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Speedpaint: https://youtu.be/666suot6cMQ
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Um cão, dois corvos. - Parte 3
Será que meus sonhos iam parar?
Não. A resposta definitivamente foi um grandioso NÃO em neon, com setas brilhantes apontando para a palavra. Ótimo, sensacional e perfeito, é o que aquela partezinha de mim pensava quando encontrou com aquele garoto mais uma vez em meu sono perfeito, que me tirava o fôlego e que me fez vê-lo como mais do que só alguém que minha mente tinha imaginado. Sinceramente, eu não seria capaz de imaginar algo daquela maneira; minha criatividade era péssima quando se tratava disso, então… de onde vinha aquele garoto? Certamente algo estava para acontecer e eu sentia isso na base da minha espinha.
— Sum? — perguntou Ursula, tirando-me dos meus sonhos mais normais, que envolvia um único gatinho que eu queria voltar correndo para buscar o mais breve possível, próxima do meu rosto durante o começo da manhã (leia-se exatas quatro e meia). Resmunguei e puxei o cobertor para cima da minha cabeça, como se ela realmente fosse minha mãe. — Summer! — chamou num sussurro mais alto, evitando acordar os outros campistas do Chalé 11; mas não obstante, a loira puxou o cobertor.
— O quê?! — olhei para ela ao me sentar rapidamente, com minha expressão mais carrancuda. Isso não a fez se encolher; Ursinha não tinha mais medo de mim, simplesmente não ligava se parecia que eu ia enfiar minha foice direto em seu estômago. Eu apreciava muito isso, ela foi a melhor pessoa que podia ter conhecido até então.
— Eu só ia perguntar se você tá com fome! Tô indo no pavilhão. — cruzou os braços magros cobertos por seu moletom vermelho, que era um tanto maior que seu corpo. Franzi o cenho e pensei, por um momento, se estava mesmo com fome; mas a resposta veio com um bocejo e voltei a cair na cama, me aconchegando nos lençóis e no colchão macio.
— Ainda não, daqui a pouco. — murmurei em minha voz mais sonolenta e puxei os cobertores. Ursula suspirou e saiu do Chalé, com sua furtividade perfeita para evitar algumas das harpias que poderiam estar pegando no pé aquele horário. Não eram muitos os que forçavam a paciência delas, mas tinha virado um costume nosso levantar cedo pra fazer uma boquinha e voltar a dormir durante o resto da manhã.
Talvez eu devesse ter ido mas talvez não. Conhecer o garoto dos meus sonhos vinha sendo meu objetivo desde que voltamos da Grécia e ser Reclamada não tinha afugentado meus demônios pessoais, não tinha afugentado aquele sentimento esquisito dentro de mim de que eu não pertencia a lugar algum, de que eu não deveria existir. Meu momento de paz, o que me dava um objetivo, era descobrir quem era ele… Bom, não era fruto da minha imaginação, achei; então tentaria perguntar da próxima vez. Estava decidida.
Foi pensando na minha antiga vida, em quanta coisa poderia ter sido diferente se esse lugar tivesse sido descoberto antes, em quanta coisa poderia ter sido diferente se eu soubesse desde o começo que Jose não era e nunca foi meu pai, que adormeci. Primeiro, foi um sono sem sonhos, um sonho em que nada acontecia além do breu forte e que me levou ainda mais fundo para a inconsciência, aquela em que eu achava que nada podia me afetar. Lembro de sentir frio e o caminho até o sonho me levou direto para a porta do Chalé.
Estranho, eu sei. Abri a porta e a brisa do fim da tarde assolou meu corpo coberto apenas pela blusa de lã preta com buracos nas mangas para que eu pudesse passar os dedos; minhas pernas estavam nuas, sempre nuas, mesmo que usasse uma mini saia godê que ia até pouco acima das coxas; os coturnos nunca ajudaram no frio. Poderiam ser uma espécie de botas, mas eram geladas como o coração daqueles que me criaram. Vi as pessoas que tanto conhecia perto da fogueira, mais uma vez assando marshmallows no fogo que claramente foram roubados do mundo exterior.
