PQP
(nota: todos os meus “u”s que deveriam ter acento não o terão, pois a tecla quebrou e sou mt preguiçoso pra ficar usado o teclado manual).
Estou extremamente aflito com a seguinte questão: é possível desejar alguma intervenção cirurgica, no que diz respeito ao gênero, sem sofrimento? No meu caso, a mastec.
Venho pensando nisso porque me digo fora da lógica binária de gênero. Da lógica binária como um todo. Não me entendo como um homem. Na verdade, não me entendo como alguma coisa. Mas, como preciso ser alguma coisa nessa culturinha, beleza: homem. Super tranquilo (cof cof). Esse lugar de homem trans é o que mais se encaixa em mim, seja lá o que “mim” signifique no conjunto.
Pois bem: me perguntaram ontem: ah, bubu, então se você não se vê como um homem e diz ter “dessignificado” ou “desgenerificado” o corpo, por que você ainda quer fazer a ciru, ou tomar hormônios, ou se chamar bruno até?? Se nome não tem gênero (na minha lógica de agora), eu bem que poderia ficar com meu antigo nome de registro e dizer “foda-se, não tem significado mesmo então...” e ficar feliz. Mas eu só quis mudar meu nome pelo impacto que ele tinha no social, isto é, o caráter “feminino” dele. Ou, ainda, por que tirar os peitos se, a princípio, eles não significam nada?
Eu pego as pessoas que fazem modificações corporais “extremas” (no sentido de chocar as pessoas além da conta). O caráter “extremo” delas é dada de fora, assim como o caráter feminino e masculino do meu peitoral. Pretendo fazer algumas dessas modificações, além da mastec. Tenho bastante interesse em escarificações, mas o din não me permite nada por agora. Bom, o que penso sobre essas modificações é que: as pessoas que as fazer querem o quê da cultura?
Eu, fazendo a mastec, quero (na lógica da pessoa que me questionou) encaixar no padrão de “masculinidade”. Para ser mais exato, quero me sentir “completo” enquanto um homem. Embora eu não me entenda como um homem, esses simbolismos podem estar incrustados na minha autoimagem, ainda que eu não veja, nos outros, esses símbolos. Não vejo uma barba e penso “homem”, nem seios e penso “mulher”. Simplesmente são partes do corpo. E escrevo isso com a maior sinceridade. Então o que me move?
Será que tudo o que eu faço gira em torno da cultura? E as pessoas que bifurcam a língua, elas querem realmente CHOCAR a cultura? Ou as pessoas, que se sentem chocadas, colocam esse sentido no que elas tão fazendo pois, sem isso, não haveria sentido pra elas? Exatamente porque viver com uma pessoa que bifurcou a língua é chocante além da conta, e viver com uma pessoa sem tetas (e que “deveria” tê-las) fode com a lógica delas.
Além disso, e todas as modificações que as pessoas cis/não-trans fazem? É engraçado dizer que nós reiteramos um cistema normativo quando o modelo não é transnormativo...
Enfim, esse é o meu questionamento. Na real, se a gente for ainda mais fundo, vamos chegar à grande crise existencial: por que fazemos tudo o que fazemos? Quanto de “autonomia” temos no meio da cultura? Fazemos o que fazemos porque realmente queremos ou porque nossos desejos são instituídos? Beleza, não tem desejo sem linguagem e linguagem é cultura. Ok. Então a cultura faz o desejo. Entendi.
MAS PORRA. Algumas coisas muito avessas à cultura não fecham nessa lógica (tipo as outras modificações “extremas”, tanto as que já fiz quanto as que almejo). E aí a galera diz que eu as desejo pra “chocar” ou “ser diferentão”. Estranho que eu não sinto isso dentro de mim (então é tudo inconsciente e freud tem razão. Mas chega disso).
Aceito ajuda.









