O pior de todos
Spoilers pesados do episódio 9 de Hexatombe, leia por sua conta e risco!
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Depois da batalha na igreja, Remi pensa naquilo que ganhou e perdeu em poucos dias.
Contém: Remi x Maria x Jasper; angst; morte canônica de personagem; Remi-centric; estudo de personagem; luto; fanfic sem falas; pronomes ele/elu para Remi; pronome ela/ele/elu para Maria; leve reflexão religiosa
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Dizem que uma dor pode anestesiar a outra. Remi sabe que isso é verdade. Afinal, a dor física não é percebida agora que elu quer urrar por dentro.
Elu já passou pela perda antes. Sabe como é a sensação. Já perdeu amigos. Nem dois dias atrás, perdeu Tuco.
Porém, dessa vez, dói de um jeito diferente. Mas não é pela natureza de seu relacionamento com os dois. É porque, além da falta, do vazio formando um buraco em seu peito, há algo a mais. Culpa.
Culpa por não ter escolhido salvar Maria. Por não ter feito qualquer coisa para conter Jasper antes que ele matasse Caio. Por não ter os ajudado quando precisavam.
Mas também era culpa por ter machucado Maria. Por tê-la quase matado e dito coisas tão cruéis, mesmo vendo o estado instável, tanto físico quanto mental, delu. Por não ter lhe valorizado tanto quanto deveria. Por não ter contado a Jasper aquilo que sentia. Por não ter deixado claro o quanto se importava com os dois.
No início, ele achou que o que sentia era apenas uma consequência da escolha de passarem a noite junto de Escarlata. Mas, mesmo após a morte da mulher pelas suas próprias mãos, os sentimentos por Maria persistiram, e, ao mesmo tempo, cresceram, direcionando-se agora a Jasper também. Para si, aquilo era... estranho, pois não se recordava de ter sentido algo similar antes. Era tão novo...
Mas tudo ali também era novo. Não apenas devido à perda de memória. O Hexatombe pareceu durar muito mais tempo, mas foi tão curto. Elu conhecia todos ali a tão pouco tempo.
Elu devia chorar? Devia sentir essa dor da perda e da culpa tão intensamente? Como poderia sentir isso em relação a algo que mal começou? Se pensar bem, mal os conhecia. Mal conhece Lena e Juan. São quase estranhos uns para os outros.
Como o tempo pode se arrastar assim? Fazer uma semana parecer meses, anos ao lado dessas pessoas? Mesmo a brutalidade do Hexatombe não conseguiu fazer isso parecer-se com o que realmente era. Se qualquer coisa, a intensidade daquele ritual maldito aumentou os sentimentos de Remi, talvez os de todos também.
Tempo tão pequeno. Pequeno demais. Pequeno demais para os sentimentos enormes em seu peito.
Foram dias infernais, lutando pela sobrevivência, contra pessoas e monstros que os queriam mortos. Ainda assim, como esse tempo lhe pareceu mais importante?
Mais importante que os últimos anos de sua vida na Ordem. Anos guiados puramente por rancor, egoísmo, vingança, ódio e arrogância. Em que todos os dias lhe pareciam iguais, uma busca sem fim e desesperada pela atenção e também pela ruína de Veríssimo. Colocando uma adolescente inocente como alvo de sua obsessão maldita. Sem momentos felizes. Sem outro propósito.
O inferno, ainda que proporcionasse imenso sofrimento, também foi a primeira vez em anos em que se sentiu vivo de verdade.
Que irônico. Justamente no seu tempo sem memórias, com um grupo igualmente amnésico. E que grupo ridículo eles eram não, é? E, ainda assim, percebe que os amou. Um cão de guarda medroso, um enfermeiro obcecado, um guerreiro piadista, uma mãe enlutada e impulsiva, um sacrifício que late e morde e um músico egocêntrico e cruel.
As palavras que disse a Maria na noite anterior continuam a martelar em sua cabeça. Lembrando-o de seu erro.
“Aprende a me ouvir. Se joga nas balas por mim. Eu sou melhor que você.”
Ele sempre soube. Seus amigos o avisaram. Veríssimo o avisou. Até seu grupo. E, mesmo assim, Remi nunca aprendeu. Nunca se esforçou para superar seu maior defeito.
Arrogância.
Sempre se achou melhor. Sempre se achou superior aos outros. Sempre se achou merecedor de mais.
Foi isso o que o fez desesperado pela atenção de Veríssimo, foi isso o que fez a inveja contra Arthur Cervero crescer como uma praga dentro de si, foi isso o que fez com que ferisse Maria e não se arrependesse até que fosse tarde demais.
Ele achou que teria tempo depois. Tempo de amar. Tempo de conversar. Tempo que ele mesmo traria, que ele mesmo tornaria realidade, pois não permitiria que Maria ou Jasper morressem.
“Não tem espaço pra erro.”
Elu sempre disse isso para si, porque se era o melhor, então não deveria errar. Mas hoje aprendeu, às custas das vidas de pessoas que amava, que sempre havia espaço para erros.
Remi errou.
Incontáveis vezes, com ambos. Falhou em tentar compreender o amor puro de Jasper e o caótico de Maria e falhou em salvá-los. Estavam mortos por seus erros.
