Another trouble -x- Margo
Quando as pessoas escutavam saltos tilintar no piso amadeirado, costumavam afastar-se imediatamente. Grandes executivas usavam saltos, assim como poderosas advogadas, e as mais ferozes diretoras estudantis. Price, somando mais dez centímetros a sua altura já exagerada, também utilizava saltos, e abria o caminho enquanto passava pelo corredor superior da escola. Brancos, de bicos redondos e pontas afiadas como as navalhas em seus olhos, não havia quem fosse louco suficiente para interromper o caminho do professor quando seus passos largos e firmes quebravam o silêncio daquele ambiente escuro. Olhos curiosos acompanhavam a estranha figura pelo caminho retilíneo, sem coragem de encarar por muito tempo.
Retirado de sua aula para os seniors, Price queria acabar com aquela palhaçada o mais rápido possível, odiava ser interrompido em seus deveres. Com as mãos fechadas em punhos ao lado do corpo rígido, nódulos arranhando-se nos jeans escuros, percorreu o último lance de escadas envernizadas até encontrar-se diante das envidraçadas portas de correr que deixavam escapar a luz solar do outro lado. O silêncio que o cercou com o abrupto parar do tilintar de seus saltos caiu como um manto frio em seus ombros tensos, uma sombra do inverno que há pouco terminara. O homem ergueu o queixo como em desafio, e bateu três vezes antes de entrar no aposento nem tão familiar. Não se lembrava de estar ali mais de cinco vezes. Uma em sua admissão, e quatro delas... Quatro delas envolviam o mesmo nome.
Invadido pela luz não contida pelas gigantescas janelas e afundando os pés no carpete vermelho, não foi surpresa encontrar aquele mesmo rosto, presença constante em seus dias desde que voltara do Brasil, rodopiando na cadeira de rodas de um lado da mesa. O professor abriu um sorriso de dentes perfeitos e brilhantes, aproximando-se da menina e deixando um leve roçar de lábios em sua testa quente. Margo sempre parecia estar com o sangue a ferver debaixo da pele, eternamente aquecida para uma briga. Os olhos ferozes atingiram o diretor sentado do lado contrário, desmanchando o sorriso enquanto aqueles fios brancos e desalinhados travavam sua mandíbula. Price o cumprimentou com um aceno de cabeça rigoroso, e sentou-se na cadeira ao lado da aluna, cruzando os braços defronte o corpo.
- Senhor? - perguntou sem delongas, os lábios levantando-se milimetricamente de cada lado, dedos alvos em contato com o tecido negro e pesado que cobria seu corpo. Ele esperava que Margo não estivesse em problemas outra vez, ou definitivamente não voltaria a dar sua amada aula sobre comédias gregas.