Que face deve ser usada? Irritação? Tristeza? Felicidade? Difícil de saber, pois a dona dessas faces está levemente confusa para procurar uma face e apresentá-la, logo uma tela em branco parece ser perfeita para acompanhar um mínimo sermão: “O que você acha que vai ganhar por voltar dessa forma? Uma medalha?” Suspirou pela clara razão de frustração, não pelo espartilho a sufocando além do normal, pois estava visível que este estava mais solto, suas vestes pareciam mais soltas e relaxadas que o normal, menos pesadas no geral. Os dedos cobertos de açúcar pelos biscoitos de manteiga que consumia rasparam-se para se livrar dos grãos grudentos, quase enfatizando seu descontentamento naquele gesto que acompanhou o crispar de lábios. “Diferente de você, eu poderia ter morrido de tanto esperar em um sentido além do literal.” Ô animal dramático! Mal parece que disse essas palavras com voz monótona e face relaxada.
Erguendo-se daquela poltroninha velha adornada daquela típica estampa de flores com o auxílio de uma bengala, a bruxa sorriu brevemente enquanto prosseguia com seu sermão sem pé e nem cabeça. Bom, sem pé e nem cabeça estava a decoração daquele velho recanto que criara para ambas: parecia um local realmente habitado, não meramente usado para poucos fins e claramente não estava sendo habitado apenas por Vienne, mas por pessoas incrivelmente mais asseadas. “Você tem ideia quanto das minhas economias sua ausência me custou? Não da monetária, da emocional mesmo. Eu realmente estou disposta à te comparar com um brinquedo novamente, talvez até lhe direcionar meu ódio infantil como nos velhos tempos.” O tique-taque dos seus sapatos estavam mais surdos, sua altura reduzida indicava uma única coisa: não calçava mais os velhos saltos que serviam para não deixá-la tão diminuta perto das outras pessoas, coisa razoavelmente compreensível, pois a perda de cinco centímetros a fazia parecer uma bolinha de ossatura larga achatada que precisava erguer seu rosto para encarar a outra, visto que agora o topo de sua cabeça mal alcançava a altura do nariz alheio.
De repente, a bruxa sorriu de maneira larga, largando a bengala ao chão para ter liberdade de abraçar a outra. Suas saias azuladas e róseas como o amanhecer não mais conseguiam afogar as pernas da outra devido ao tecido mais pesado e ausência de pelo menos três saias inferiores, mas aqueles braços continuavam firmes e fortes. “Só que eu não vou fazer isso. Não dessa vez.” Seu corpo deu uma leve estremecida ao poder reencontrar aquele calor que tando adorava. “Posso ser a pior pessoa desse mundo, mas até a maldade e a corrupção tem seus limites.” Que bichinho exagerado, não é mesmo? “Eu não me permito fazer mal algum para alguém tão querido.” Seu rosto se aninhou sobre o ombro esquerdo daquela figura, deixando que aqueles cabelinhos negros cutucassem a tez de vidro da bruxa. Céus, como sentira falta daquela mocinha cuja idade ultrapassava trezentas vidas maiores que a da bruxa. Céus! Como aquilo era confortável!