Se Remi era melhor, então porque errou? Porque não fez o que era melhor para ambos?
Ele quase deseja ter estado certo, quase deseja ter realmente sido o melhor. Se fosse, sua flor e sua joia ainda estariam aqui.
Elu fez tudo errado, e agora paga o preço. Deveria ter ouvido Maria, se jogado na frente daquele monstro por ele, entendido que aqueles que o rodeavam eram muito melhores do que ele mesmo jamais poderia ser.
Aqueles que se acham inteligentes é que são tolos, não é isso o que dizem? Então, ele era o maior tolo de todos.
Os acontecimentos da igreja se repetem de novo e de novo em sua mente. Como viu Raziel destruir o rosto de Cindy, e ainda assim não agiu para salvar Maria, que estava ferida e tão próxima dele. Ao invés disso, priorizou alguém que não era importante para si e, no momento seguinte, viu o rosto que aprendeu a amar ser devorado por um demônio. E, então, Jasper se perdeu, perdeu para o controle da máscara, para Aguiar, para a dor que sentia por Maria, pois Jasper amava demais. Remi pôde perceber isso naquele momento, viu que o homem perdeu aquilo que era, e mesmo assim não tentou trazê-lo de volta, só observou enquanto o necessário tiro de Lena salvava sua própria vida sem se mover, viu o corpo do Mutilador Noturno cair com uma máscara despedaçada e lágrimas nos olhos.
É estranho. Eles começaram a se relacionar quando viviam em corpos que não lhes pertenciam. Mas ele nunca se apaixonou pelos corpos de Jae e Aguiar. Ele só os achou belos quando se apaixonou por Maria e Jasper. Quando Maria voltou sem necessidade para salvá-lo do Quibungo e quando Jasper o mostrou seu interior e traumas crus, ambos sem medo nenhum.
Agora que recuperou suas memórias, Remi sente alívio, de certa forma, pois não esquecerá dos rostos reais deles, ainda que nunca tenha dito a esses rostos o quanto os amou, mesmo na época em que não se lembrava deles.
Uma conversa com Jasper de repente lhe vem à mente. Parece ter sido a tanto tempo e, ainda assim, está gravada em seu cérebro.
“Você acredita em Deus?”
Remi nunca foi religioso, e não sabe como se sente em relação a isso agora. Um Deus justo deixaria isso acontecer? Deixaria Maria e Jasper morrerem enquanto Remi continua a viver? Ou permitiria isso para castigá-lo, fazê-lo carregar esses fantasmas pelo resto da vida por conta dos erros que cometeu? Mas os dois mereciam ser usados, terem suas vidas destruídas, apenas para servir como uma punição para Remi?
Jasper acreditava em Deus. Se agarrava a essa crença. Ele acreditava que, se o paranormal existia, então também deveria existir algo bom. Remi gostaria de conseguir acreditar nisso.
Se Jasper e Maria estiverem o vendo, certamente o odeiam. Ele os feriu, os negligenciou e os deixou morrer, e agora tem a chance de viver quando eles estão presos para sempre naquela igreja maldita. Remi não os julga por isso. Ele merece o ódio de ambos. E não deixa de amá-los.
Deus, se você existe, me conta se eles estão felizes.
Bom, onde quer que estejam, deve ser melhor do que esse lugar, não é?
Se Jasper e Maria o virem, ele espera que saibam o que ele quer dizer e nunca falou. Não só seus sentimentos ou suas desculpas, mas também outras coisas. Para eles e para outros que ama.
“Jasper, queria te fazer enxergar que é mais forte do que achava, que podia contar conosco quando tivesse medo, que não precisava se ferir pra mostrar que nos amava.”
“Maria, queria te fazer sentir especial do seu próprio jeito, te fazer perceber que é melhor que esse corpo, que é muito mais incrível do que você via e do que eu via.”
“Tuco, queria te contar o quanto você era nosso maior apoio, que não podia se jogar no perigo sem pensar em quem ia deixar, que seu coração valia mais do que qualquer coisa que esse ritual pode dar.”
“Lena, quero te mostrar o quanto você vale pra nós, que você é a pessoa mais gentil aqui, que vamos ficar ao seu lado mesmo quando seus fantasmas atacarem.”
“Juan, quero te mostrar que nos importamos contigo, que você não é algo a ser descartado, que é alguém especial pelo qual vamos lutar pra salvar.”
Ele não falou a quem perdeu o quanto os amava. Nem mesmo para seus antigos amigos.
Mas ele vai contar a Lena e Juan. Precisa contar. Afinal, eles são tudo o que lhe resta.
Maria e Jasper morreram por sua arrogância. Se ele não melhorar agora, nunca vai.
Ele vai levá-los para sempre consigo, as coisas boas e as ruins que lhe deram. A intenção de Jasper percorre seu corpo, e a de Maria também o fará. Pois isso é o mínimo que Remi deve fazer por eles, mesmo que nunca compense tudo o que tirou dos dois por conta de seus próprios erros.
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Desculpa... tô com medo do último episódio, segura minha mão. Esses não-binários tóxicos e o golden retriever deles alugaram um triplex na minha cabeça, esse trisal me matou. Mas eu chamo isso de poliamor win então vambora. Morra Giovanni Opspor




















