Aí vindes outra vez, inquietas sombras.
Fausto deu à Sofia a citação da sua vida.
As festas, as luzes, as bebidas, as pessoas. Todos os fatores enviados pelo mundo para impedir que ela voltasse àqueles quatro dias. Aqueles quatro dias em que Sofia sonhou sem parar.
Os monstros tinham sumido. Quem sabe eles tenham parado de correr atrás dela e agora tomam um solzinho na piscina. A música no lado de dentro da casa não para, o boom boom faz tremer as paredes. São todos jovens, não se importam com isso – quanto mais alto, melhor. E assim foram os três últimos anos na vida da aniversariante. Ninguém ali a conhecia ou se importava com Sofia, evidentemente. Fugir da festa que lhe esperava em casa havia sido o primeiro passo automático e animador dessas vinte e quatro horas que assemelhavam-se a mais um outro dia regido a álcool, drogas e sexo. Só porque ela faz dezesseis anos hoje não significa que sua rotina tem que mudar.
O teto estava rachando. Sem dúvida os monstros tentando assustá-la. Não aconteceria hoje. Sofia tomou todas as precauções para se proteger deles. Precauções guardadas no armário de remédios da sua mãe, dentro de um frasco laranja sem etiqueta. E eram as melhores precauções já tomadas por Sofia.
Passos embriagados até a mesa de bebidas. Um cara lhe toma nos braços, tão romântico. "Te salvei." Ele tem um lindo sorriso. E um lindo quarto também. Sofia não faz ideia se aquele é o quarto dele. Ou se ainda está na mesma casa de um piscar de olhos atrás.
Ela então vai embora. O show já tinha acabado e nem valeu a pena. E a sua mente de menina diabólica queria saber o que seu adorável pai pensaria se, ao invés de usando um lindo vestido de princesa, ela aparecesse com uma garrafa de Jack Daniel's nas mãos e faltando um tênis!? Os convidados todos lhe aplaudiriam por sua coragem. Até os monstros. Eles estariam na festa dela, não é? Sofia sempre podia contar com a presença deles.
Arrastada pela mão severa de Charles, ele fecha com violência a porta da biblioteca. Papai se acha tão culto por causa dessa biblioteca. Idiota. Ele toca seu rosto, Sofia não sente nada. O efeito das pílulas parece ficar mais forte ao invés de diminuir. Ou ela reforçou a dose no caminho para casa? O pai lhe bate de novo. Hora errada para ter uma crise de risos? Ela cai no chão, ainda sem conseguir sentir o que ele queria expressar. A mãe entra aos prantos e segura a mão dele impedindo mais um tapa. No chão jaz o frasco pela metade com o remedinho da mãe. Sofia é mais rápida, apesar do peso que os seus braços tem agora. Apanha o frasco e cambaleia até o quarto, trancando-se lá para sempre. Uns minutinhos se passam com os seus pais tentando convencê-la de abrir a porta, mas ela não os ouve. Só o "quando ela parar de ser mimada, abrirá a porta" do pai.
No banheiro a saída está espalhada em várias capsulas pelo chão. Ela engole uma, duas, três. Sete? Ninguém mais se importa.
Terminou o resto do uísque e jogou a garrafa pela janela do quarto, acertando um dos carros do pai. Ops. Estendeu-se pela cama assistindo a renda na cobertura do dossel balançar como um espectro. Tudo estava pesado. Sofia nunca se deu conta de quão incômodos são seus cílios.
Ela estava irritada; parada por muito tempo. Tinha as mãos e as pernas atadas por cordas. Um dos monstros conseguiu aprisioná-la. Sozinha num quarto escuro, escutava só vozes distantes. Eram quatro. Um deles disse que ela ficaria ali para sempre. Que exagerou dessa vez. Do que ele está falando? Outro dizia que uma vez que a luz chegasse, tudo ficaria bem. Os outros dois concordavam ou discordavam com murmúrios. A boca dela tinha gosto de nada.
Viu Warrior ao abrir os olhos. Era noite.
"Hospital. Muitas pílulas. Você apagou total por quatro dias, guria. Bem vinda de volta." Ele tinha que ir embora. Os pais dela apareceriam ali e, do mesmo jeito que a garrafa de JD, ele seria convidado a se retirar pela janela. Como se lendo a mente dela, ele se foi. Abriu os olhos de novo e estava no mesmo quarto. Seus pulsos estavam presos como da vez em que ela perdeu o controle com o canivete. Seu pai tinha uma expressão impassível no rosto, os braços cruzados por cima daquele terno idiota.
Foi um ano difícil. Aulas privadas, nada de ver o lado de fora da casa. No começo a segurança era tão forte que Sofia realmente não conseguiu fugir. Achando que ela tinha parado de tentar, o pai diminuiu a vigilância e fez surgir uma brecha. Melhor com hora para voltar pra casa do que não poder sair, se conformava.
Agora estava correndo pelo campus da sua nova escola com uma dor excruciante mas que passaria logo.
Ela não notava mais o cheiro de metal enferrujado que a perseguiu durante a fuga. Estava a final nos braços de Warrior e com o ar gelado da madrugada lhe arranhando rosto, Sofia achava que estava livre como não era há muito tempo. Adeus, Spring Art.