco ou nenhum sonho, frustrada com o tempo que passou e sem nenhuma esperança. Parece que o mundo girou e eu fiquei aqui, estagnada. Cometi os mesmos erros tantas vezes, vi minha vida se repetir dia após dia nessa mesma casa sem saber se um dia sairei daqui ou se terminarei meus dias da mesma forma que comecei... sem saber o que estou fazendo, desperdiçando minha juventude. O peito apertou, como não apertaria? Tenho vontade de chorar, mas já nem sei ao certo o porque. Não sei se é medo do futuro ou de não existir um futuro, medo de viver esse looping infinito de nadas.
C. Borges
Estive pensando tanto mas não sei em que, muitas coisas parecem estar acontecendo em contraste com o nada gigante que se afunila na minha cabeça. Me sinto sem perspectiva, não entendo quem eu sou, o que eu quero e nem sei do que eu gosto, se me perguntar agora qual minha comida favorita não terei o que dizer. Qual filme me encantou mais na ultima década? Qual livro eu li e que mais gostei nos últimos anos? Quando fiz algo por mim de verdade pela última vez? Meu animal, meu sorvete, minha estação do ano, meu cantor, meu hobbie, nada disso tem resposta, sou uma completa desconhecida olhando no espelho. Nem meu corpo eu pareço conhecer, meu rosto parece familiar e completamente diferente ao mesmo tempo. Tenho medo das consequências que podem surgir de conviver com uma estranha...
— Recordancias
Tenho pensado tanto nesses últimos meses em como minha vida virou de cabeça para baixo tão de repente, como te amei e te odiei na mesma intensidade em tão pouco tempo. Te conheço a tanto tempo e ainda sim não sei quem você é. E quem vamos culpar por isso, o destino? O passar do tempo? Nossos sonhos e planos? Não, hoje não vamos culpar ninguém, não há culpa. Você veio e se foi e quantas pessoas não chegam e vão embora todos os dias? Você foi só mais uma dessas pessoas passageiras, o problema é que dessa vez eu queria que alguém ficasse, queria que você ficasse. Deve ser por isso que penso tanto sobre tudo, porque de certa maneira você ficou. Segue ocupando meus pensamentos, segue roubando meu sono a noite, segue atormentando meus passos, segue atrasando meu futuro e por mais que eu te quisesse aqui você não foi capaz de ficar e por mais que isso seja triste, não importa mais... você se foi e eu também preciso ir!
Tudo tem ficado para depois, se houvesse uma retrospectiva da palavra que mais usei esse ano com certeza ‘depois’ estaria entre as primeiras. Depois eu vejo, depois eu ouço, depois eu como, depois eu faço, depois eu arrumo, depois eu procuro, depois eu penso nisso… e de depois em depois o ano se foi e muita coisa ficou sem fazer, sem ver, sem arrumar. Isso me deixa triste porque sou eu que está ficando para trás, sou eu que estou deixando minha vida para depois. Não uso as roupas que compro porque vou usar depois, não escrevo no meu caderninho novo porque vou escrever depois, não vou ao lugar que inaugurou recentemente porque vou depois. Nem sei se o depois existe e talvez seja por isso que eu deixo tudo por conta dele, porque talvez inconscientemente eu espero que ele não exista e não precise fazer nada do que disse que faria depois.
— Recordancias
Eu já perdi as contas de quantas vezes chorei me sentindo insuficiente e hoje é só mais uma dessas noites em que o peito aperta, a garganta fecha e as lagrimas escorrem quentes pelos olhos. Olho em volta e está tudo no lugar, todo o quarto segue imóvel, uma música toca ao fundo e faz latejar a cabeça. Lá fora faz frio, mas aqui dentro o ar parece pesar uma tonelada. Eu desejei tanto não me sentir assim nunca mais, mas o sentimento sempre recai sobre mim como um abraço mórbido. Tem tempo que não encontro paz no viver, que os dias tem passado de qualquer jeito se arrastando pelo tique-taque do relógio. Manhãs, tardes e noites que não fazem sentido como se viver já não fosse algo que eu faça, tenho apenas existido. E sempre ao fim de mais um dia tudo cai sobre meus ombros, a imensa fúria com a qual a vida se joga sobre nós não importando se aguentamos ou não.
— Recordancias
Ano passado eu me apaixonei, eu nem sabia mais como era. Não lembrava do desespero, as borboletas, a ansiedade, o comichão e foi tudo tão espontâneo. Não deu em nada, foi dessas paixões que te arrebatam, mas passam rápido. Mas isso me fez lembrar que estou viva, que meu coração pulsa no peito, que o desejo corre vivo nas veias. Eu nasci para amar, nasci para as paixões, para o desejo. Eu nasci para me entregar de coração, alma, corpo e espírito. Não sirvo para o morno, o meio termo, o medo, pois mesmo quando ele existe ainda sim, não impede que eu queime, que eu arda!
— C. Borges
(recordancias)