CARTA NÚMERO UM
Querida irmã,
Eu gostaria que você entendesse a importância em acreditar em você mesma. Eu gostaria que, quando um problema surgir, a primeira pessoa que você procure para pedir um conselho ou uma solução, seja você mesma. Eu gostaria que você entendesse que às vezes as coisas são difíceis, mas você não deve se vender baixo por isso. Seu valor é enorme; você é forte, inteligente, intuitiva, resistente, linda e não há absolutamente nada de errado com você. Você não precisa mudar por ele, por ela, por quem quer que esteja te olhando estranho por você ser quem você é. Você não precisa ceifar sua liberdade sexual porque alguém te chamou de “puta”, o que há de errado em fazer sexo? O que há de errado em usar saia curta? O que há de errado em usar batom vermelho todos os dias? O que há de errado em flertar?
O que há de errado em acreditar em você mesma? Em ter uma ótima autoestima e se achar gostosa pra caralho? Em achar que você tem uma mente brilhante? Em achar que você tem um puta talento? Em achar que você faz as coisas bem feitas? QUAL É O PROBLEMA EM SABER QUE VOCÊ É BOA, E NÃO PRECISAR QUE NINGUÉM TE DIGA ISSO?
Saber do seu potencial é ser metida? É ser arrogante? É ser “mandona” ou “boçal”? É ser puta? Ir conquistar o que eu quero, porque eu sei que eu consigo, é ser puta? Vaca? Vadia? Vagabunda? Meretriz? Dada? Fácil? Biscate? Não tenha medo em buscar o que você quer, e perseguir isso incansavelmente. Não deixe ninguém te parar. A sociedade tem essa tendência de olhar para mulheres que sabem o que quer como se fosse algo ruim.
Sabe porque? Eu te digo. Quando uma mulher obstinada coloca algo na cabeça, ela vai conseguir, e nem sempre isso é bom para o sistema patriarcal em que vivemos. Acorda, Alice, você não está no País das Maravilhas. Você vai precisar enfrentar machismo, irmã, e nem sempre ele vai vir de homens. Ele vai dizer que você só pode ser ambiciosa até certo ponto, que você só pode ser chefe até determinado cargo, que você só pode ser bem sucedida até certo ponto. ELE VAI DIZER QUE VOCÊ PRECISA SE SUBJUGAR, SE OPRIMIR, SE INFERIORIZAR, SE REBAIXAR, SE ENCOLHER E CEIFAR SEU POTENCIAL. Ele vai colocar metas IMPOSSÍVEIS para você, mulher, e você vai acreditar que a errada é você, por não conseguir bater a meta. E depois, quando ele descobrir que você sabe o que é o feminismo, ele vai dizer que é ruim.
Ele vai te fazer acreditar que o feminismo não é bom. Ele vai te fazer pensar duas vezes ao conversar com uma feminista. Ele vai SEGREGAR AS MULHERES. Ele quer que você fique calada, como sua antepassada que vivia em 1800 e alguma coisa. Não deixe ele fazer isso, por favor, irmã. Nós não nascemos para ficarmos caladas.
E se ele quiser dizer que você é puta, deixe. GRITE COM TODA SUA FORÇA: EU SOU PUTA! SIM, EU SOU FEMINISTA E EU SOU PUTA. Abrace esse rótulo que te deram, e transforme em algo bom. NÃO SEJA SILENCIADA, não deixe que te calem. Lute pela sua palavra, pelo seu direito, não deixe que lutem por você. Tenha certeza que você está lutando por você mesma.
Querida irmã, por favor, tenha consciência que mudanças nunca são agradáveis. Mudanças incomodam. Mas só aquelas que têm potencial para dar certo. Continue, acredite em você mesma. Lute contra todos os que disserem que você não pode, porque acredite, você pode. Então se está incomodando, continue, porque está dando certo. Se isso tudo é ser errada e ser puta, então, realmente…
Eu sou puta, sim.
Com amor,
Daphne Cornelia Bagshot.