Mas eu não ligava. Abri meu maior sorriso e fui para perto deles, precisando me aquecer e não dei oportunidade de ser recusada ao me aconchegar perto de Ursula e peguei um dos gravetos do chão. O clima estava legal perto deles, não posso negar, mas o restante do Acampamento parecia tenso para outros, respirar por algo que não chegava, em expectativa. Era como no dia em que fui Reclamada, me sentia bem porém tudo ao meu redor não, e dessa vez, era muito mais intenso, muito mais forte e poderoso.
E me fez pensar naquilo que reivindicava minha mente com violência. “E se eu soubesse que Thanatos sempre foi o meu pai?”. Tahli teria feito o que fez? Meu pai teria feito o que fez? Eu teria feito o que fiz? Porra. Comecei a me sentir inquieta e sabia qual era a única coisa que me acalmaria, mas ali não tinha. Não ainda. Mas não podia ligar para ninguém da minha antiga vida, nem mesmo para para qualquer outro que pudesse me reconhecer, precisava achar meus meios de conseguir o que faltava para mim. Precisava desbravar Nova Iorque e não sabia se alguém do Acampamento toparia essa missão ridícula.
— O que foi? — a cacheada perguntou ao notar que eu estava distraída e quase dei um pulo de susto. Eu sabia que ela não podia ler meus pensamentos e balancei a cabeça, abrindo um sorriso nervoso e levantei. “Vou dar uma volta”, foi a melhor desculpa em que pensei na hora, mas nada justificaria o doce queimando na fogueira de oferendas… quem sabe uma oferenda para Héstia poderia. Pisquei para minha melhor amiga e saí andando.
Fazia uns bons minutos que estava caminhando em direção a lugar nenhum… Aqui, me mantinha longe dos cavalos e das ninfas, nenhum deles pareciam se dar bem comigo e também não era como se eu me importasse. Mais pessoas… Ok, eu me importava. Então eu notei o monte de sombras que parecia estar me seguindo; e não era meu pai, tampouco eu mesma, ou qualquer outro campista. Não tinha ninguém por perto. O que era o mais inteligente a fazer num momento como aquele? Isso mesmo, CORRER.
Porém Summer Black não tinha mais medo, não depois de tudo o que tinha passado nos braços da Família. Aquilo iria me levar longe ainda e não esperei mais. Virei e ergui as mãos, com as asas que eu tanto amei me fazendo arfar ao se abrirem num caminho por minhas costas e se agitarem em um esplendor com sangue quente e pegajoso. Meus dedos se abriram e movimentei os braços ao tentar segurá-las no lugar, bem longe de mim, talvez não fosse algo bom já que me arrepiava todinha.
Mas elas se aproximaram, fortes e poderosas. Eram gélidas e os gritos de terror, horror e dor invadiram minha mente. O calor era insuportável, diferente daquele frio que senti antes… E assim que chegaram perto o suficiente, se abriram em duas, como um caminho que agitava meu cabelo e as roupas; era como um redemoinho maligno e sombrio que não me assustava nem um pouco. Um sussurro tomou meus ouvidos, era uma mulher que tinha a voz tão velha e antiga, mágica, quanto qualquer outra que já tivesse ouvido antes, dizendo algo em grego “Ερχεται”. “Ele está chegando”.
Um arrepio percorreu meu corpo e de dentro do furacão, uma silhueta se destacou. E eu o vi, mais uma vez, em sua postura reta e firme; com o sorriso perfeito e arrogante pintando uma expressão que podia ser tanto satisfeita quanto enigmática, os olhos claros direcionados para mim com um desafio explícito, enquanto segurava uma espada cravejada de rubis em sua empunhadura. — Esperou muito? — foi sua voz que me desestabilizou e fez meu coração parar por bons momentos. Eu já não sentia mais o frio ou calor, o vento não me incomodava e tudo que precisava era me aproximar um pouco mais.
Com um passo após o outro, eu tentei. Tentei muito chegar perto e não consegui; eu ergui o pé para dar mais um e caí em um buraco muito mais profundo do que jamais imaginei ser possível. Meu corpo inteiro se arrepiou e dei um pulo na cama ao me sentar, veloz. Arfando, levei a mão ao coração e pude notar o quanto estava trêmula. Levei os olhos para a figura ao pé da cama e peguei a foice, que ficava logo abaixo do travesseiro, rapidamente. Mas que droga!
