- Lucas, acorda aí. – falei ao telefone, chorosa. -Hm? – foi tudo que ele conseguiu falar, parece que eu havia interrompido o sono do pobre garoto. Tadinho, mas era por uma boa causa. -Eu escutei um barulho na cozinha. -Vai lá ver se é alguém, Tati medrosa. -Há. Há. Há –forcei uma risada - muito engraçado. E se tiver mesmo alguém lá? O Lucas era um vizinho. Ele morava no apartamento em frente ao meu. Se ele saísse messe exato momento na varanda do seu quarto, eu poderia enxergá-lo da minha. Já nos comunicamos assim. -Sim, então pede pra alguma das suas amigas que moram aí com você ir até à cozinha ver se tem alguém. – ele sugeriu. -Elas saíram. Estou sozinha aqui. -Hmmm... isso me anima. Revirei os olhos e me virei de lado, na cama. -É sério, Lucas. Eu to com medo, que droga. -Tá. E o que você quer que eu faça? -Sei lá. Qualquer coisa. -Hmm... – eu odiava quando as pessoas só sabiam fazer esse barulho numa conversa. – E a Natália e a Ana foram para onde? -Um casamento. -E você não foi convidada? – senti o tom de indignação. -Eu fui, não sou tão antissocial como você pensa. É que eu to meio indisposta mesmo. – Falei bocejando. -Cara, você me acordou na melhor parte do sonho... bem na hora que eu ia beijar a Megan Fox. -Você é doente! – exclamei descontraída, já esquecendo que estava com medo. -Claro que não. Vai me dizer que você nunca... -LUCAS! Pulei da cama com os olhos arregalados, tirando o celular do ouvido. Eu havia escutado de novo um barulho na cozinha. -O que foi, Tati? – ele quase gritou do outro lado da linha. Deitei novamente, me cobrindo toda, doa pés a cabeça. Coloquei o celular no ouvido novamente, e falei quase sussurrando: -Acho que tem alguém lá mesmo... Escutei o Lucas se mexer na cama. -Calma aí, aparece aí na varanda. Levantei e fui até a varanda, tremendo com o frio. Em poucos segundos, vi a luzinha da sua varanda acender-se e ele aparecer, de pijama branco. Mesmo com a distância deu para perceber que o cabelo dele estava um pouco bagunçado. -Tá me vendo? – ele perguntou. - Tô sim. -Eu não to te vendo. Porque você não acende essa luz? -Tá queimada. Mas pode confiar, tô te vendo. Vi ele levantar uma das mãos. -Então qual é a cor da minha roupa? -Branca. -Hmm... você tá aí mesmo. Qual é a cor da sua? Só pra mim saber... Franzi a testa, sem entender porque ele queria saber daquele detalhe. Olhei para mim mesma. Eu usava uma camisola de seda rosa, que minha mãe havia me dado no natal. -Rosa. – respondi ao telefone. -Hmm... que sexy. Ri involuntariamente, já esquecendo que estava com medo. -Você é idiota! Lucas era um bom amigo. Mas tinha essas brincadeirinhas sem graça de vez em quando. Mas eu gostava delas, porque era o jeito que ele arranjava de me distrair direitinho quando eu estava tensa, preocupada ou de TPM. -E aí, passou o medo? – ele perguntou. -Eu já tinha até esquecido, mas você foi lembrar! – respondi em tom de acusação. -Pois vou fazer você esquecer de novo. Esperei a besteira que ele falaria dessa vez, encaixando meus dedos nos furinhos da rede de proteção. -Gata, você joga pôquer? -Sim, por quê? -Pô, quer focar comigo? Ouvi-o rir muito do outro lado da linha, ao mesmo tempo em que o via se contorcer em risos, no para peito da varanda dele. -Ah, agora você vai negar que foi boa... – ele mostrou indignação. -Gato, você lê Franz Kafka? – foi a minha vez de perguntar, mas antes que respondesse, falei