— Calma! Sou eu! Trouxe comida… Poxa, Summer, eu não sou um fantasma! Você podia me matar com isso — disse a Ursula ao indicar com o queixo a lâmina escura, erguendo as mãos pequenas cheias de salgadinhos, enquanto o bolso canguru do moletom estava lotado de refrigerantes. Nosso café da manhã. Seus olhos estavam alarmados e eu não sabia mais nem como reagir, além de rir de nervoso e passar a mão pelo rosto. Estendi a livre e engoli em seco, pegando um dos salgadinhos e dando um espaço pra ela sentar.
— Desculpa. — respirei fundo e abri o pacote, enfiando uns montes na boca. — Você não vai acreditar nos sonhos que eu tô tendo. — comecei a contar, despejando tudo em cima dela como se fossem mesmo sonhos. Mal sabia o quanto estava sendo tola. O destino gosta de brincar.
Um cão, dois corvos. - Parte 2
A Grécia era esquisita.
Não tinha muitas luas que tínhamos chegado ao Acampamento, mas nem por isso significava que eu não estava achando aquilo tudo uma loucura. Era gente demais pra lá e pra cá, festa ao deus ferreiro, preparativos para umas tais Olimpíadas que nunca ouvi falar e pessoas correndo para arrumar o barco voador que não sei quem quebrou durante a batalha para encontrarem o Espírito da Vitória. Mesmo o sol ali parecia muito quente, o ar seco… faltava uma praia, isso era óbvio. Os pequenos riachos não eram grandes o suficiente para que pudéssemos nos refrescar com frequência.
Mas era só isso que me incomodava de verdade; eu estava amando o calor. As pessoas em demasia até que tornavam o clima mais confortável; parecia que todos eram uma família enorme e feliz, em que todos se conheciam e poucos deles realmente não se gostavam, mas isso poderia ser facilmente arrumado se conversassem sobre suas diferenças. Não que tivesse muito a dizer sobre isso, as únicas pessoas com quem já tive desavenças fortes (leia-se pai e mãe), estavam mortos. E eu estava especialmente feliz por isso, nunca me senti tão livre de amarras.
Eles não povoavam mais os meus sonhos, como era quando cheguei ao Meio-Sangue. Não, não tinha nada a ver com os dois ou com a mulher linda de cabelos esvoaçantes que vinha do mar para cuidar dos meus machucados depois de um ataque de raiva do meu pai. Nunca entendi direito o porquê que ela vinha de lá, nunca fez sentido, mas talvez hoje em dia fizesse. Sonhava com ela constantemente, com suas palavras doces e o barulho do mar no meu ouvido quando tento lembrar de sua palavras; toda vez que ela vinha, toda a dor ia embora depois do toque da água. Sinto falta dela e de seus olhos que pareciam feito de pérolas, de tão brilhantes.
E ainda preciso descobrir quem está aparecendo em meus sonhos, que risada era aquela que ainda ouço ecoar contra minha orelha toda vez que fico distraída. Foram dias pensando e noites revivendo aquele lobo enorme em minha cabeça e sonhos. Entretanto, quando deitei na cama do Acampamento, não foi esse sonho que tive.
Dessa vez, a minha eu estava deitada sobre a planície longa ao pé da colina, descansando debaixo do sol ameno que se punha; machucada por algum treino que tivesse acontecido, e por isso não estranhei nada. Os meus olhos estavam cobertos pelo óculos lindos que Ursula Starkiller, minha melhor amiga, deu-me de presente de aniversário de amizade e combinava perfeitamente com a mini saia vermelha que roubamos certa vez. Foi a coisa mais fofa que alguém já fez por mim e não pude deixar de me emocionar até mesmo no sonho.
Um movimento à direita no céu, que eu claramente não esperava, chamou minha atenção e apertei os olhos para tentar ver melhor; como se fosse conseguir, isso não funciona na prática mas o corpo humano tende a fazer essas merdas pra compensar as falhas que temos em nossos sentidos. E olhe que são muitas. Enfim, parecia um enorme pássaro voando a uma distância extremamente longa, mas ainda assim, estava tão grande que parecia estar por perto, me deixando confusa para a visão que tinha deles. Como poderia estar longe e perto ao mesmo tempo? Isso também não normal, até mesmo para os sonhos que eu costumava ter antes desse.