risonha: -Traz o vinho e vem Kafka comigo! – Foi a minha vez de rir. Silêncio do outro lado da linha. -Não entendi. – ele disse, finalmente. Quase tive um surto psicótico. -VOCÊ NÃO SABE QUEM É FRANZ KAFKA? -Não. -Cara, é um escritor famoso! -Hmmm... -Escreveu A Metamorfose... -Hmmm... -Para de fazer esse barulho, isso me irrrita! -Ah, é? Sua mal-agradecida. Vou desligar, tchau. -Não, não faz isso, por favor... – pedi chorosa. -Só porque você é minha amiga... -Ah, eu te amo, você sabe... -Ama mesmo? Hmmm... Ri involuntariamente. -Amo sim. Eu amo todos os meus amigos. – bocejei – Ei, que horas são? -Peraí. Vi-o olhar as horas no celular, enquanto ele passava a mão pelos cabelos despenteados. -Duas e quinze. -Tá com sono? -Só um pouquinho... -AI! – gritei, olhando para trás. Barulho na cozinha de novo. -Ei, você quer que eu vá aí ver o que é? -Eu não teria coragem de ir abrir a porta pra você. -Mas, Tati, como alguém entraria no seu apartamento? E trancado? -Sei lá... pode ser um espírito também. – Achei-me bem corajosa ao tocar nesse assunto, quando eu estava sozinha em casa, às duas e quinze da manhã. -Uuuuh... – Lucas fez. -PARA! -Pois vai ver o que é! Anda, vai logo. Deixa de ser medrosa, Tati. Seja corajosa! Reuni todas as minhas forças e comecei a andar para trás. Atravessei o quarto e peguei no trinco da porta, apertando-o com força. “Vamos lá, garota, você consegue...” Fechei os olhos, respirei fundo e abri a porta de uma vez, abrindo também meus olhos. -AAAAAAAAAAAAHHH! – gritei, sentindo meu coração na garganta e todo o meu sangue fugir da face. Natália também gritou, assustada comigo. -O QUE ACONTECEU, TATI? – ela perguntou. -E-eu na-não sabia que... que era você. Ela me olhava incrédula, segurando um pedaço de bolo na mão. -Ai, que susto você me deu. Ana chegou ofegante ao meu quarto. -Gente, o que houve? -A Tati aí, que pensou que eu er um ladrão ou não sei o que... – ela voltou-se para mim – A gente veio embora mais cedo e eu fui fazer um lanchinho. Trouxe até esse pedaço de bolo pra você, mas fui recebida assim... Eu não conseguia dizer uma só palavra, mas de repente, lembrei-me do Lucas, que eu havia deixado na ligação. -Alô? – perguntei, pondo o celular de volta ao ouvido. -Com que você está falando a essa hora? – minhas amigas perguntaram em coro, a me olharem, curiosas. -Tati? O que aconteceu aí? – Lucas perguntava do outro lado da linha. Comecei a expulsar minhas amigas do quarto sob protestos de eu contar com quem estava no telefone e se eu estava namorando. Quando elas finalmente saíram, tranquei a porta e corri para a varanda. -Não era ninguém não, era só a Nati. – expliquei. -Agora posso dormir? -Pode não, to sem sono. Silêncio profundo, ele apenas se debruçou sobre o para peito da varanda. -Estou brincando. Obrigada por me aguentar. – falei por fim – Boa noite. -Não, espera. – ele falou. – eu gosto de conversar ao telefone de madrugada. Ri, o observando de longe. -Mas eu tenho que dormir... – comecei. -Tá bom. Boa noite. Quer dizer... bom dia né? Ri mais uma vez. -Bom dia. Desliguei, voltei para a cama. Pouco tempo depois uma mensagem no meu celular: “Ei, princesa. Se não conseguir dormir, me grita da varanda, viu?” Até que o Lucas era atencioso comigo... ele daria um ótimo namorado. Mas ele era um bom amigo... um grande amigo. Mas era apenas um amigo.
Tateando amores - Um barulho na cozinha.