Minha atenção foi parar todinha em como aquelas asas reluziam contra a leve luz do sol, em como batiam em sincronia com meu coração. Parecia um corvo enorme, por assim dizer, mas era muito cedo para que estivesse no ar. Todos os que vi tinham um hábito, que claramente não era o deles. Logo me distraí com o vôo rasante de mais um corvo que pareceu vir do nada e eles dançaram juntos no ar como se fossem conhecidos.
É o que dizem da mãe natureza, né? Cheia de surpresas e com uma imensidão de possibilidades que ninguém podia negar. As asas de ambos pareciam entrelaçar-se no ar, mesmo que a do outro não fosse tão brilhante, parecia uma massa feita de sombras que poderia ser como aquelas que controlo de vez em quando, só não poderia dizer com certeza; estavam muito longe. Por um momento, senti-me como se estivesse voando e meu coração parou por um minuto. Ainda não sabia quem era meu pai e não tinha ideia se era mesmo um pai, mas quanto seria legal se eu pudesse voar?
Peguei-me pensando nisso durante o tempo em que fiquei os observando. Se mais alguém estivesse vendo, poderia ser claramente dito que eram mesmo amigos. Eles voavam em sincronia, como se lessem os pensamentos um do outro e aquilo era lindo de ver. Deu vontade de pintar sobre isso e não seria difícil, a memória estava fresca na mente e eu queria muito muito desenhar. Foi quando fiz menção de levantar que a tontura me assolou e cai de volta ao chão.
Os pássaros estavam perto, muito perto e não entendi o motivo pelo qual pareciam tão familiares. Espera. Não eram pássaros, eram semideuses. Franzi o cenho e não me atrevi a levantar de novo, só observei como fiz durante todo o sonho. Sem tonturas dessa vez, garota, você consegue ficar parada. O sol já estava quase todo escondido para dar lugar a noite que Selene trazia, mas ainda conseguia distinguir suas formas humanas. Era uma garota e um garoto e rapidamente reconheci a saia que a garota usava. Era a mesma que eu estava usando e franzi o cenho.
Ah, não. A risada dela me arrepiou todinha, era animada, memorável e minha. Que merda sonhar comigo mesma. Fiz uma careta e suspirei, descendo os olhos minhas mãos e tentei levantar de novo, mas não foi uma tontura que veio, foi mais um soco no estômago. Eu ouvi a voz dele e cada vez que penso naquele som… era grave, com um timbre rouco, sua fala era um pouco arrastada, como se tivesse algum segredo escondido nas entrelinhas de suas palavras, mas um quê de perigosa e maliciosa que faziam com que eu perdesse o ar. Era viciante ouvi-lo e eu mal consegui prestar atenção no que era dito, mas ouvi e tenho certeza de que aquele som me seguiria por dias a fio.
— Quem chegar primeiro ao pavilhão escolhe a comida? — a minha outra eu do sonho tinha perguntado em seu tom… no meu tom animado.
— Você pode ser rápida no ar, mas não aqui, Sum. É melhor correr ou vou te pegar. — o garoto mal tinha terminado de dizer sua ameaça e a morena com as feições levemente distorcidas começou sua corrida, emitindo sua risada animada. Mas ele tinha razão, era muito mais rápido do que ela.
Se eu tremi, imagina minha outra eu do sonho que parecia conhecê-lo. Fiquei me perguntando quanto tempo demoraria para entender o que meu subconsciente queria dizer com tudo aquilo, pelos deuses. Voltei a deitar na grama, mas foi uma péssima decisão; o mundo começou a girar e eu ficava ouvindo repetidamente a voz daquele garoto me chamar “Summer, Summer, Summer…” como sussurros vagarosos e provocantes que deixaram sua marca na minha alma. Ele repetia e repetia, mas de repente meus olhos se abriram e vi a minha melhor amiga à minha frente. — Que porra foi essa, Ursinha? — perguntei, um pouco trêmula.
— Tá na hora de voltar para o Acampamento. Vamos. — e me puxou para a Cerimônia de Encerramento das Olimpíadas. Pelos deuses, será que eu pararia de sonhar com aquele garoto? Estava dividida; uma parte de mim queria que isso acontecesse, a outra queria que ele nunca mais saísse da minha cabeça. Que baita criatividade para criar um homão desses. Mas as duas partes queriam muito descobrir o que estava acontecendo de uma vez por todas. Será que meus sonhos iam parar?
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